Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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O conflito entre os estudantes do Liceu de Braga e do Seminário Diocesano

Comunidades de aprendizagem

Ideias

2011-10-31 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Nos últimos anos temos assistido a alguns conflitos nas escolas, cujos elementos centrais desses são os estudantes. Por serem muitos os casos, dispenso-me aqui enumerá-los ou, sequer, recordá-los.

No entanto, pela particularidade e proporções atingidas, vou recordar um episódio que ocorreu em Braga há 107 anos e que envolveu os estudantes das duas grandes instituições de ensino da capital minhota: o Liceu Central de Braga e o Seminário Diocesano.

Na altura (1904), tal como na actualidade, eram frequentes as viagens efectuadas pelos estudantes a locais distantes daquele onde se situava o seu edifício de ensino. Seria uma dessas viagens que estaria na origem de um grave conflito verificado entre os estudantes destas duas instituições de ensino bracarenses.

Tudo começou com as festividades do 1.º de Dezembro de 1903, organizadas por uma comissão de estudantes do Liceu de Braga e do Seminário Diocesano. Da organização dessas festividades resultou um saldo de 50$000 réis, quantia bem apreciável na época.

Reunida essa comissão representativa dos estudantes das duas instituições, os mesmos decidiram que essa quantia seria gasta numa excursão a Vila Real, a realizar-se no dia 19 de Março de 1904.
Apesar de se ter mantido um grande segredo sobre o destino a dar a esse dinheiro, os estudantes do Seminário Diocesano acabaram por ter conhecimento que os colegas, que compunham a comissão de festas do 1.º de Dezembro, estavam a planear gastá-lo numa excursão a Vila Real.

Não perdendo tempo, resolveram eles próprios reunir, no dia 9 de Março de 1904, numa assembleia geral de estudantes. Nessa assembleia ficou decidido, por maioria, que os 50$000 réis seriam aplicados na ajuda a pessoas carenciadas, esclarecendo-se mesmo que o dinheiro seria entregue ou aos tuberculosos, protegidos pelos Bombeiros Voluntários de Braga, ou à Oficina de S. José, que albergava crianças desprotegidas.

Para além de terem decidido entregar o dinheiro a um dos fins atrás mencionados, os alunos do Seminário Diocesano decidiram ainda destituir a comissão organizadora do 1.º de Dezembro e nomear outra, com um novo presidente.

Como a comissão de estudantes, que se encontrava na posse do dinheiro, não aceitou esta medida, decidindo ainda gastá-lo na viagem a Vila Real, os estudantes do Seminário Diocesano resolveram elaborar uns panfletos e distribuí-los pela cidade de Braga. Nesses protestava-se contra a decisão de gastar o dinheiro numa viagem, em detrimento da sua aplicação em instituições de caridade.

Por volta das 5 horas da tarde do dia 18 de Março de 1904, a comissão de estudantes do Seminário Diocesano, que passava no Campo de D. Luís a distribuir os panfletos, deparou-se com um numeroso grupo de estudantes do Liceu Central de Braga, que imediatamente começou a agredi-los, provocando um enorme conflito entre os estudantes. Passados alguns minutos, e uma vez que os estudantes do Seminário Diocesano eram em número bastante menor do que os seus colegas do liceu, resolveram fugir o mais rápido que puderam, de forma a protegerem-se de uma sessão crescente de pancadaria.

No meio de toda esta agitação, um dos estudantes do Seminário Diocesano puxou de um revólver, que trazia consigo, criando uma situação de pânico. Apesar disso, os estudantes do Liceu Central conseguiram prendê-lo e agredi-lo, conseguindo ainda entregá-lo a um polícia que se encontrava no local. Desconfiados, os estudantes do liceu resolveram acompanhar o seu colega do Seminário Diocesano, só descansando quando o viram entrar na esquadra da polícia.

Quando todos pensavam que o conflito tinha terminado, eis que, nesse mesmo dia à noite, os estudantes das duas instituições de ensino resolveram encontrar-se, agora em muito maior grupo, novamente no Campo de S. Tiago. Para além de estarem em maior número, estavam armados com paus, pedras e mocas! Viveram-se então momentos de grande ansiedade com ambos os lados à espera que alguém desse o primeiro passo no ataque. Felizmente surgiram nesse local vários polícias, acompanhados pelo seu próprio chefe.

Depois de acalmar os ânimos, o sr. Amorim Mendonça, chefe da Polícia, conseguiu convencer os presidentes dos estudantes das duas instituições de ensino a deslocarem-se à esquadra, para aí efectuarem a divisão dos 50$000 réis de igual forma pelos estudantes das duas academias.
Depois deste entendimento, a polícia resolveu libertar o estudante preso, recolhendo de seguida os panfletos que se encontravam prontos para serem distribuídos pelos estudantes do Seminário Diocesano.

Quanto aos 25$000 réis a que os estudantes do Liceu de Braga tinham direito, por distribuição equitativa, foram gastos na excursão do dia seguinte (19 de Março de 1904) a Vila Real.

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