Correio do Minho

Braga, sábado

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O Cinema S. Geraldo e a Conjugação dos Elétricos com o Theatro Circo

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2015-05-10 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Não são muitas, em Braga, as salas de espectáculos com dimensão regional ou nacional. A exceção é o Theatro Circo, que este ano celebra 100 anos, e que constitui na realidade uma das mais imponentes salas de espetáculo do país, e o Cinema S. Geraldo, embora este com vocação exclusiva para o cinema.

No que se refere ao cinema, as salas existentes em Braga limitam-se às construídas em tempos mais recentes. Se compararmos com cidades como o Porto, que já teve cerca de 50 emblemáticas salas de cinema, nos últimos 100 anos, como o Cinema Batalha, Cinema Trindade, Cinema Olímpia, Cinema Charlot, Estúdio Foco, Cinema Nun`Álvares, o Cine-Teatro Vale Formoso, o Águia D´Ouro, o Cinema Carlos Alberto ou o Cinema Passos Manuel, ou Lisboa, com Cinemas como o S. Luís, o Chiado-Terrasse, o Tivoli, o Éden, o Cinema Ideal, o S. Jorge, o Império ou o Monumental, verificamos que em Braga apenas o Theatro Circo e o Cinema S. Geraldo têm projeção verdadeiramente nacional.

O Cinema S. Geraldo, que se encontra abandonado, em pleno centro histórico de Braga, desempenhou um papel importante na divulgação cinematográfica, não só de Braga, como também desta região. Inaugurado no dia 1 de junho de 1950, foi a primeira sala de cinema de Braga, sendo inclusive uma das primeiras do país, com vocação exclusiva para a projeção de filmes.

Apesar de Oliveira Salazar não gostar de filmes nem de ir ao cinema, a “sétima arte”, como é conhecida esta vertente cultural, foi muito divulgada no nosso país, com especial incidência na década de quarenta. Apesar disso, era uma arte vigiada pelo Estado Novo, como o comprovam as sessões de cinema que o regime realizava pelo país.

Nessa época, os “Cinemas Ambulantes” percorriam o país, levando aos habitantes dos locais mais recônditos e “à gente mais laboriosa do campo a alegria salutar e educadora de filmes convenientemente selecionados” (Correio do Minho, 11.12.1942). Nessas sessões de cinema, a “santidade da instituição casamento e da do lar” era defendida, tal como “as cenas de amor evitadas, a sedução e o rapto nunca evocados a não ser por indicações muito sucintas, rigorosamente proibidas as perversões sexuais e várias outras inibições…”.

Essas sessões de cinema, que percorriam os diferentes distritos do país, eram antecedidas por oradores meticulosamente preparados, que antes da sessão se iniciar, enalteciam a obra realizada pelo Estado Novo. Para ficarmos com uma ideia desta máquina controladora, só no ano de 1942 foram 166 os oradores que percorreram o país, levando sessões de cinema a 400 750 pessoas!

Quando o Cinema S. Geraldo foi inaugurado, marcaram presença as mais altas figuras da região, nomeadamente o Governador Civil de Braga, o Presidente da Câmara Municipal e diversas individualidades dos meios económico, social, político e cultural. Todos ficaram admirados com a qualidade e com o luxo que esta sala de cinema oferecia aos seus clientes, nomeadamente ao nível da nitidez da imagem e a qualidade do som.
O primeiro filme exibido no Cinema S. Geraldo, o “Cruzeiro de Férias”, ocorreu no dia 1 de Junho de 1950, às 18 horas. De referir ainda que a empresa que explorava esta sala de cinema era a “Victória Cine, Lda.”.
O Cinema S. Geraldo funcionou, durante as décadas seguintes, como uma sala frequentada por amantes de filmes de tendência para adultos, tal como surgiam nos avisos da época, que alertavam que os filmes que eram projetados eram “Para adultos”, outros eram “Inconvenientes para crianças” ou, em alguns casos, outros filmes eram “Para adultos com sérias reservas”.
Quando foi inaugurado, verificou-se uma incompatibilidade com os frequentadores do Theatro Circo, uma vez que existia um desfasamento de horários dos carros elétricos, na época o principal meio de transporte público de Braga. Quem quisesse frequentar o Cinema S. Geraldo, tinha de o fazer de acordo com os horários do Theatro Circo, pois eram estes que regulavam os horários dos elétricos, principalmente ao final da noite, quando as sessões de cinema terminavam.
Preocupados com esta situação, os responsáveis do Cinema S. Geraldo verificaram, logo nos dias seguintes à sua inauguração, que teriam que adaptar os horários das suas sessões de cinema com as do Theatro Circo, de maneira a que os seus clientes pudessem usufruir, também, dos horários dos carros elétricos. A solução encontrada foi iniciar as sessões, no Cinema S. Geraldo, mais cedo que as do Theatro Circo, resolvendo também suprimir os intervalos normais nessas sessões. Desta forma, as pessoas podiam apanhar os carros elétricos, regulados pelas sessões do Theatro Circo. Mesmo assim, aqueles que frequentavam o Cinema S. Geraldo tinham que se deslocar a pé até à Arcada, para lá o apanharem.

O jornal “Diário do Minho” (10.6.1950) dava eco a estas preocupações, uma vez que “Se os frequentadores conseguem eléctrico à hora de saída, óptimo, doutra maneira, terão de esperar meia hora para se aproveitarem dos do Theatro Circo”. No entanto, essas pessoas teriam que vir “até à Arcada e de fazer aquela caminhada que pode ser agradável no verão, mas será muito aborrecido no inverno, com chuva e frio”.

Assim, tornava-se necessário que os Serviços Municipalizados colocassem à disposição dos frequentadores daquele Cinema S. Geraldo eléctricos que os levassem para os seus destinos, até porque, às terças e quintas, não havia cinema no Theatro Circo e por isso aqueles elétricos deixavam de circular.

Passados 65 anos da inauguração do Cinema S. Geraldo, é verdadeiramente urgente tomar uma decisão acerca do futuro desta sala emblemática, propriedade da Arquidiocese de Braga, e que há três anos se encontra com as suas portas e janelas “trancadas” por blocos de cimento.

Professor e Investigador
(Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)

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