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O cravo encravado

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

O cravo encravado

Ideias

2019-04-28 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Uma enfermagem esterilizada paralisou e à toa andou a ministra, entre intransigências e impaciências, ministrando placebos, insinuando criminoso incumprimento de serviços mínimos, como se alguma cirurgia passasse para o rol dos actos abortados sem consequências. Cada um vivencia sua urgência e, se é certo que numas circunstâncias corremos perigo de vida, não menos exacto é, também, que as listas de espera nunca desengrossam, que aquela consulta, ou exame de que carecemos, só nos cai em rifa por terrena intercessão de amigo ou primo chegado. E nem sempre lhe calha pescar-nos para cima. Depois há os que não sofrem com os contratempos. Enfim, o 25 de Abril ainda não está aí para todos.
Greve fazem os transportadores de combustíveis, e o que temos nós? Pois um deus nos acuda em matéria de serviços mínimos, revistos em alta, hora sim, hora não, mais uma ameaça musculada de requisição civil, com o lembrete de processo-crime por desobediência. Resultado: paralisação suspensa em menos de um depósito.
Conclusão especulativa: inquieta-se o governo, mais com os hidrocarbonetos e o ventre automóvel, do que com as entranhas de desgraçado, que a desdita tenha de haver nascido neste cantinho formoso? Conclusão acessória, afirmativa: Portugal cresceu, agora é Lisboa e Porto, a paisagem mingou.
E que dizer de quantos clamam que isto não é sindicalismo, que o advogado rola de Maserati, que estava tudo negociado, com os bons sindicalistas, e que estes sanguessugas vieram a terreiro, para abocanhar naco maior?
Razões haja, para não tivéssemos apreciado a brincadeira, não menos ponderosas elas são, porém, do que aquelas que nos consumiam, aquando do protesto abonado da enfermagem cirúrgica. E resume-se a diferença a quê: que no caso dos camionistas são verbas que não entram no mealheiro do Centeno, e na circunstância dos enfermeiros serão dinheiros que de lá saem?
Tudo é mais complicado, sabemos, mas as interpretações simplistas também colhem, e nas minúcias se vê de que fibra são as gentes do governo, a que santinhos rezam e por que prioridade.
Greves que louvamos, em nome do princípio, greves que demonizamos, em função dos prejuízos que acarretam a terceiros. Greves que ilustram a prevalência de antagonismos anacrónicos, com responsabilidade acrescida para governantes e entidades patronais. Triste é de constatar, entretanto, que tudo se resolve, desde que o grupo dos contestatários tenha força suficiente para fazer mossa.
Enfermeiros e camioneiros que se marimbam para quantos transtornam, sociedade que distante parece de realizar uma distribuição equitativa, uma solidariedade palpável, que nos entre pelos poros, que nos conforte. Nem parecemos partes de mesmo corpo social. Abril longe da perenidade.
Otelo foi ao «Governo Sombra». Desqualificou a democracia parlamentar, louvou a democracia directa, popular, aduziu que o regime político que preconizara não tinha paralelo ou modelo, como se teria discutido à época, ao que ele, voluntarista, idealista, teria replicado: e porque não o fazemos nós, pá!
Porque teimamos em não fazer melhor, pá! O melhor regime de papel e lápis apodrece por má cabeça de caudilho, pelo xadrez de silêncios e conivências, pelo funcionário casmurro e laxista, que faz as coisas à sua maneira, a correcta, naturalmente.
Ouvimos e repetimos com recorrência: a democracia é o pior dos regimes, à excepção dos demais. Frase oca, porquanto cauciona o princípio do mal menor. Aprimoramos tanta coisa, que até parece impossível que nos contentemos com refugo.

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