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Braga, sábado

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O custo do não desconfinamento

Decisões que marcam

O custo do não desconfinamento

Ideias

2021-06-25 às 06h00

Rui Marques Rui Marques

Decorrente da evolução positiva que a pandemia registou em Portugal nos meses de abril e maio, com o nível de vacinação a evoluir a um bom ritmo, a situação controlada no SNS e uma reduzida taxa de mortalidade relacionada com a infeção, o Governo entendeu, e bem, que o país estava em condições de prosseguir com o processo de desconfinamento.
Assim, desde o passado dia 11 de junho, a generalidade dos concelhos do país registou um alívio das medidas restritivas a que estava sujeito, destacando-se, do ponto de vista do funcionamento das atividades económicas, as seguintes:
- O teletrabalho deixou de ser obrigatório, passando a ser “apenas” recomendado nas atividades que o permitam;
- O setor da restauração e similares viu o seu horário de funcionamento alargado até à meia-noite para admissão de clientes e 01:00 para o encerramento;
- Os estabelecimentos comerciais deixaram de ter restrições ao seu horário de funcionamento, passando a regular-se de acordo com o respetivo licenciamento.

O município de Braga, como é sabido, não pôde acompanhar, transitoriamente, esta nova fase do processo de desconfinamento, por registar um nível de infeção acima dos limiares máximos definidos pelo Governo. Em consequência deste facto, mantiveram-se em vigor as restrições a que o concelho estava sujeito até então, que é como quem diz: “na prática, nada mudou”.
Embora verdadeira esta uma análise demasiado simplista. Existem outras perspetivas de análise que devem ser tomadas em linha de conta, nomeadamente a do custo de oportunidade - qual o custo de Braga não avançar ao mesmo tempo que a generalidades dos concelhos portugueses nesta etapa do desconfinamento?

A perda potencial de negócio não é despicienda. Em pleno arranque do verão, restaurantes, cafés e pastelarias vêem-se privados da possibilidade de ter mais 2,5 horas de funcionamento por dia em hora de ponta, o que que pode significar menos 25% de faturação. Se este quadro restritivo prevalecer por algum tempo, só esta dimensão de análise representa uma perda superior a 2 milhões de euros / mês num dos setores mais fustigados pela pandemia.
No setor da restauração, em particular, há ainda que ter em conta o efeito do adiamento desta etapa do desconfinamento nos custos com pessoal. De forma previdente, a restauração preparou-se para o aumento do número de clientes, que tradicionalmente ocorre no período de verão, bem como para o alargamento do horário de funcionamento, reforçando as suas equipas com a contratação de novos trabalhadores (que escasseiam, o que obriga, cada vez mais, a que estes processos sejam efetuados com antecedência). Evidentemente que, enquanto a atual situação perdurar, muitas destas empresas têm as suas equipas sobredimensionadas para as necessidades atuais, o que prejudica significativamente a rentabilidade e a sustentabilidade das suas operações enquanto esta situação permanecer.

A manutenção da obrigatoriedade do teletrabalho é outra restrição que agrava as perdas nos setores do comércio e restauração. São milhares de trabalhadores que se mantêm a trabalhar a partir de casa, diminuindo significativamente o número de pessoas que circulam pelas ruas da cidade e consequentemente o consumo em estabelecimentos comerciais e de restauração. Para além da diminuição da dinâmica e dos fluxos na cidade, o teletrabalho continua, também, a gerar problemas de produtividade a um conjunto muito significativo de empresas.

Creio, por isso, que a atual matriz de risco, que orienta os passos em frente ou os recuos no desconfinamento, deve ser flexibilizada. Não se trata de uma questão de se facilitar o combate à pandemia ou de desvalorizar os efeitos que a infeção ainda pode ter, e tem, do ponto de vista da saúde pública. Trata-se sim de adequar os limiares à nova realidade do processo de vacinação, que faz baixar significativamente a pressão junto do SNS e a taxa de mortalidade em consequência da infeção. Trata-se de ajustar os limites para que as medidas restritivas não tenham um efeito na economia muito desproporcional aos supostos benefícios que podem gerar na saúde pública.
De uma forma geral, nos estabelecimentos comerciais e de restauração, assim como nos locais de trabalho das empresas de outros setores de atividade, o nível de cumprimento de regras impostas pela DGS tem sido verdadeiramente exemplar, seja por parte dos colaboradores como dos clientes. Não é justo, por isso, que não havendo evidência da origem de novos casos estar associada a atos de consumo em estabelecimentos comerciais e de restauração, sejam sempre estes a ficar com a fatura para pagar destes aumentos.

O combate à pandemia é uma responsabilidade de cada um de nós enquanto cidadãos, exigindo o esforço e responsabilidade de todos para não sacrificar o que é essencial para o país.+

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