Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O Amor... que o tempo não apagou

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Conta o Leitor

2013-09-09 às 06h00

Escritor

Félix Dias Soares

Como muitos rapazes do meu tempo, o Ultramar era o destino apontado a todos os Militares, por conseguinte não fugi à regra. Depois de ter tirado uma especialidade de condutor de veículos pesados, fui mobilizado para Angola, conhecer novas terras e outras gentes.

Entre colunas Militares e transportes de bens essenciais, havia outros trabalhos que tínhamos de efetuar: Fazer a protecção à (J.A.E.A.) Junta Autónoma de Estradas de Angola. Certo dia partia com uma Companhia de Comandos Catangueses, oriundos da região da Catanga no Congo, que estavam ao nosso serviço como Mercenários, a língua deles era o Francês, o que para mim, não era difícil comunicar com eles, visto eu já ter estado em França antes do serviço Militar. Assim, parti por um mês, levando comigo os géneros alimentares indispensáveis para as minhas refeições, as quais entreguei ao cozinheiro dos trabalhadores da J.A.E.A. para que cozinhasse também para mim. Os Militares Catangueses levavam peixe seco e mandioca para o mês, sendo eu o único branco, entre os Militares.

Depois de instalados no acampamento e os Militares distribuídos ao longo da obra, de dedo no gatilho, era tempo de fazer conhecimento com os trabalhadores, a maior parte eram Cabo -Verdianos e o resto eram Angolanos, também dos trabalhadores, o único branco era o encarregado, ou capataz como lhe chamavam.

Na manhã seguinte, ainda os raios dourados do nascer do sol não tinham perfurado a folhagem da mata serrada, e já se ouviam os motores das máquinas e dos camiões. Nesse momento, já eu estava pronto para bater a picada, e deixar Militares dois a dois ao longo dos trabalhos, os quais tinha de render todas as duas horas. Ao fim do dia todos os camiões e máquinas voltavam ao acampamento, seguindo-se um silêncio absoluto. Apenas se ouvia as aves da noite e o rugir dos animais selvagens, que se aproximavam perigosamente do acampamento.

As sentinelas eram os nossos anjos de guarda, neles confiávamos as nossas vidas, fazendo-lhe inteira confiança. Na escuridão da noite, apenas se via uma luz, era na tenda do capataz, o senhor Moura, homem robusto com o rosto vincado por algumas rugas, marcado pelo clima agreste próprio dos climas de África.

Era uma vida de solitário, que só alguém com muita coragem conseguia resistir a uma situação de tão grande solidão. Um dia, depois de todos terem comido e a noite começar a cair, fui para a minha tenda, depois da escuridão da noite se ter apoderado do acampamento há muitas horas, eu continuava a ver aquela luz de carboneto acesa na tenda do senhor Moura, a curiosidade tomou conta de mim, e quase inconscientemente aproximei-me da tenda perguntando, se ainda estava acordado!.. Ele perguntou se era o condutor, era assim que me tratava, respondi que sim e ele mandou-me entrar. Timidamente entrei e vi o brilho dos seus olhos pretos, e um sorriso como há muito não tinha visto, num rosto desgastado pelo trabalho e sofrimento.

O homem que fazia estradas e movia montanhas, que dava ordens a todos, estava ali isolado numa modesta tenda, sentado numa caixa de madeira com uma carta sobre os joelhos, ao lado, estava o col-chão no chão e o seu mosqueteiro, pendurada por um arame estava a luz, que nos iluminava os rostos no crepúsculo de uma existência quase perdida, em terras do fim do mundo. Eu fiquei calado ao ver aquele cenário de pobreza, ele quebrou o silêncio, perguntando a que se devia a minha visita! Eu fiquei muito transtornado, pedi desculpa e fiz um gesto para sair, ele levantou-se e disse-me para ficar, mas a sua voz, já não era daquele homem forte de carácter rude a que eu estava habituado, a sua voz era trémula, eu senti que o homem tinha alguma coisa na alma que o magoava.

Naquele olhar vazio, não era difícil adivinhar as saudades das primaveras distantes e de muitas ilusões perdidas. Então o senhor Moura abriu o seu coração dizendo, há mais de vinte anos que não vejo a minha terra transmontana, comentando! Tenho saudades do cheiro daqueles campos!.. Eu fiquei surpreendido e perguntei, porquê tantos anos sem voltar à sua terra? Ele olhou para mim e perguntou, se eu sabia guardar um segredo, eu respondi que sim, então ele continuou, dizendo: esta carta é da minha namorada, que deixei há mais de vinte anos quando vim para Angola como Militar, nunca mais a voltei a ver, nem a ela, nem a minha terra.

Eu disse que devia haver uma razão muito forte, para acontecer tal corte com a terra e a família, ele deitou os olhos ao chão embaraçado, respondendo: A minha namorada tinha uma situação social diferente da minha e o nosso namoro nunca foi aceite pelos seus pais, a minha vinda para Angola era uma oportunidade.

Depois do serviço Militar fiquei em Angola, a prioridade era juntar dinheiro para comprar algumas terras, mas os anos tem passado depressa, e nós continuamos a nos escrever ao longo de todos estes anos. Nunca tivemos a coragem de fugir, nem de desobedecer aos seus pais, mas amo-a como no primeiro dia. Com os olhos banhados em lágrimas, olhou para mim como uma criança indefesa, lembrando-me que lhe tinha prometido segredo, eu fiz um sinal afirmativo com a cabeça, porque não tinha palavras que me saíssem da boca.

Disse-me que pensava voltar à sua terra no ano seguinte, cumprir a promessa que há tantos anos tinha feito, àquela moça bonita, que um dia deixara, na sua terra transmontana. Mas com o vinte e cinco de Abril, todos os planos teriam sido alterados e o senhor Moura teria vindo antes do previsto. Espero porém, que tenha concretizado o seu sonho, que a sua coragem e espírito de sacrifício, lhe aporte a felicidade que sempre sonhou, junto da mulher que sempre amou…

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