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O crescimento como fim

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

O crescimento como fim

Escreve quem sabe

2020-03-17 às 06h00

Vítor Esperança Vítor Esperança

A sociedade mundial atual, com algumas exceções, adotou o modelo económico capitalista que assenta pilares na propriedade e iniciativa privada, na permanente inovação e otimização dos recursos e no crescimento contínuo.
O crescimento passou a ser a palavra mágica, esquecendo-nos que o crescimento deve ser mais um método e não um fim em si mesmo.
Sabemos que os recursos são escassos e limitados num planeta único. Muitos desses recursos demoraram milénios a criar em condições ambientais irrepetíveis. A sua utilização progressiva e acelerada acabará por lhes por fim, tudo isso com o agravante dos desequilíbrios ambientais conhecidos, que podem alterar as condições da existência da vida.
Manter e acelerar o modelo de crescimento que interiorizamos nos últimos três séculos, será um erro com fim perigoso.

Naturalmente que não podemos mudar de modelo económico e social de um momento para o outro, mas não poderemos ficar impávidos à espera que alguém decida faze-lo.
As grandes mudanças históricas tem acontecido na sequência de catástrofes para a Humanidade, sejam elas provocadas pelo Homem (guerras) ou pela Natureza. Na verdade, bastam os comportamentos de risco de alguns líderes políticos mundiais, ou uma epidemia como a que agora nos bate à porta, para que todo o modelo de crescimento entre em crise e origine o colapso de estruturas económicas que apenas funcionam dentro de um modelo de crescimento continuo.
Há necessidades básicas do Homem que carecem do aumento de recursos e dos meios técnicos para os satisfazer, mas chegamos ao paradoxo de fazer depender o crescimento da economia do crescimento do uso dos recursos (consumo) e mais mão-de-obra (que alimente a cadeia de produção e de serviços), numa espiral de crescimento encadeado que acabará em desastre.

Não há duvidas que o modelo de crescimento e a globalização do comércio trouxe avanços económicos significativos e permitiu maiores equilíbrios de qualidade de vida a nível mundial, bastando apenas verificar os milhões de pessoas que saíram do limiar da pobreza.
É consensual afirmar que o Mundo tem hoje capacidade para acabar com a pobreza e a miséria de vida social, mas na verdade vemos milhões e milhões de pessoas presas no miserabilismo das suas condições de vida e sem acesso à riqueza produzida, justamente porque o mesmo modelo económico não encontrou ainda a melhor forma de equilibrar o acesso à riqueza produzida.

Os detentores dos meios de produção e dos recursos, bem como os intermediários financeiros saem muito favorecidos com o modelo económico que temos, tendência que tende a agravar-se porque a digitalização da economia que aumenta a separação entre os detentores do saber e das respetivas cadeias de uso a nível global, onde o tamanho conta como nunca, incentivando o modelo de crescimento contínuo.
A riqueza do mundo movimenta-se com a facilidade da imaterialidade, enquanto os recursos, os meios de produção e mão-de-obra se mantém presos a territórios. Resultado; a produção desloca-se para os locais mais pobres e baratos, trazendo desequilíbrios aos territórios que tinham registado uma melhoria significativa na sua qualidade de vida.

As mudanças políticas, baseadas em nacionalismos e medos do estranho, sustentam-se na perda de qualidade de vida -também ela pensada na perspetiva da melhoria contínua, onde os filhos devem ter mais que os pais - dos residentes e da provocação da ostentação da riqueza duns poucos que o sistema favorece em particular.
Não é fácil encontrar alternativas para substituir o atual modelo económico, nem é isso que defendo, mas devemos inverter determinadas prioridades de consumo, procurar soluções nos equilíbrios entre os recursos e o seu uso, obrigando o modelo económico a adaptar-se e a reinventar-se, caraterística em que o capitalismo supera todos os restantes modelos económicos.

A Democracia prevalece e fortalece-se em regimes mais equilíbrios economicamente. Os desequilíbrios na posse de riqueza e o risco de quebra acentuada no modelo de crescimento contínuo, que mantem satisfeitos a maioria da população trabalhadora conhecida por “classe média”, trarão ameaças ao mesmo regime político que defendo.
O perigo não está na adaptação, mas na velocidade da mudança entre os ciclos económicos e as estruturas políticas. O modelo económico incorpora na sua génese, ciclos de crescimento e abrandamento, mas não responde a crises. Este é o “calcanhar de Aquiles” do modelo capitalista.

Perante uma crise, surge rapidamente as opções políticas de salvação, normalmente aproveitadas por quem defende roturas em vez de reformas. Os Populismos e nacionalismos de esquerda e direita surgem de novo e em força.
Correremos riscos de voltarmos aos tempos vividos no princípio do século passado, que trouxeram ao Mundo, principalmente à Europa, tempos de inferno?
Acredito que os pensadores e os políticos saberão encontrar saídas para reformar o sistema capitalista instalado, antes que os demagogos o queiram substituir, mas temo o afastamento da gente sem tempo para aprender, que responde a estímulos do tipo twiter e assenta verdades no que lhe chega pelas redes sociais.

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