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Braga, quarta-feira

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O burro de Bastuço que andava de gravata a vender roupa

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Ideias

2020-01-19 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

As décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial foram marcadas pela extrema pobreza. Refiro-me às décadas de cinquenta, sessenta, setenta e até oitenta. Escusado será dizer que esta realidade era anterior a este conflito mundial e era extensível a praticamente todo o país.
Na nossa região, a maior parte das habitações situadas fora do perímetro urbano eram iluminadas por candeeiros a petróleo e poucas localidades tinham eletricidade; eram usados os fontanários públicos, pois não havia água canalizada; eram utilizados os tanques e lavadouros públicos; o pavimento das casas era composto por terra, mesmo na cozinha; as casas de banho, salvo raras exceções, estavam situadas no exterior das casas, compostas por uma tábua colocada por cima das fossas e cujos detritos eram aproveitados para fertilizarem os campos.
Nas freguesias situadas fora do perímetro urbano, os estabelecimentos comerciais eram praticamente inexistentes e os poucos espaços mercantis restringiam-se a uma ou outra tasca, uma ou outra mercearia e, raramente, uma loja de vestuário. Essas centravam o seu comércio em tecidos, pois estes estavam na base desse ramo comercial, já que os clientes mandavam confecionar não só as suas roupas, mas também toalhas para as mesas e lençóis para as camas. Os tecidos eram vendidos ao metro, sendo um dos objetivos das mães e madrinhas oferecerem peças de tecidos para que as jovens raparigas constituíssem o seu enxoval de casamento.
Na época, era frequente o comércio deslocar-se ao encontro das pessoas. Assim acontecia com os vendedores de peixe e com os vendedores de pão, por exemplo. Assim acontecia também com alguns vendedores de roupas e tecidos. Na nossa região, nas décadas de sessenta e setenta, destacou-se um caricato vendedor de roupas, principalmente de tecidos. Diariamente partia da freguesia de Bastuço S. João, freguesia do concelho de Barcelos onde residia, e percorria semanalmente as várias freguesias da redondeza: Bastuço S. João, Bastuço S. Estevão, Moure, Cambeses (concelho de Barcelos), Nine e Arnoso S. Eulália (concelho de V. N de Famalicão), Arentim, Cunha, Ruílhe, Tadim ou S. Julião de Passos (concelho de Braga), eram as freguesias que José Gomes de Araújo percorria, com o seu burrinho, para servir os clientes desta região.
Viúvo, após cinco anos de casamento com Belmira, teve que assumir o sustento das suas duas filhas. Alto, alegre e brincalhão, simples e ingénuo, assim era caraterizado este vendedor pelos seus clientes. Todas as freguesias eram percorridas por ele, atravessando caminhos enlameados ou poeirentos, sem luz elétrica, perante constantes animais abandonados que apareciam pelo caminho (gatos, cães, coelhos, raposas, serpentes….).
Quando parava junto aos lavadouros públicos ou junto aos adros das igrejas, lá se aproximavam as mulheres da freguesia, para comprarem os tecidos, para posteriormente levarem a alfaiates ou costureiras para confecionarem as suas roupas.
Era frequente, na época, as pessoas receberem os seus parcos salários ao final da semana. E dessa forma era efetuado o pagamento semanal a este simpático vendedor de roupa. Por vezes ingénuo, facilmente era ludibriado pelos clientes nas contas finais, pois o que bebia em excesso, frequentemente contribuía para que as contas da venda das roupas não batessem certo. Como na altura a maior parte das pessoas recebia os seus ordenados ao final da semana, lá andava ao sábado e domingo o Sr. José da Roupa a recolher o dinheiro resultante das suas vendas semanais: aqui recolhia 3 tostões, adiante mais cinco tostões, que eram reduzidos à dívida dos clientes, apontada no seu livro de registos.
Sempre alegre, fruto do seu temperamento mas também da bebida excessiva, o Sr. José gostava sempre de fazer rir as pessoas por onde passava. Uma dessas habilidades estava associada ao próprio burro (que comprou para substituir uma égua, morta pelo veterinário que lhe tentou endireitar o pescoço) pois gostava com frequência de lhe colocar uma gravata ao pescoço, atraindo desta forma também as crianças destas freguesias, que passavam muito do seu tempo a brincar pelos caminhos enlameados da região.
Homem de um caráter e de uma gentileza enormes, frequentemente afirmava que, no Natal, até os animais merecem comer a dobrar. E nessa noite alimentava-os ainda com mais carinho.
A notícia do seu falecimento, que ocorreu em casa, perante a presença das duas filhas e do pároco da freguesia, depressa se espalhou pela região, constituindo o seu funeral um momento de enorme consternação, dado tratar-se de uma figura simpática e bem peculiar destas freguesias que nos rodeiam. Assim era o Sr. José de Bastuço, que costumava vender roupa, recorrendo a um burro que usava gravata!
Essa época era marcada pela carência, mas, por outro lado, era também marcada por um espírito de solidariedade entre as pessoas que começa a escassear nos nossos dias.

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