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O ano em que Castanheira da Chã ficou reduzida a cinzas

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Ideias

2013-02-11 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O concelho de Montalegre, noticiado nos últimos dias devido à quantidade de neve que o atingiu, tem atraído cada vez mais pessoas a esta vila transmontana devido, não só à neve, mas também à realização das suas feiras de fumeiro, das suas festas concelhias e das suas “noites das bruxas”.
Mas o concelho de Montalegre também é muito atractivo, devido às suas paisagens deslumbrantes e às tradições que os seus habitantes ousam dignamente preservar, e que lhes tem mantido uma dinâmica social de grande mérito.

No entanto, o crescimento que agora se verifica, não apaga as décadas anteriores marcadas pelas agruras próprias de uma terra e de um povo algo distante dos grandes centros económicos. Neste contexto, vou recordar um acontecimento trágico, que ocorreu na povoação de Castanheira da Chã, deste concelho, já lá vão 115 anos.

A povoação de Castanheira da Chã, em Montalegre, é uma povoação marcada pela sua paisagem natural e pelas tradições que preserva, em muitos casos, de forma eloquente e única.
Devido ao local onde está inserida, os seus habitantes conseguem suportar com grande dinamismo as dificuldades ambientais e o isolamento social. Mesmo a terminar o século XIX (1898), esta povoação foi vítima de um violento incêndio, que deixou a sua população envolta numa enorme miséria.

Em finais do século XIX, esta população possuía ainda características muito idênticas ao do período Neolítico, uma vez que as suas habitações eram compostas por cabanas em pedra e com telhados construídos ainda em madeira e colmo.
O isolamento desta povoação levou a que os seus habitantes desenvolvessem hábitos comunitários de grande amplitude, uma vez que guardavam praticamente todas as suas colheitas nos celeiros comuns. O objectivo era suportar os rigores do inverno com menos dificuldades.

Uma vez que na altura existiam muitos animais selvagens junto a esta povoação, eram vários os caçadores que se deslocavam para lá. E foi num desses momentos que a tragédia aconteceu: em meados de Agosto de 1898 um caçador disparou contra um animal, tendo uma bucha da espingarda atingido um telhado em colmo de uma cabana onde moravam alguns habitantes da povoação. O incêndio, que deflagrou nesse telhado, rapidamente destruiu essa cabana e ainda as várias que existiam pelas redondezas.

As consequências deste acontecimento foram trágicas. O jornal “Commercio do Minho” noticiou, na sua edição de 23 de Agosto de 1898, que “Todos os habitantes da Castanheira, já bastante pobres, estão reduzidos á mais extrema miséria, pois não só perderam os casebres e os trapos que tinham, mas ficaram sem pão, por terem ardido os celleiros onde guardavam a ultima colheita. Os infelizes dormem ao relento, quasi nus e sem terem com que matar a fome”.

A situação provocada por este incêndio era de tal forma preocupante, já que o inverno, nesta região bastante agreste, aproximava-se rapidamente. No meio da enorme preocupação e angústia, o deputado Ribeiro Coe-lho desempenhou um papel importante, pois resolveu deslocar-se propositadamente à vila de Sintra, para dar conhecimento desta catástrofe à própria rainha D. Maria Pia.

Nesse encontro, mantido em Setembro de 1898, o deputado Ribeiro Coelho entregou pessoalmente à rainha um pedido da Câmara de Montalegre, no qual o município implorava o auxílio de Sua Majestade para os pobres habitantes de Castanheira da Chã.
Na resposta, efectuada sensivelmente um mês após o incêndio (Setembro de 1898), D. Maria Pia prometeu ajudar os infelizes habitantes desta povoação de Montalegre, cujos prejuízos resultantes do incêndio fo-ram calculados em cerca de 30 mil reais.

Apesar de há uns anos praticamente ninguém considerar possível um acontecimento destes na nossa região, o certo é que, com a regressão que se vive na sociedade actual, todos espera-mos que estas dramáticas situações não voltem a acontecer no nosso país e na região norte, actualmente a sétima mais pobre da Europa.

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