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O amolador

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O amolador

Voz aos Escritores

2024-05-10 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Ouço o som de uma gaita-de-beiços a ser assobiada. Já não a ouvia há algum tempo e inevitavelmente lembro-me sempre do meu amigo Amadeu Santos me ter dito, em tempos, ser um som que associa à fome e à miséria.
Ainda assim, ou talvez por isso, digo à minha mãe.
- Tens facas para afiar?
- Tenho. Vais lá tu?
- Vou. Dá-mas.
Entrega-me três enquanto abro a janela e faço sinal para que espere.
Comprimentos trocados, entrego-lhe as facas.
- Vem assim? Ainda assusta os vizinhos.
- Realmente… ainda os afugento, que são boa gente.
A bicicleta está equipada com guarda-chuvas velhos e uma roda que gira com a manivela dada com o braço esquerdo enquanto a mão direita encosta as facas angularmente. Não lhe vejo selim ou assento.
Não é velho, também não é novo. Com ele uma mulher jovem que carrega cinco meses de espera na barriga, sensivelmente. No olhar tem o horizonte mareado de esperança, um verde que nos atrai para mergulhos frescos.
Atrás de mim uma senhora com oito ou dez facas embrulhadas num pano. Pensou nos vizinhos e não os quis assustar.
Com o serviço feito, corta um pedaço de tecido de um guarda-chuva sem pega para mostrar que estão afiadas.
- É melhor assim, porque se fizesse na pele já não tinha dedos.
Ali, sorrisos de entendimento são esboçados por todos.
- Quanto é?
- 16,50.
- Desculpe, não percebi.
- 16,50. 5 por cada faca pequena e 6,50 pela maior.
A inflação chega a todo o lado, mas de facto não estava à espera deste valor. A senhora atrás de mim reage.
- Ui, assim mais vale comprar facas novas.
- Ora deixe ver o que tem aí.
Ela abre o pano e revela algumas facas normais e duas de corte irregular.
- Faço-lhe a 5 cada uma e já estou a fazer o mesmo para essas que tenho de fazer pedaço a pedaço.
- Olhe, não. Faça-me só a estas duas que não tenho dinheiro para o resto.
- Sim, está bem. Mas olhe que não compra facas por menos de 5 euros. Menos ainda desta marca.
- É, eu gosto de ter boas facas.
Sorri.
Regresso a casa e relato à minha mãe o sucedido.
- Ai… tão caro.
- Pois… ganham mais do que eu à hora. Mas certamente não têm sempre trabalho. E a moça está grávida.
- Então deixa lá. Também é uma ajuda.
Deixo, deixo, até porque já estava feio o negócio, com ou sem caridade.
Entretanto saio e o dono do restaurante lá ao lado estava a conversar com o amolador.
- Tenho um amigo que tem lá muito trabalho para si. Fazia-lhe lá falta uma pessoa assim.
- Pois, mas se calhar o seu amigo não tem é salário para me pagar. E eu para andar a dar de comer aos outros, antes quero dar de comer aos meus.
Perante isto, batatas. E estas também precisam de boas facas para serem descascadas e cortadas.

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