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O combate à Covid19 e outras guerras

Reflexões abertas à sociedade portuguesa

O combate à Covid19 e outras guerras

Ideias

2020-04-07 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

O Secretário-Geral das Nações Unidas e o Papa, duas das personalidades mais prestigiadas e respeitadas, manifestaram há dias a sua enorme preocupação com a doença que está a devastar o mundo, unindo as suas vozes num apelo lancinante ao fim de todas as hostilidades bélicas.
Face à crescente propagação da Covid-19, António Guterres lembrou que nos países assolados pela guerra, “os sistemas de saúde colapsaram e que os, já de si, escassos profissionais de saúde são frequentemente atacados.” Torna-se, pois, imperioso “pôr fim à doença da guerra e combater a doença que está a devastar o nosso mundo”.

O apelo do líder da ONU a “um cessar-fogo mundial e imediato, em todas as regiões do mundo”, foi de imediato secundado pelo bispo de Roma o qual, ainda anteontem o renovou: “Uno-me a todos os que aceitaram esse apelo e convido todos a segui-lo, interrompendo qualquer forma de hostilidade bélica, favorecendo a criação de corredores para ajuda humanitária, abrindo a diplomacia e a atenção àqueles que estão em situação de maior vulnerabilidade”, disse o Papa Francisco.

Em abono da verdade, não se pode dizer que os apelos destes dois dirigentes mundiais tenham sido ignorados, pelo menos por alguns dos destinatários das mensagens.
Na realidade, após os pedidos de Guterres e de Francisco, no final de Março, foi possível observar alguns, poucos, passos em direção a um cessar-fogo, com "tréguas humanitárias" em alguns dos países onde ainda subsistem sangrentos conflitos e violências internas, como serão os casos do Iêmen, das Filipinas e dos Camarões. Também no nordeste da Síria se registaram alguns sinais positivos.
Em todo o caso, a situação mundial nada tem de tranquilizante, bem pelo contrário. É um completo desassossego saber-se que, pelo menos, 70 países em todo o mundo estão envolvidos em algum tipo de guerra ou conflito interno. Verificamos que muitos deles estão praticamente esquecidos pela esmagadora maioria das pessoas, uma vez que a sua mediatização é escassa ou inexistente. Mas não ignoramos, por exemplo, que os nove anos de conflito na Síria já terão provocado a morte de cerca de 380 mil pessoas, além de terem debilitado, com inexorável crueldade, o sistema de saúde local. Os mais recentes dados independentes disponíveis referem que apenas cerca de 64% dos hospitais e 52% dos centros de assistência básica existentes antes de 2011 estão atualmente em actividade, mas também sinalizam que 70% dos profissionais de saúde abandonaram o país…

Os exemplos são abundantes e com uma carga de dramatismo que não pode deixar ninguém indiferente. São as guerras mais ou menos convencionais mas também os conflitos internos, frequentemente étnicos, os quais, em conjunto com as chamadas guerras da droga, na América Latina e não só, colocam o planeta e a humanidade numa situação de permanente sobressalto.
Podia, obviamente, referenciar ainda zonas do globo que, não estando propriamente em guerra aberta, alimentam um clima belicista de confronto, instalando o medo e disseminando o pânico entre as populações. Será o caso, por exemplo, da península coreana e do Japão, região do globo que vive permanentemente em tensão, sempre com receio dos mísseis balísticos da Coreia do Norte.

Adquire, portanto, enorme acuidade o renovado apelo do Papa Francisco ao diálogo e aos esforços de paz, apelo em que insistiu neste V Domingo da Quaresma, ou de Ramos, após rezar o Angelus. E no qual, obviamente, não esqueceu a trágica situação de crise epidemiológica que o mundo atravessa. Nesse sentido, manifestou a ambição de “que o esforço conjunto contra a pandemia possa levar todos a reconhecer a nossa necessidade de fortalecer os laços fraternos, como membros de uma única família humana”.

De facto, a perigosa ameaça que agora paira sobre a humanidade insta todos os responsáveis mundiais a adoptarem outro tipo de posturas, bem diversas das que foram professadas ao longo dos últimos anos. Instalou-se entre nós, e cada dia com maior disseminação, a Covid-19, uma doença provocada por um vírus implacável que se transformou num inimigo comum o qual, conforme Guterres também sublinhou, “ameaça todos, independentemente de nacionalidades, etnias, credos ou posicionamentos políticos.”

Embora em Portugal a situação sanitária não possa ser considerada, por enquanto, tão dramática quanto aquelas que assolaram outros países, a verdade é que já temos a lamentar mais de três centenas de mortes, número que naturalmente nos causa profunda tristeza e enorme inquietação. Nunca será de mais reconhecer e agradecer o enorme esforço, por vezes quase sobre-humano e com riscos acrescidos, que os abnegados profissionais de saúde desenvolvem diariamente para acudir às sucessivas solicitações. Mas também não podemos esquecer o alto espírito de responsabilidade cívica que a esmagadora maioria da população portuguesa tem demonstrado perante esta adversidade.

Vamos ver a evolução do surto viral no nosso país, sempre na esperança de que a situação se mantenha sob controlo, naturalmente com o consequente prolongamento temporal. Mas, para que tal objectivo seja atingido, é imperioso não abrandar as medidas de isolamento social e respeitar escrupulosamente as orientações fornecidas pelas autoridades. Só assim se retirará pressão sobre os profissionais e as unidades de saúde e, consequentemente, se garantirá a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde em níveis aceitáveis.

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