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O bom arcebispo que morreu de pneumonia

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O bom arcebispo que morreu de pneumonia

Ideias

2022-01-09 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A cerca de um mês da tomada de posse do novo Arcebispo Primaz de Braga, D. José Cordeiro, a quem desejo desde já as maiores felicidades no cargo, e num momento em que ainda enfrentamos de forma intensa a pandemia de Covid 19, é oportuno lembrar um dos Arcebispos de Braga que se notabilizou pela sua bondade. Refiro-me a D. António José de Freitas Honorato que liderou a Arquidiocese de Braga durante 15 anos, entre 1883 e 1898.
D. António Honorato tinha como inspiração os Arcebispos D. Frei Bartolomeu dos Mártires e D. Frei Caetano Brandão e destacou-se pelo bem ao próximo. Apresenta-se, provavelmente, como um dos Arcebispos menos recordados desta Arquidiocese.
Uma das suas principais características era, sem dúvida, a caridade. Era um “Verdadeiro typo de bondade o seu coração facilmente se contristava com as máguas e afflicções dos outros …” (“O Commercio de Guimarães”, 3.1.1899).

Os cidadãos desta vasta arquidiocese e de outras regiões do país, como Coimbra (sua terra Natal) tinham em D. António Honorato um “pae na sua caridade, os súbditos um pae na sua governação, a sociedade um exemplo das suas virtudes, a sciencia um pae nos luminares da sua intelligencia, os amigos um pae nos extremos da sua dedicação” (Id.).
D. António Honorato distribuía pelos pobres e mais necessitados, todos os anos, importantes somas de dinheiro. Segundo o “Commercio do Minho”, de 29.12.1898, “Era tanta a bondade do varão justo que terminou a sua missão sobre a terra, que ninguém ha ahi que não verta lagrimas de saudade junto do seu alaúde”.

A obra deixada na Arquidiocese de Braga é altamente prestigiante. Durante os 15 anos da sua liderança, ordenou o impressionante número de 755 sacerdotes e sagrou um Bispo, o de Angra do Heroísmo.
Foi também este Arcebispo quem lançou as primeiras pedras para o novo templo de Nossa Senhora do Sameiro e ainda da igreja de Montariol, que mais tarde viu crescer o Colégio do Montariol.
Através da sua iniciativa, ou do seu contributo, foram criados em Braga o Asilo da Mendicidade, a Oficina de S. José, o Seminário de Santo António ou o Colégio da Preservação.
As comemorações do centenário do Bom Jesus do Monte, da consagração da diocese, do congresso católico, ou do 50.º aniversario do Apostolado da Oração, realizaram-se durante o período em que D. António Honorato era aqui Arcebispo.

Através da “Homenagem ao Sagrado Coração de Jesus pela Archidiocese de Braga”, publicado em 1886, de António Pais de Figueiredo Campos, este deu a conhecer um resumo biográfico até à altura em que foi nomeado Arcebispo de Braga.
Assim, sabemos que este bom Arcebispo nasceu em Coimbra, a 16 de outubro de 1820 e era filho de Jerónimo José de Freitas e de Sinforosa Maria Vieira.
Frequentou com aproveitamento o Curso de Humanidades, no Colégio das Artes, em Coimbra. Em 1839 matriculou-se na Faculdade de Teologia onde concluiu estes estudos em 1844, sendo de imediato convidado a ficar nessa Faculdade e onde obteve o grau de doutor, em 1845.
Em 1843 foi ordenado presbítero e em 1846 foi nomeado pároco da igreja de S. João de Santa Cruz, em Coimbra, tendo aí permanecido até 1855. Devido ao decreto de 12 de agosto de1854, que o nomeava Professor Catedrático na Faculdade de Teologia, D. António Honorato teve que resignar, no ano seguinte, ao cargo que exercia na igreja de S. João de Santa Cruz.

A qualidade do trabalho desempenhado em Coimbra, esteve na origem da nomeação como Provisor e Vigário Geral do Patriarcado, cargo que assumiu a 4 de fevereiro de 1873 tendo, por essa razão, abandonando Coimbra e a Faculdade a que tanto se dedicara.
Enquanto esteve na sua terra Natal, destacou-se no contributo dado à restauração da Venerável Ordem Terceira da Penitência sendo ainda um dos mais entusiastas fundadores e benfeitores do Asilo da Mendicidade (Coimbra) onde foi ainda juiz perpétuo da Real Confraria da Rainha Santa Isabel.
No Consistório realizado a 25 de julho de 1873, D. António Honorato foi nomeado Arcebispo de Mitilene (Patriarcado de Lisboa).
Após a resignação de D. João Crisóstomo de Amorim Pessoa, como Arcebispo de Braga, D. António Honorato foi nomeado seu substituto, pelo Consistório de 9.8.1883, chegando a Braga no dia 25 de outubro de 1883, altura em que foi recebido efusivamente.

D. António Honorato faleceu à 1h30 do dia 28 de dezembro de 1898. De grande compleição física, o Arcebispo sofreu de diabetes, nos anos terminais da sua vida, tendo nos últimos dias sido atingido de forma fatal por uma pneumonia. Ainda foi socorrido por alguns médicos, nomeadamente o célebre António Maria Pinheiro Torres e ainda Soares Júnior, Baptista da Silva e Caetano de Oliveira (da Póvoa de Varzim) que lhe diagnosticaram a pneumonia, à época muitas vezes fatal!
Minutos antes da sua morte, um dos seus familiares perguntou-lhe se desejava alguma coisa, tendo este respondido “Quero ir para o ceu! Entre as mãos segurava um crucifixo, que apertava contra o peito e beijava constantemente” (CM, 29.12.1898).
Através de uma autorização especial do Governo, os restos mortais de D. António Honorato foram sepultados na capela de N. Senhora da Piedade, nos claustros da Sé, entre os túmulos de D. Frei Caetano Brandão e D. Diogo de Sousa, conforme a sua última vontade.

Em testamento deixou escrito que os seus bens seriam distribuídos por instituições como a Oficina de S. José, o Colégio de Regeneração, o Asilo de S. José, o Asilo de Mendicidade, o Conservatório das Órfãs do Menino Deus da Tamanca, o Recolhimento de S. Gonçalo, o Hospício da Caridade, o Convento de Santa Teresa, o Colégio da Preservação, a Conferência de S. Vicente de Paulo, às senhoras pobres do Convento dos Remédios, aos pobres das freguesias da cidade de Braga, ao Hospital da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco ou à Confraria de Santíssimo Sacramento de Santa Cruz (ambas de Coimbra).
Importante referir ainda que deixou uma salva de prata e o quadro da primeira missa do Brasil a António Pais de Figueiredo Campo. Entregou os seus livros à Mitra Primaz de Braga.
O Arcebispo de Braga D. António José de Freitas Honorato, que faleceu mesmo a terminar o ano de 1898, merece ser recordado, não só pelas suas obras, mas também pelo seu generoso caráter.

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