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O crime que vitimou o “Nicho” no cruzeiro de Vilaça

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Ideias

2013-11-25 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A grave crise económica, que o nosso país vive na actualidade, tem causado numa grande parte dos portugueses uma crescente ansiedade e receio em relação ao futuro. Mesmo os que têm possibilidade de investirem e criarem projectos que lhes possam melhorar a vida, sentem um receio enorme que as suas poupanças sejam colocadas nem causa.

Esta situação faz-nos recordar um acontecimento trágico que envolveu, de forma cruel, o senhor António Gomes, da freguesia de Vilaça, do concelho de Braga.
António Gomes era um cadeireiro muito conceituado na nossa região, fruto das suas grandes qualidades na arte de trabalhar a madeira e dela construir cadeiras de qualidade.

Os méritos deste artesão, conhecido por “Nicho”, fizeram com que várias pessoas desta região o procurassem e lhe encomendassem várias obras em madeira. E o Nicho soube bem explorar o seu mérito, conseguindo com eles averbar importantes quantias em dinheiro.

O problema que envolvia Nicho era o seu apego desmesurado ao dinheiro, ao ponto de desconfiar de todos os que o rodeavam. E vivia num dilema: não depositava as suas poupanças nos bancos, porque desconfiava deles; não as guardava em qualquer membro da família ou dos amigos, porque não confiava neles. A desconfiança do Nicho era de tal forma obsessiva que nem em casa deixava as suas poupanças, porque desconfiava da sua mulher e dos seus próprios filhos!

A solução que encontrou para controlar e guardar o seu dinheiro foi… trazê-lo sempre consigo! O problema é que, aos poucos, esta característica do Nicho de Vilaça foi-se constatando, não só na sua freguesia, como também nas freguesias vizinhas a Vilaça.

Foi neste ambiente de posse avidez de dinheiro que um seu vizinho, Lourenço Ferreira Hilário, conhecido por vários crimes efectuados nessa zona, planeou atacar o Nicho. E idealizou um plano, mas para o colocar em prática necessitava da ajuda de um seu amigo de confiança, que estivesse preparado para estas lides de assaltos, de nome Manuel da Silva Pereira, conhecido por “O Rato”.

Apesar de actuarem em conjunto, os dois temiam o Nicho porque, mesmo tendo este já uma idade avançada, era senhor de uma opulência física que ainda impunha respeito e causava medo a muitas pessoas. De qualquer forma, no domingo, dia 25 de Abril de 1927, a ocasião proporcionou-se, tendo “O Rato” e o Hilário planeado o assalto.

Por volta das 22 horas desse dia, perante a escuridão do local, viram que o Nicho caminhava tranquilamente para a sua casa, quando, secretamente, no cruzeiro de Vilaça, o Hilário o atacou de surpresa, enquanto “O Rato” vigiava o local. O resultado desse ataque foi trágico, uma vez que o Nicho acabou por falecer, fruto da violência com que foi assaltado.
Os autores deste crime, que causou então grande estupefacção em Braga, foram presos nas horas seguintes a este bárbaro crime.

Presos os dois cúmplices, estes resolveram, perante a justiça, proteger-se mutuamente, não se acusando nem confessando o crime. Durante um ano e meio o caso foi correndo no Tribunal, até que a sentença saiu no dia 17 de Novembro de 1928, sendo bem severa para os criminosos. O Tribunal deu-os como culpados pelo crime, roubo, premeditação, espera, surpresa e ainda por ter sido praticado à noite.

Foram condenados a oito anos de prisão efectiva, seguido de 20 anos de degredo, ficando os primeiros nove anos em prisão efectiva no local de degredo! Para além disso, foram ainda condenados a pagar 11.500$00 à viúva e filhos do falecido Nicho de Vilaça.

Passados dois meses da sentença, o “Rato” ainda tentou que fosse realizado um novo julgamento, dizendo ao Tribunal de Braga que apenas se limitou a assistir ao crime, vigiando o local, e que o único responsável pelo assassinato do Nicho tinha sido o Hilário. Afirmou, através do seu advogado, o célebre Luís de Almeida Braga, que não tinha confessado antes o crime, porque o companheiro o ameaçara de morte, se o denunciasse às autoridades!

Esta tragédia, então conhecida por o crime que ocorreu no Cruzeiro de Vilaça, manteve-se no imaginário das pessoas que por lá circularam durante os anos seguintes. Ainda hoje existe, em algumas pessoas, uma certa nostalgia e receio quando falam do “Cruzeiro de Vilaça”.

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