Correio do Minho

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O Cura, o Juiz e a Meretriz

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2017-10-20 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Em tempos que já lá vão, rezam os anais guardados na Torre do Tombo da memória popular, não havia terrinha portuguesa em que falhasse o terno chamada a título. Para o efeito do que escrevo, queria centrar-me nas atribuições da figura do Juiz. Enquadro o leitor, entretanto, nesses tempos afastados, numa mentalidade que persistiu até ’74, em certos, aspectos, ano a partir do qual começamos a contar a Nova História de Portugal.
Das atribuições do Cura e da Meretriz nem valerá a pena falar, que são conhecidas e consensuais. Consta, porém, que fazia o padre mais do que pelas sebentas lhe ensinavam no seminário como obrigação, que atento se prestaria a todas as solteironas ou viúvas frescas que rezassem no altar da Senhora das Ânsias, e que muito ele acreditava que lhe era demandado vir em socorro de um Espírito Santo assoberbadíssimo, por virtuosa mulher que não tivesse como alcançar, senão por intervenção divina. À falta de melhor!.. Caricaturo, naturalmente, se bem que a traço fiel. Num Portugal que assinava a rogo e casava por procuração nem a Meretriz era propriamente uma figura execranda - desempenhava uma função, e é tudo. Aliviava homens de todas as idades, e desobrigava as legítimas de avanços que ultrapassassem as conveniências, na frequência ou na especialidade. E não era com elas que a Santa Madre Igreja por demais se abespinhava.
Ora neste Portugal de antanho havia também o Juiz. Não o Juiz de Paz, outro. Da presença do Juiz de Paz saía o Povo com a causa dirimida, por norma. O outro Juiz era mais um executor de penas, figura conhecida, embora sempre iludida. Convocada, sibilinamente, jamais nomeada: um espectro. Qual era, então, o seu papel, verdadeiramente?
Breve palavra sobre aqueles a quem o Juiz dispensava a sua atenção. Sabemos que há pessoas de maus fígados e piores intestinos, gentes sem remorsos que praticam o mal por desenfado. De umas proezas se vangloriam, com total desaforo, outras calam - as piores -, se bem que os conterrâneos as tirem pela pinta. Há-os hoje, como os havia no passado.
Pois nesses idos de justiça longínqua ou ausente, quando a coisa passava das marcas, gerava-se o burburinho, no adro, na tasca e na bica, convindo os vizinhos que se faziam horas de que alguém tratasse da saúde - ao dito salafrário - e o despachasse desta para melhor. Ouvia, o subsumido Juiz, analisava o sentido popular. Por norma não abria boca, caladão, e a mais das vezes «pessoa de não fazer mal a uma varejeira». Mas o tal que tinha passado das marcas aparecia um dia rasgado ou dependurado, em casa, num lameiro ou em quelha manhosa. Quem foi? Quem não foi? Interrogava-se o povo, fingindo espanto. Um anjo! Um santo! E mais se lamentavam as sortes de Belzebu, pelos trabalhos com semelhante peste.
Quão distantes estamos nós, ao presente, da justiça popular? Sublinho bem: não apelo nem cauciono - limito-me a discorrer. Estamos assim tão longe de linchamentos públicos? Quantas vezes não ouvimos nós, nos últimos dias, a sentença: era matá-los! Era regá-los com gasolina e chegar-lhes fogo! Eu sei que nem tudo o que se diz a quente encontra caminho fácil com o espírito desanuviado. Mas também sei que, quando a estupidez ultrapassa os limites do tolerável, se autoriza o cidadão comum à irrazoabilidade - aberta, como comportamento de massas, ou velada, num registo justicialista. Certo, certo, é que a justiça oficial pouco pode. Retenho, a propósito, a ironia da centena de indivíduos vigiados, controlados, em ano infernal, como este que acabamos de viver.
Em Pátria de negócios absurdos, o dos manuais escolares bem que ombreia com o arranjinho do combate aos incêndios florestais. Há quantos anos andam os mesmos por S. Bento e ministérios afins? Hoje, quantas prima-donas não propagandeiam soluções que não tiveram na ponta da língua, quando, guindados a altos cargos, se viram com a faca e o queijo na mão? Eu lembro-me de alguém ter querido incluir o eucalipto como espécime autóctone: terei sonhado?
Pirómanos? A sério. Não serão, antes, pirófilos? Apareça um Egas Moniz que, de bisturi em dedos, pronto para uma lobotomia, assegure que cura pirómanos ou pirófilos. Cruzes! Dê por onde der, facto é que nunca controlaremos os comportamentos aberrantes com paninhos quentes e discursos assentes na salvaguarda dos direitos individuais. Eu sei que rescende a totalitarismo, mas...
Bom, enquanto a coisa patina, eu, para não cair nas arrelias de Velho do Restelo, por mim, convidava o Cura, o Juiz e a Meretriz para uma partida de cartas, a pares.
Eu jogaria com a Meretriz, para perder, só pela companhia e pelo par de horas bem passadas, Talvez terminássemos o serão a quente, com um magusto, com castanha braseada. Ou que não venham todos, basta que possa a dona Pureza, para uma partida de damas.

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