Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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O bracarense José Sousa - o maior sapateiro do país

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Ideias

2016-10-30 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Daqui a dois dias celebra-se o Dia dos Fiéis Defuntos, altura em que as famílias aproveitam para visitar os locais de culto, onde se encontram os familiares ou amigos que já faleceram.
Este é um dia em que muitos aproveitam para recordar a memória daqueles que já partiram e, eventualmente, dos feitos que tivessem legado à sociedade.
Neste contexto, irei recordar um bracarense que faleceu por esta altura do ano, exatamente a 5 de novembro de 1902, e que foi um dos mais brilhantes sapateiros do país, com grande reconhecimento internacional. Refiro-me a José da Cunha Alves de Sousa, cuja memória praticamente passou ao esquecimento.
O setor do calçado no nosso país é um dos mais competitivos da Europa e também um dos que melhor sabe adaptar-se às sucessivas mudanças que vão ocorrendo nesta área.
Com uma concentração, atualmente, mais localizada nos distritos do Porto, Aveiro e também Braga, esta indústria teve um grande desenvolvimento no início do século XX, em concelhos como Barcelos, Braga e Guimarães.
Devido à pobreza que caraterizou muito a nossa região, os seus habitantes não tinham a possibilidade de gastar muito dinheiro em calçado. Por isso, muitas pessoas andavam descalças, ou então com os célebres tamancos, muito caraterísticos da nossa região. Várias pessoas mantinham os seus tamancos durante muitos anos, deslocando-se inclusivamente a importantes cerimónias religiosas com este calçado. Esta realidade manteve-se durante quase todo o século XX, começando a alterar-se apenas a partir da década de setenta.
Na arte do calçado, houve algumas pessoas que se destacaram na sua inovação, permitindo aos poucos uma melhor qualidade e comodidade, colocada à disposição dos clientes. Foi neste setor que Braga teve um verdadeiro artista, considerado na época o melhor do país e um dos melhores da Europa.
José da Cunha Alves de Sousa nasceu em Braga em 1837. Desde cedo trabalhou em oficinas de calçado, onde foi aprendendo as primeiras técnicas desta arte. Aos poucos foi-se destacando na cidade onde era procurado pelas pessoas mais abastadas da região e, a partir daí, foi obtendo uma crescente notoriedade que se espalhou por todo o país.
Os seus méritos nesta arte foram aumentando de tal forma que foi convidado a participar em exposições de calçado um pouco por todo o país. Aí era frequentemente elogiado e premiado, quer pela qualidade dos produtos, quer pela inovação que apresentava.
A fama deste sapateiro de Braga era de tal forma elevada que acabou por ultrapassar as fronteiras do país. Foi convidado para várias exposições e para várias iniciativas, todas elas ligadas à arte do calçado. Sobre José Sousa escreveu o jornal “Correio do Minho”, de 7 de novembro de 1902: “Obteve as mais altas recompensas nas diferentes exposições a que concorreu, sendo as suas obras fartamente elogiadas e admiradas pelos entendidos. Foi, inquestionavelmente, uma gloria da sua arte”.
A comprovar toda esta capacidade e notoriedade, este sapateiro de Braga obteve medalhas de mérito, por exemplo, em exposições de calçado realizadas em Viena, na Áustria, ou em Filadélfia, nos EUA.
Sobre José de Sousa refere, ainda, a mesma fonte: “Obteve as mais altas recompensas nas differentes exposições a que concorreu, sendo as suas obras fartamente elogiadas e admiradas pelos entendidos. Foi, inquestionavelmente, uma gloria da sua arte”.
José de Sousa não se preocupou muito com os bens materiais. O seu foco estava na arte do calçado e na melhor forma que poderia encontrar para melhorar a comodidade das pessoas. Era um verdadeiro artista nesta área. Quando morreu, a 5 de novembro de 1902, deixou aos seus filhos, apenas, “um nome honrado d’artista distincto entre os mais distintos”, uma vez que não soube adquirir, para seu próprio bem e da sua família, a “rara habilidade com que a natureza o dotou”.
De referir ainda que José de Sousa, este verdadeiro artista de Braga, foi um dos fundadores do Montepio de S. José.
A sua morte foi sentida em Braga e em todo o país. A prova disso foi o imponente funeral que teve, repleto de pessoas, de artesãos e de figuras de todo o país, tal como refere o jornal “Commercio do Minho”, de 8 de novembro de 1902: “Foi aqui muito sentida a morte do habilíssimo industrial d’esta cidade, sr José da Cunha Alves de Sousa, sem duvida o primeiro sapateiro do paiz”.
Numa necessária “Galeria de bracarenses Ilustres”, que Braga deveria acolher nos tempos próximos, José da Cunha Alves de Sousa teria garantidamente o seu espaço, por ter honrado o seu nome, o nome de Braga e do país e sem nunca ter demonstrado preocupado demasiada com os valores económicos e/ou materiais, como aqueles que marcam, frequentemente, a nossa sociedade.

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