Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O caso de Chipre

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Ideias

2013-03-29 às 06h00

Margarida Proença

Um dos romances mais famosos de todos os tempos, Anna Karenina, de L. Tolstoi, começa o livro com uma afirmação também ela muitíssimo conhecida: “Todas as famílias felizes são iguais. Mas as famílias infelizes são-no cada uma á sua maneira”. E é verdade, mesmo para os países.
Embora haja seguramente muitos pontos comuns na história dos países mais duramente confrontados com a atual crise, há igualmente diferenças substanciais que resultam da história de cada um, da sua estrutura económica, das opções políticas que foram sendo tomadas.
A localização estratégica de Chipre marcou a sua história; por lá passaram quase todos os grandes poderes que sucessivamente dominaram o mundo ocidental, desde gregos, persas, egípcios, romanos, árabes, franceses, venezianos. Em finais do século XVI passou para o domínio turco, em 1878 foi colocado sob administração inglesa e é independente apenas desde 1960. Em 1974, a Turquia invadiu a ilha e ocupou cerca de 36% do seu território, situação que se mantém até hoje. Entretanto, Chipre aderiu em 2004 á União Europeia, e passou a pertencer á zona euro em 2008.
Na década de 60, por altura da independência, Chipre era um país pobre. 46% do emprego era na agricultura que contribuía apenas 16% para o PIB, a atividade industrial era pouco mais do que residual, havia desemprego e a emigração era maciça. Em vinte anos a situação alterou-se de forma aparentemente significativa. O turismo explodiu, acompanhado por um ritmo cada vez maior de construção de infraestruturas hoteleiras, estradas, aeroportos, casas, etc., e estimulou ainda o setor financeiro. Em 2011, o turismo representava cerca de 34% do PIB, quase tanto do emprego e tinha contribuído para uma situação de quase pleno emprego. Mas ao mesmo tempo os salários registaram um enorme crescimento; os custos médios de trabalho duplicaram, e a produtividade diminuiu bem como a competitividade da ilha no mercado turístico mediterrânico. Em 2011, Chipre situava-se em 31º lugar no que respeita ao Índice de Desenvolvimento Humano, acima de Portugal (41º), colocando o país no que respeita a todos os indicadores no grupo dos países mais desenvolvidos. Mas. Pois é, mas: a pressão das importações cada vez mais elevadas, a exposição crescente á corrupção, a desregulação do setor financeiro que a par de baixos impostos permitiu e induziu a atração maciça de capitais e depósitos estrangeiros sem qualquer controlo gerando uma “economia de casino” com o hiperdimensionamento do setor bancário antecipavam o desastre, dada a crise financeira e a abertura á crise grega. O fluxo de dinheiro russo á procura de um paraíso fiscal encontrou guarida em Chipre e contribuiu para que os bancos crescessem até oito vezes a economia do país, enquanto o setor bancário investia o equivalente a 160% do PIB cipriota em obrigações gregas. O balão funcionou; Chipre cresceu, as pessoas viviam cada vez melhor, o oferta de bens públicos era cada vez mais satisfatória. Mas o balão ia rebentar : só faltava saber quando.
A medida inicialmente imposta pela troika, de taxar todos os depósitos fosse qual fosse o montante envolvido, para além de não fazer sentido iria com certeza gerar desconfiança em toda a zona euro relativamente aos bancos. Mas o futuro para Chipre não é brilhante no médio prazo. Os depósitos russos e outros acabarão por sair, os custos de uma dívida acumulada serão difíceis de suportar por bastante tempo, o desemprego, como sabemos bem, vai aumentar - e, no final do dia, o problema mesmo é como alterar a base da economia para voltar a produzir riqueza.

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