Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O (des)encanto do Principezinho

A Europa paga aos agricultores para não produzirem?

Escreve quem sabe

2018-11-06 às 06h00

Cristina Palhares

Que serviu de mote a esta reflexão, sobre a aceleração escolar e o desenvolvimento de talentos – para que o encanto nunca termine.
Continua demasiado consistente na nossa comunidade educativa a crença de que a aceleração escolar não torna os alunos mais felizes e que as relações sociais com os outros alunos e professores não são positivas. Na revisão da literatura na área da aprendizagem, a crença de que os alunos não estão preparados para o avanço escolar ainda subsiste, sendo certo que os professores têm muito mais facilidade em avaliar o que os alunos não sabem, do que o que eles sabem para lá do que é exigido pelo currículo escolar. As expetativas de professores sobre possíveis dificuldades de comportamento destas crianças e jovens podem atuar como profecias autorrealizadoras que podem influenciar atitudes de outras pessoas em relação a elas, inclusive dos seus pares. É consistente que os professores têm pouca familiaridade com as pesquisas e resultados da investigação sobre aceleração escolar.

Ainda permanecem filosofias pessoais segundo as quais a criança será mantida distante dos seus pares em idade e a crença de que a aceleração suprime parte da infância da criança. Por último, o entendimento de que a aceleração causa uma série de problemas na organização horária da escola. Felizmente, os estudos internacionais trazem boas notícias: um estudo sobre procedimentos de aceleração verificou que esta estratégia escolar tem ajudado no desenvolvimento académico de alunos de diversas idades, sem acarretar problemas sociais ou emocionais; a aceleração promove um impacto positivo nos planos profissionais dos estudantes que, quando acelerados, apresentam projetos mais ambiciosos em relação à sua carreira profissional quando comparados com colegas não acelerados. Normalmente os alunos acelerados envolvem-se mais em atividades extracurriculares do que os seus pares. Não há base empírica para se acreditar que o avanço de ano resultará em desajuste socioemocional ou dificuldades de aprendizagem.

As investigações acerca do desempenho educacional, da opinião de alunos e do nível de satisfação de pais sugerem que o avanço de ano resulta em mais consequências positivas do que negativas e em termos de aproveitamento de conteúdo curricular, o ano que o aluno deixou não faz falta para ele nos anos seguintes. Algo que os nossos professores tanto reclamam. Implícito nesta medida educativa está a forma como conjugamos a sobredotação. Ser ou estar: como devemos conjugar a sobredotação? Traço ou estado? Um dos maiores esforços pedagógicos em educação está na importância de conjugação com o verbo estar o que sempre nos habituamos a conjugar com o verbo ser. Ele é preguiçoso.... ele é teimoso.... ele é desobediente...Vejamos agora conjugados com o verbo estar. Ele está preguiçoso... ele está teimoso... ele está desobediente.... É esta conjugação que nos permite, enquanto professores e educadores de todas as crianças/jovens justificar e fazer valer a nossa profissão. Se “ele é... qualquer coisa” já nada vale a pena - não vale a pena apostar nesse aluno, não vale a pena ajudá-lo, nada vale a pena... ele é assim. Pelo contrário, se “ele está... qualquer coisa”, fundamentamos o trabalho a que nos dedicamos.

Ele está preguiçoso - pode deixar de estar; ele está teimoso - pode deixar de estar; ele está desobediente - pode deixar de estar. Aqui tudo vale a pena - a nossa atuação pedagógica permite contrariar para uma forma positiva, assim o queiramos. Legitimamos também a nossa profissão. Até aqui nada de novo - dir-me-ão que estas características intraindividuais são estados e não traços e como tal passíveis de sofrer alterações. Desculpem, nada de novo não... porque mesmo nestas características os professores vão-se esquecendo da correta conjugação. Voltemos no entanto à pergunta inicial, a que junto outra: como devemos conjugar a deficiência? É-se deficiente ou está-se deficiente? É-se sobredotado ou está-se sobredotado? Aqui poderíamos focar dois distintos olhares: o da psicologia que identifica e avalia e portanto diz é (traço - num dado momento, num corte preciso do desenvolvimento) e o da pedagogia que intervém e promove o desenvolvimento e portanto diz está (estado - permeável à idade, ao crescimento, ao desenvolvimento). Mesmo na deficiência mental o estar deficiente mental permite que o professor desenhe um plano de intervenção com vista a atenuar os pontos mais fracos e a estimular os pontos mais fortes... Já na sobredotação o estar sobredotado deveria do mesmo modo permitir que o professor desenhasse um plano de intervenção com vista a atenuar os pontos mais fracos e a estimular os pontos mais fortes.

Mas acontece tantas vezes exatamente o contrário: aumentamos os pontos mais fracos e desinvestimos nos pontos mais fortes. Porque conjugamos com o verbo ser. Ele é sobredotado... é um traço da sua personalidade e como tal não necessita da nossa intervenção. E é por isso que na maioria das vezes aquele que é deixou de o ser... porque não fizemos nada. Tal qual como a parábola dos talentos, em que os talentos distribuídos (um, dois e cinco) foram aproveitados pelos diferentes adultos de maneira também diferente: quem recebeu cinco e dois talentos duplicou-os e quem recebeu um talento, com medo de o perder enterrou-o, e não rendeu.
A este último, o seu único talento foi-lhe retirado. Por muitos ou poucos talentos (permitam-me dizer traços) que recebamos o que importa é o que fazemos com eles (permitam-me dizer estados). Assim, independentemente do traço, o que interessa ao professor é o estado. O estado dos talentos. Não nos esqueçamos que somos nós, professores, os fiéis depositários dos talentos de todos os nossos alunos e é nosso dever ajudar a duplicá-los. E se a aceleração escolar ajudar, tanto melhor. Para que o encanto não termine!

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