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O amarelo diz com tudo

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

O amarelo diz com tudo

Ideias

2018-12-23 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Por agora, passou. O impacto dos amarelos de cá não atinge a escala dos compartes franceses. Registo, porém, que pronto apoucaram os nossos, muitos dos que aplaudiram a irreverência dos irredutíveis gauleses. Nem lá, nem cá, colhe o argumento da perigosidade da contestação inorgânica. Tampouco colhe a advertência de que o movimento esteja impregnado de direitismo, porque se os povos se deslumbram com o swell da direita, razões tem a esquerda flat para se envergonhar.
Não querendo ferir sensibilidades, diria, ainda assim, que para trás mija a burra, e farta do marcar passo, do não sair da cepa torta, está essa parcela de portugueses, o quinto que ressurge ciclicamente nas tabelas da pobreza endémica. Ninguém vota em Le Pen – ou em Bolsonaro, ou num VOX andaluz, que brilha para lá de qualquer nome sonante – só porque acordou de ressaca. As pessoas cansam-se, e está tudo dito.
Em França houve arruaça, escaramuças, pilhagens e mortos. Em França reivindicou-se tudo e um par de botas, incoerência que os detractores da contestação – cá e lá – usaram para descrédito do levantamento. Alcançaram o que exigiam, e umas quantas para o caminho. Quem sabe se não viremos nós a repetir o menu. Aposta-se que não, mas venha o primeiro que se atreva a negar que vivemos mal, abaixo das nossas necessidades, por antítese ao chavão do Passos Coelho.
Vivem mal, alguns, quer dizer, ou não tivéssemos ouvido que os estivadores de Setúbal iriam assinar contracto a 1400€ brutos/base. Para andar de carrinho? Quão mais relevante e exigente é o ofício dos estivadores, por comparação com os assalariados a ordenado mínimo? Acaso terão boca dobrada? Ou outro buraquito, de similar calibre?
Nada me move contra os estivadores, nem me cai no goto que me colem o epíteto de divisionista e coveiro da classe operária, mas quem defende o esquecido Zé Ninguém? E, por contraste: pois não adverte, o brilhante Vítor Bento, que cairemos em nova bancarrota, se o governo responder com sins a eito ao sortido de reivindicações? Brincadeira do Brinquete Bento, que não se atrapalha com os proventos justíssimos que empilha.
Acredito que haverá sempre calaceiros, quem ganhar queira nada fazendo. E se uns borram a pintura por banda do trabalho, dramático é que muito por aí haja quem empenhado esteja em que aufiramos uma côdea, para matar a fome, e pouco mais. Custa-me recuperar o argumento, mas se nos idos de Salazar éramos o mais atrasado dos países da Europa Ocidental, hoje somos o quê?
Talvez falte verve e carisma ao amarelo desmaiado, talvez haja matarruanos em bicos de pés, fisgados em muito berrar, para que maior acabe por ser o quinhão que lhes caiba, mas há uma urgência de vida decente que nenhum dos nossos oficiais da política se tem dado ao cuidado de beijar. Vivemos em triste balancé – os discursos da oposição são sempre grandiosos, e enfezadas as práticas do governo que toma posse. Cansa!
Há uma singularidade de França que nós não partilhamos, que é a da representatividade parlamentar. É um facto que o partido da Le Pen tem mais eleitorado que bancada, e é um facto que o partido do Macron falhou a oportunidade de mostrar serviço. Os partidos portugueses são de outra consistência, mas bom é que não se percam em floreados bizantinos. Passos afastou a Ferreira Leite, sugerindo que bastaria cortar nas gorduras, e veio-nos à chicha com faca de desossar. Costa virou a página da austeridade na corrente de ar de vaca-gaivota. E assim planamos, com propagandistas de feira: mais uma, para aquela senhora ver.

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