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Reflexões abertas à sociedade portuguesa

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Ideias

2020-05-24 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Uma notícia desta semana repisava o desamor crónico dos adolescentes portugueses pela Escola. Aparentemente apreciarão as amizades, os recreios, en-fim, as possibilidades de socialização, já o resto, o essencial, a razão pela qual a Escola existe, aí será um torcer de narizes.
Pouco importa se os nossos estão sozinhos na desaprovação, ou se integram um painel transversal com ligeiras variações de percentagem entre países fronteiriços: uma desgraça colectiva, generalizada, não fere menos por força do número. Aliás, bom era, até, que espelhasse uma singularidade nacional, pelo acréscimo de evidência, pela vergonhazinha que nos forçasse a emendar a mão em ritmo acelerado, pela disponibilidade de modelos que pudéssemos e devêssemos seguir na conquista de novo paradigma, na reversão de uma obsolescência.
Voltemos às definições. A Escola ensina, para que se aprenda, para que se alcance competência, para que se vença, para que se atinja um certo estatuto social e nível remuneratório, para que a qualidade de vida de que usufruamos nos engrandeça a nossos olhos, para que nada nos envergonhe diante de uma família que geremos de nossa iniciativa. Ponto, naturalmente, em que a história recomeça. A Escola é a bancada em que uma peça se aprimora – o aluno.
Já confiei na autoregulação positiva da sociedade, já confiei na previdência dos governos, já confiei na distribuição efectiva da riqueza, e não o faço, hoje, pela clareza lancinante das estatísticas que se encontram à nossa disposição – a deterioração do rendimento do trabalho é um facto incontestável, o aumento da exploração é um dado inquestionável: a puidez do tecido social instala-se como um adquirido.
Diagnóstico que não dou por concluído com omissões. É evidente que há alunos com projectos e professores que se afadigam para dar o máximo, que há quem singre nos estudos e que forje uma imagem pessoal e externa positiva. Uns não obliteram outros, uns não nivelam outros, induzindo uma adequação intrínseca do sistema, uma potencialidade que alguns capitalizam e outros depreciam.
Enalteçamos uma parcela, e colemos a etiqueta de desmazelados em amostra concorrente. O que é que isso nos dá? Uma legião de recursos humanos malbaratados? Que satisfação pode reclamar a Escola mediante uma companhia de subformados, perante um batalhão de recrutas zero? De que é que adiantar apontar o exemplo dos que vestem bem, se não menos são os que desfilam nus?
Muito se fala, por estes dias, que se impõe um certo número de acertos, que imperioso é que pensemos mais em termos colectivos. Temores que nos unem numa teia de prevenções. Que tu, peão, defendido vivas de agente patogénico, que por infeliz acaso me possas transmitir, e que em morte eu te preceda, apesar de seres pobre e eu ser rico, porque mais resistente sejas tu do que eu. Eis a tese que orbita em muitos corações de solidariedade interesseira. Imunidade, que ou é colectiva, ou que de todo não o é. Triste socialismo de enfermaria. Foice e martelo despejados por vermelha cruz.
Voltando à Escola, ao que é, ao que deveria ser. O problema da Escola não é de orgânica ou de filosofia educativa, não é um problema de didáctica nem de novas tecnologias. O problema da Escola é de ordem iminentemente social. A Escola, digamos, vai atrás do que quisermos para a sociedade no seu todo. Se seguirmos um modelo restritivo, tal que os que saiam das famílias certas bastem a um Portugal dos pequenitos, com que hipocrisias, então, penduraremos a honrosa medalha do refugo nas costas dos que deliberadamente desprezamos?

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