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Escreve quem sabe

2020-04-28 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Perdido no tempo, Ferro Rodrigues carregou na adjectivação. Por momentos até eu me senti um facho ignóbil. Delírio que debelei com banhos frios, por paralisias hospitalares para morbo de baixa contaminação. Recuperei a sanidade – quanto me seja legítimo deliberar em causa própria –, mas deu-me, veja-se lá, para teatrar, e facho me fiz por sátira apurada. Máscara que me cai, garras retrácteis que me saltam, e eu que me faço a pio marco e a confrades beatos de fauces abertas e fomes leoninas. Ah! que bem me sabe estralhaçar um Abril claudicante, que mal se defende de quem farisaicamente fala em seu nome!
Comemorar Abril? Sim, claro, se uma imposição é de per si, ratificada, ademais, por choruda maioria. Ave, número que prevalece, somatório que de pouco valerá em pleito de anseios por um arejo, fins-de-semana de cancelos corridos e esbirros de guarda nas extremas dos concelhos, de praias insistentemente interditas – talvez por falta de ventilação e magra cubicagem, para recuperar o endosso da senhora directora-geral à função, talvez por total ausência de sentido das distâncias, por uma propensão tribal arcaica para a molhada, do povo que não sorveu Abril. Areais onde, mesmo lá para do Verão, um vírus alienígena possa estender toalhas e fruir de nudismo integral, por pouco haver quem o mique de perto.

Ninguém sabe dizer se o bicho nos trepa pelas pernas, se às impressões digitais gruda, se nos conquista os buracos vindo de nenhures, mesmo que não nos tussam ou espirrem nas ventas, mesmo que não nos lambuzem ou a nós se encostem. Doutas ignorâncias que provam, que boas são para erigir interditos com maioritária caução. Inferno dos nossos dias de covid chifrudo nas soleiras!
Sacio-me na jugular de Abril e repouso para primeira digestão. Eu sei que é ridículo comparar a perigosidade potencial das proximidades pascais com a frouxa letalidade da litania de S. Bento, que é perfeitamente possível assegurar distância sanitária no segundo caso, tanto como ilusório seria garanti-la no primeiro. Mas se estamos todos democraticamente sujeitos a contingências que nos alteram radicalmente o quotidiano, as rotinas de recreio e bem-estar, porque é que Abril não se associa a quaresmal renúncia? Acaso se esfuma Abril, se um ano lhe falharmos o preito, a pura oblação? Estará Abril reduzido a uma efeméride e a um par de discursos de circunstância?
Eu que cravejo em jardim de varanda, eu que me permito zurzir Abril por o que abrileiros do dia seguinte passaram de mão com truques de baralho, de pombame e coelhame que se conjura e esfuma em fundos de cartola. Eu que gostava que Abril fenecesse em bocas que de Abril se lembram por romaria. Quão livre de averbamentos é o registo criminal do PS, no que respeita a mimos de Brutus em torso de Abril? Quem atraiçoou Abril? Quem aburguesou Abril? Quem clientelizou Abril?

Abril seria democracia. Abril seria progresso, cultura, solidariedade, desenvolvimento, seria trabalho e rendimento consentâneo, seria escola e habitação, seria respeito e o fim de desmandos e prepotências… Eu até estou com receio que me dê uma tontura, e que falhe de novo atendimento hospitalar, por insuficiência de quadro de pessoal. Ó valha-me deus, decantam de cima para baixo, não é que o povo tolheu, e que nem ao hospital vai? Em que rubrica entra a consulta anual que me desmarcaram, por vigilância de coisinha que pode dar em ruim?
Quer lá o Portugal que vive e que sente saber de Abril por um dia. Celebrem Abril trezentas e sessenta e quatro vezes, deixem uma para higiene.

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