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O contributo de Braga para a liberdade em Timor

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O contributo de Braga para a liberdade em Timor

Ideias

2021-11-14 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Na sexta-feira, dia 12 de novembro, assinalaram-se 30 anos após um dos acontecimentos mais comoventes ocorridos numa antiga colónia portuguesa, desde a Guerra Colonial. Refiro-me ao massacre no Cemitério de Santa Cruz, em Díli, Timor-Leste.
Importa recordar que, as semanas seguintes ao 25 de abril de 1974, ficaram marcadas pelo rápido desejo de Portugal reconhecer o direito das colónias à independência. Prova-o a Lei n.º 7/74, no seu artigo 2.º, que refere claramente que “O reconhecimento do direito à autodeterminação, com todas as suas consequências, inclui a aceitação da independência dos territórios ultramarinos e a derrogação da parte correspondente do artigo 1.º da Constituição Política de 1933”.

Apesar da evidente desorganização verificada no apressado desejo de conceção da independência às colónias, Timor-Leste declarou a sua independência no dia 28 de novembro de 1975. Quem não gostou desta decisão foi a Indonésia que não hesitou em invadir, a 7 de dezembro de 1975, esta colónia portuguesa, declarando-o como a sua 27 ª província.
Apesar desta anexação nunca ter sido reconhecida pelas Nações Unidas, o facto é que a comunidade internacional deixou os timorenses praticamente abandonados à sua sorte.
Depois de vários episódios de violência perpetrados por militares da Indonésia, o ponto de viragem ocorreu numa terça-feira, dia 12 de novembro de 1991, quando centenas de timorenses se deslocaram ao cemitério de Santa Cruz, para prestar homenagem ao jovem timorense Sebastião Gomes, morto no dia 28 de outubro de 1991, pelas tropas indonésias.

Perante a desconfiança gerada entre os militares indonésios de que essa homenagem religiosa poderia transformar-se numa ação social de revolta dos timorenses contra o país ocupante, os líderes militares fizeram deslocar para as imediações do cemitério tropas que não hesitaram em disparar contra os indefesos timorenses, cercados no interior do cemitério.
Não se sabe ao certo quantos mortos terão perecido nesse massacre, embora os dados oficiais da altura apontem para 271 timorenses. Para além destes mortos, ocorreram nos dias seguintes centenas de detidos, tendo muitos deles sido torturados e outros executados.

A ocupação de Timor-Leste resultou num genocídio dificilmente comparável a outros povos, pois cerca de 200 mil timorenses (¼ da população de Timor) foram mortos durante os anos da ocupação, numa população de cerca de 800 mil!
Por muito que a resistência timorense lutasse, a visibilidade internacional era ténue e as grandes potências mundiais, aquelas que verdadeiramente decidem o futuro dos povos, teimavam em ignorar uma realidade que envergonhava a humanidade.
No dia 7 de abril de 1991 uma timorense referiu ao jornal britânico "The Observer", que "Se resistirmos, matam-nos; se não resistirmos, matam-nos na mesma”. Esta era a violenta realidade dos timorenses, nessa altura.
No entanto, o massacre de Timor-Leste gerou uma onda de solidariedade e de comoção nacional, só comparável a outro acontecimento que tinha atingido o nosso país 101 anos antes. Refiro-me ao “Ultimato Inglês”, enviado pela Inglaterra a Portugal, a 11 de janeiro de 1890, no qual os ingleses exigiam que o nosso país abandonasse a ideia de unir os territórios situados entre Angola e Moçambique.

Passados 101 anos do Ultimato Inglês, o massacre de Santa Cruz resultou num movimento idêntico, tendo Braga sido uma das primeiras a mobilizar-se em apoio a Timor-Leste.
As iniciativas promovidas, sobretudo por jovens, foram várias e tiveram como objetivo divulgarem à sociedade a dramática situação que se vivia em Timor-Leste. Nas semanas seguintes, nos meses seguintes, nos anos seguintes, foram múltiplas as atividades que colocaram na ordem do dia o caso de Timor-Leste. Desde exposições a vigílias, desde colóquios a cartas enviadas aos Grupos Parlamentares e Embaixadores de países aliados de Portugal, tudo foi desenvolvido com o genuíno sentimento de despertar a sociedade para o sofrimento do Povo Maubere!
Recordo aqui a iniciativa “Timor à procura da liberdade”, organizada em 1997, no Instituto Português da Juventude, em Braga, durante a qual foi homenageado o Professor Doutor Barbedo de Magalhães, um dos portugueses que mais se empenhou na luta pela liberdade dos timorenses. O então Delegado Regional do IPJ, Carlos Figueiredo, referiu que se tratava de uma iniciativa de jovens por uma boa causa e desejava que os timorenses pudessem colher dele algum benefício.

Também o então Secretário de Estado da Juventude, António José Seguro, referiu, numa mensagem a este evento, que “Grandes são os Homens que resistem e lutam. Por ideais, por valores. Pela Liberdade”. Também o Presidente da Assembleia da República, António Almeida Santos, referiu, numa mensagem escrita, que felicitava os jovens estudantes pela iniciativa e frisava que ninguém em Portugal “levou tão longe o seu empenho e o seu esforço no esclarecimento e no apoio à causa de Timor”, referindo-se ao Professor Barbedo de Magalhães, homenageado em 1997 pelos jovens bracarenses.
De destacar ainda outras mensagens, nomeadamente a de D. Manuel Martins, então Bispo de Setúbal, que pediu aos jovens bracarenses que gritassem “sempre muito alto, Timor”, pois estava convencido que “a grande hora se avizinha” para os timorenses. Também Mário Lemos Pires, o último Governador português de Timor-Leste, referiu que tudo o que é possível fazer pelos timorenses era importante, pois dava força a Portugal “na sua ação a favor da causa timorense”.

A liberdade demorou a chegar a Timor, mas acabou mesmo por chegar a 20 de maio de 2002, altura em que foi declarada a independência deste nobre povo.
Passados 30 anos do massacre de Dili, podemos dizer que a paz em Timor-Leste começou no cemitério de Santa Cruz, exatamente no dia 12 de novembro de 1991!

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