Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O Bruxo Branco

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Conta o Leitor

2014-07-18 às 06h00

Escritor

António Afonso

No dia 11 de Abril do ano de 2011, desloquei-me à cidade Invicta a pedido telefónico duma senhora nonagenária para assistir a uma consulta dada por um célebre bruxo de raça caucasiana.
Cheguei a casa da citada senhora cerca das 11H30. Como essa pessoa idosa tinha dificuldade em andar, devido à sua proveta idade, tinha-me emprestado uma chave da sua casa para eu poder entrar e me dirigir logo para a sala das consultas.

Entrei e logo veio ter comigo um cão preto, de porte médio e raça indefenida, que até já me conhecia pois não era a primeira vez que ia visitar a dona.
Ladrou-me com latidos de alegria, por me ver novamente, saltou, saltou e seguimos para a sala das consultas.

Entrei, cumprimentei a senhora e o sr. bruxo que estava sentado num confortável sofá unilugar mais parecido com um trono real. A senhora estava sentada num grande sofá de três lugares. O cão deitou-se logo ao lado dela e ficou muito sossegado com as grandes orelhas arrebitadas para ouvir melhor o que se ia passar.
E logo o bruxo deu início à sessão.

Em altos berros, como que a querer exorcizar os demónios do além disse que os coeficientes das rendas de casa alugadas na Invicta eram muito baixos e que havia resmas de Decretos Lei para se poder saber qual o valor das rendas iniciais das casas habitadas pelos tripeiros.
Confesso que não percebi muito bem o paleio económico dele mas como o FMI chegava ao nosso país no dia seguinte, pensei para comigo: - Isto deve ter que ver com o Engº Sócrates e com o Dr. Passos Coelho.

Entretanto a nonagenária a que passo a chamar acólita, mantinha-se muda que nem um rato, talvez com medo que o bruxo lhe lançasse uma maldição ao seu simpático cão preto que se chamava Black Carlos.

Aí pensei para com os meus botões:
- Este cão deve ser muito importante, pois tem um nome inglês e outro português. Deve ser de dupla nacionalidade, talvez descendente dos cães pastores ingleses.
Depois olhei mais fixamente para o bruxo e reparei que era um senhor muito bem apessoado, de estatura média, muito bem vestido com um fato de bom corte e que me pareceu ser da classe média-alta, com cerca de 60 anos.

Depois de muito arengar disse-me olhando para mim fixamente e com um ar muito zangado:
- Sabe, eu vivo aqui na casa ao lado, sem nenhumas condições de habitabilidade, com tetos muito altos, com mais de meio século de construção, casa essa por esse motivo muito fria no Inverno e que me leva imensos euros à EDP para a aquecer.

Concordei imediatamente com ele e olhando melhor para a sala da acólita, verifiquei que também era muito desconfortável, muito quente, pois estava um dia sufocante. Também reparei que tinha uma grande porta de fole, de napa cinzenta, toda roída, talvez pelo Mister. Black.
Mas o melhor ainda estava para vir.

A certa altura o bruxo levanta os braços ao ar e num gritar estridente, lançou uma terrível maldição sobre as miudezas digestivas da pessoa que roubou no ano passado um precioso anel com uma grande pedra incrustada, talvez um diamante de cor e muito mais tarde 700 euros que foram subtraidos à acólita, que se manteve calada, e com um ar muito sério.

Confesso que fiquei bastante amedrontado com tal terrível execração, pois colocaram-me há pouco mais de um mês um pacemaker no Hospital de S. João e tive imenso medo que a praga rogada tivesse um efeito eletromagnético e me alterasse ou até fizesse parar o meu indispensável estimulador cardíaco. E se assim acontecesse, adeus mundo cruel que com imprecações me mataste.

Mas sosseguei, pois vi que nem o canídeo nem a acólita sofreram qualquer efeito físico ou psicológico com a terrível maldição.
Mas depois pensei um bocado e lembrei-me que há muitas luas passadas a acólita me tinha dito que a empregada a dias lhe tinha roubado um dos dois anéis que estava em cima do frigorífico.
Nessa altura disse-lhe que seria melhor e mais seguro despedir essa ladra mas ela retorquiu que tinha esperanças que ela o devolvesse e assim não seguiu o meu conselho.Até ao momento esse precioso anel não apareceu.

Alguns meses mais tarde disse-me que a tal empregada continuava a trabalhar lá em casa. E numa altura em que a acólita foi dar uma volta pelo quintal acompanhada pelo seu fiel amigo, a sua serviçal, que segundo me dizia limpava tudo na perfeição tinha ficado a trabalhar na sala de jantar.

Também pelo que me contou na altura deu por falta de um envelope com 700 euros logo a seguir à empregada sair de casa após ter terminado o trabalho nesse dia. Disse que foi logo ao supermercado onde sempre fazia as suas compras para ver se a via e também foi ao café onde ela costumava registar o Euromilhões mas informaram-na que nesse dia não tinha passado por lá.
Depois de voltar para casa a acólita pegou no telemóvel e telefonou-lhe.

Disse-me que falou assim para ela:
-“Ó sua grande ladra. Devolva-me o envelope com o dinheiro que me roubou. Meta-o na caixa do correio e eu prometo que não faço queixa à polícia.”
Não sei o que ela lhe respondeu, mas penso que não foi ela que cometeu esse roubo, pois apesar de viverno Bairro da Lapa é uma pessoa honestíssima que só trabalha a dias para a acólita, visto não precisar de trabalhar muito, pois o marido e os dois filhos têm muito bons empregos, que lhe proporciona um bom rendimento mensal.

Ela pelos vistos não ligou nada ao telefonema , pois até hoje não lhe devolveu nem o dinheiro nem o anel.
Agora constato que as maldições por telemóvel não funcionam. Têm que ser feitas por um bruxo credenciado.

Também perguntei à acólita porque é que não dizia ao bruxo que tinha sido roubada, para ele lhe lançar uma terrível maldição ou ler nos astros onde é que tinham ido parar esses euros!
Disse-me que não o queria incomodar, mas na minha modesta opinião ela tem é muito medo do bruxo.

Não sei qual o motivo, pois até me pareceu um bruxo simpático e compreensivo.
Agora sobre aqueles transes iniciais e a maldição que lançou, devem estar estar relacionados com o possível consumo de marijuana, talvez trazida das terras angolanas.Só assim consigo entender tudo o que acima descrevi.

Finalmente a sessão foi dada por terminada, não sem antes que o bruxo afirmasse que era bacharel em bruxaria aplicada e que estava creditado na Ordem dos Bruxos e Feiticeiras da Península Ibérica.

Despedi-me muito cordialmente do bruxo e ainda fiquei mais um bocado a fazer companhia à acólita e ao seu cão.
E assim terminou a minha primeira sessão de Alta Bruxaria na Cidade Invicta.

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