Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O crime de ser público

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Ideias

2011-11-21 às 06h00

Artur Coimbra

Não há a mínima dúvida de que Portugal está a atravessar uma mudança de paradigma, a diferentes níveis, em resultado do envolvimento externo no nosso país e da eleição de um governo de direita ultra-liberal, embora liderado por um partido que se diz, ou já foi, “social-democrata”.

É indesmentível a perda de soberania que há muito se registava, decorrente da adesão à União Europeia, mas se avolumou desde este ano, em resultado da assinatura do “memorando de entendimento” com a “troika”, quando o país se afundou em sucessivos “buracos”, de que não se conhece ainda a extensão. Deixámo-nos invadir por poderes económicos estrangeiros, a troco de um empréstimo (que não é “ajuda” nenhuma, como nos querem fazer crer) de 78 mil milhões de euros, que vamos pagar com língua de palmo, a juros exorbitantes e gananciosos.

Estamos submetidos a um protectorado europeu, sujeitos aos ditames de uma maldita “troika”, que é efectivamente quem manda no país. Ninguém elegeu os seus dignitários; são meros funcionários do Fundo Monetário Internacional, da Comissão Europeia ou do Banco Central Europeu, mas apresentam-se em Lisboa como se fossem os donos da República, com alegada legitimidade para darem palpites e opiniões sobre a forma de o país se administrar, como se não houvesse governo sufragado democraticamente.

Dão-se ao desplante de avançar sugestões sobre a forma como o governo deve tratar os funcionários públicos ou como as empresas devem baixar os ordenados aos seus empregados. Não se limitam a dizer: “meus senhores, nós emprestamos este dinheiro, as metas são estas e é imperioso cumpri-las. A maneira de lá chegar é convosco”. Não. Permitem-se intervir nos assuntos internos nacionais, como se tivessem esse direito.

São abjectos na sua intromissão na vida política e económica portuguesa e a verdade - dolorosa verdade - é que não há um político com eles no sítio, passe o plebeísmo, seja o Presidente da República, o Primeiro Ministro ou outro alto dirigente, que dê um murro na mesa e os remeta ao seu devido lugar. Teve de ser um banqueiro, como Fernando Ulrich, ou um deputado, como Francisco Louçã, a colocar o “dedo na ferida” de um orgulho colectivo que os portugueses já não parecem ter, anestesiados com a crise, que não é apenas económica, mas moral e mental.

Que nos emprestem dinheiro a juros especulativos, que nos imponham condições draconianas mas que deixem de nos infantilizar na nossa própria casa. A classe política actual é de uma cerviz demasiado curvada para reivindicar a verticalidade que o momento impõe. É a classe política de chapéu na mão e obediência cega às ordens da malfadada “troika” e dessa entidade execrável que dá pelo nome de “mercados”.

E essas ordens vão no claro sentido da desqualificação do sistema público da economia e da sociedade e a deificação do sector privado como panaceia para a crise. Receitas de austeridade que ainda não deram resultado em lado algum e que apenas têm acrescentado sofrimento, pobreza e revolta onde já foram aplicadas.

Submissos, respeitadores e vassalos, Pedro Passos Coelho e seus acólitos estão a empreender, desde o início do seu provisório governo, o ataque cego e despudorado a tudo o que é público. Desde logo, fazendo prevalecer na sociedade a segmentação entre o público e o privado, instigando a divisão entre os dois mundos, veiculando a ideia de que o público é sinónimo de privilégio, de benesses, de ordenados mais altos e de escassa produtividade, quando é certo e sabido que as grandes fortunas e as maiores vigarices, fraudes e burlas não se fazem no sector público, demasiado escrutinado e auditado para poder dar-se ao luxo de “meter a pata na poça”. Elas acontecem na esfera privada, envolvendo grandes montantes e inúmeros trapaceiros, como é consabido.

Mas o desígnio deste governo de direita é claramente de reduzir, descaracterizar e arruinar o sector público, seja na economia, na saúde, na educação e na comunicação social, privatizando sectores estratégicos, da energia aos transportes e à água (ao contrário do que acontece nos países mais desenvolvidos e civilizados, que não andam a reboque das “troikas”…). Não lhe importa defender e salvaguardar os supérfluos interesses dos cidadãos, a que está constitucionalmente obrigado (mas já vimos que a Constituição, actualmente, é letra morta!...), mas apenas desbaratar o património nacional, a preço de saldo, para que os privados tomem conta do país, e façam render o que o Estado não se mostra interessado em rendibilizar.

A estratégia do momento passa por desvalorizar e atacar o que é público, a começar pelos funcionários, que no próximo ano vão ser espoliados de dois subsídios (com a bênção dos especuladores do FMI e companhia…), enquanto os privados e os capitalistas não são chamados a “pagar a crise”. Tudo isto é simbólico de uma opção política em cristalino favor do capital, do lucro, do particular, da agiotagem. E ainda há um ridículo ministro que chama a esta injustiça “repartição equitativa dos sacrifícios”… Mas de ministros quixotescos está este governo cheio!...

Este sistema é o que o escritor António Lobo Antunes há poucos dias apelidava, muito justamente, de “neofascismo capitalista”, querendo significar o instalado desprezo pela cultura, pelas coisas do espírito, pela qualidade do espectro mediático e literário e a subserviência da política e dos políticos face ao poder económico, que é de facto quem determina e comanda o que se passa neste “reino cadaveroso da infâmia” em que se transformou este quadrilátero que teimamos em suportar. Cada vez mais a contragosto!

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