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O benemérito de Cabreiros

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2013-01-14 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A sociedade actual, marcada por uma enorme crise económica e social, incita-nos a recordar pessoas que viveram noutras épocas e que desenvolveram, de forma desinteressada, uma destacada actividade em prol dos mais desfavorecidos da sua região. Neste contexto, vou recordar um benemérito da cultura e dos mais necessitados, que desenvolveu a sua acção na freguesia de Cabreiros, do concelho de Braga.

Viviam-se os últimos anos do século XIX marcado, à semelhança de hoje, por uma grave crise económica e grande agitação social. Na nossa região, muitas pessoas viviam na miséria, uma vez que as habitações estavam marcadas por enorme insalubridade. Fora das zonas urbanas praticamente não existiam vias de comunicação, os habitantes deslocavam-se diariamente a pé, ao longo de dezenas de quilómetros, atravessando várias freguesias. Mesmo os comerciantes da época, que viviam nas freguesias limites de Braga faziam, na sua maioria, o percurso a pé para as feiras que se realizavam nesta cidade.

Para ficarmos com uma ideia mais precisa das dificuldades que se viviam na época, basta dar aqui o exemplo de uma obra que se realizou na freguesia de Cabreiros e que entusiasmou muito os seus habitantes. Foi em Maio de 1890, quando foram inauguradas as obras de construção de um caminho municipal que ligava o lugar do Porto de Martim ao lugar da Capela, em Cabreiros.

A inauguração destes trabalhos, que “apenas” ligava dois lugares da freguesia, foi um momento de tal forma importante, que contou com a presença das mais importantes figuras do concelho de Braga, com destaque para o presidente da Câmara de Braga e seus vereadores, o dr. Rodrigues de Carvalho (par do reino), deputados e proprietários importantes desta região. Na ocasião, foi servido um banquete e a população da freguesia, totalmente entusiasmada, foi brindada com girândolas de foguetes e uma banda de música, que tocou durante toda a cerimónia!

Foi nesta época e neste contexto, que um dos habitantes da freguesia de Cabreiros resolveu contribuir com tudo o que podia e sabia para o enriquecimento cultural e social da sua freguesia, empenhando-se na realização de muitas tarefas úteis aos seus habitantes.
António Moutinho Lopes Correia não era propriamente uma pessoa abastada a nível económico, mas tinha uma vontade enorme de engrandecer a sua terra, facto que se sobrepunha a qualquer dificuldade que existia.

Residente no então lugar do “Porto de Martim”, da freguesia de Cabreiros, António Lopes Correia foi o fundador da “Sociedade Literária do Porto de Martim”, instituição que na época se podia orgulhar de ter instalações próprias, biblioteca e, inclusive, aulas nocturnas.
Ainda ligado à educação e cultura, António Lopes Correia desenvolveu vários esforços no sentido de dotar a freguesia de Cabreiros com uma escola para ambos os sexos. Assim, conseguiu os fundos necessários para comprar um terreno destinado à sua implantação e ainda o dinheiro necessário para a sua construção.

As verbas para estas importantes obras eram adquiridas junto de pessoas de destaque na época. Refiro-me ao padre Domingos Fonseca Martins (abade de Vilaça e posteriormente presidente da Câmara Municipal de Braga), Manuel José Gomes (da Casa da Serra) e até do próprio Conde de Paris, junto do qual António Lopes Correia conseguiu a considerável quantia de 100 francos, quando este destacado elemento da nobreza francesa se deslocou a Portugal.

Aproveitando a presença de muitos portugueses no Brasil, António Lopes Correia conseguiu, junto deles, contribuições para a sua “Sociedade Literária”. De entre eles destacavam-se o irmão do professor de Cabreiros e ainda o capitalista Francisco de Sousa Gomes (natural de Soutelo e emigrado no Pará).

António Lopes Correia desenvolveu também uma importante actividade em prol dos habitantes mais desfavorecidos de Cabreiros e das freguesias vizinhas desta. Aproveitando a sua actividade profissional (farmacêutico) e devido à enormíssima dificuldade que as pessoas tinham em obter cuidados junto dos médicos, deslocava-se frequentemente a casa dos mais desfavorecidos, socorrendo-os em momentos de débil saúde, fornecendo-lhes ainda medicamentos de forma gratuita.

A notícia da morte de António Lopes Correia foi conhecida nos primeiros dias de Janeiro de 1892. Deixou as populações da freguesia de Cabreiros e das freguesias que a rodeiam envoltas em profunda tristeza por verem partir, ainda muito novo, um benemérito da cultura e da caridade da sua freguesia.

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