Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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O amor nos tempos da cibernética

Regionalização e representação territorial

Conta o Leitor

2019-08-24 às 06h00

Escritor Escritor

Minervino Wanderley

Jorge Amado e Zélia Gattai. Dorival Caymmi e Stella Maris. E, para quem tem por volta de 50 anos, os pais que ainda estão juntos. Estes são exemplos daqueles que levaram a sério o que o padre falou: “Até que a morte os separe”. Era um compromisso. Hoje, não existe mais o “amor eterno” nem o perfume inesquecível que ele ou ela usava. O banco da pracinha foi-se com o tempo. As cumplicidades levavam uma vida inteira. Assim era o amor. Ou, para ser mais sincero, assim é o amor.
A forma de amar mudou. Os corações de agora se enchem e se esvaziam numa velocidade estonteante. O que era um namoro sério, hoje virou uma mera “ficada”. Um beijo, ah! Um beijo era a demonstração do amor, como se as duas bocas selassem um eterno acordo de vida comum. Nos dias atuais, beijar passou a ser um verbo sem muita importância. Todo mundo beija todo mundo e ponto final. As antigas mãos geladas e trêmulas do primeiro encontro se transformaram em corajosas “mãos bobas”. Perderam a emoção. Banalizaram-se. Pobre juventude!
Tudo na vida existe um porquê, como diz a vovó do rock ‘n’ roll, Rita Lee. A frieza de hoje pode ser debitada à velocidade com que as coisas acontecem. O telefone, por exemplo, era um meio de comunicação eficiente. Não existia o aparelho móvel, mas todo mundo se encontrava. No local e hora certos. Os namorados marcavam seus encontros sem problemas. Com a chegada do celular, vieram os desencontros: “Desculpe, mas estava fora da área”, ou “A bateria descarregou”, e por aí vai. As conversas deixaram de ser olho no olho e passaram a existir via Whatsapp, e-mails,MSN ou outro programa qualquer. O beijo, mesmo o amigo, é dado por uma caricatura virtual. Fria e gélida como uma replicante de ‘Blade Runner’.
Ora, se McLuhan achava que com o avanço tecnológico o mundo se transformaria numa “aldeia global”, o que vemos é um distanciamento pessoal cada vez maior. É fato que a internet diminuiu distâncias, agilizou serviços outrora terrivelmente burocráticos e lentos e nos apresentou a um novo mundo. Mas até que ponto isso é benéfico? Cadê o calor humano, a proximidade, a visão do sorriso ou de um pranto? São coisas que só “ao vivo” podem dar sua exata dimensão. O que aqui coloco aqui pode ser visto no encontro de dois amigos, que se comunicam diariamente via fios e fibras óticas, mas não se veem e, quando se encontram, a expressão é a mesma: “Porra, há quanto tempo!”. Ou seja, a simples troca de mensagens não supriu a necessidade da presença física, do contato.
Para termos a ideia de como desvalorizamos essa proximidade, é possível que 22/02/2020 cada um de nós conheça alguém que ouviu falar de uma mulher ou um homem que tenha partido para outros lugares para se casar com “uma pessoa que conheci na internet”. Bacana, né? Quer dizer que essas pessoas sentem aquele friozinho na barriga quando ligam o computador? Tomam banhos demorados, se perfumam e se vestem com a melhor roupa para sentarem-se diante de um monitor e pensam: “Estou tão nervosa. Vou falar com meu namorado?" Fala sério!
O bom é ali, ó! Olhando nos olhinhos, cheirando os cabelos lavados para você. Beijando os lábios e sentindo o gosto do batom que ela escolheu PARA VOCÊ! Isso é o que nos faz viver. Sentir a vida e gozá-la. Em qualquer sentido. O amor, amigos, é o combustível da vida. A sensação de estar amando e sendo amado é inigualável. Pouco importa se o governo autorizou aumentos nisso ou naquilo. Dane-se. Você tem o seu amor a lhe esperar. O resto é besteira.
Assim, usemos as parafernálias eletrônicas para aquilo que foram feitas. Não existe REALIDADE virtual. Ou é real ou não. Portanto, não percamos jamais nossos sentimentos mais puros. Diante de um mundo tão cheio de violência, desigualdade social, fome, corrupção, o que nos resta de valor é o amor que carregamos dentro de nós.

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