Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O alcoólico

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2015-07-07 às 06h00

Escritor

R. M. Cruz

Eu já fui um homem honrado e respeitado, sabiam?
Que foi? Nem me conhecem… eu conheço bem esses olhares de escárnio, por trás escondem o dedo apontado a mim, dentro dessas cabeças está já uma opinião formada a meu respeito, e o único adjetivo que sai do silêncio dessas bocas de escárnio, que os olhos denunciam, é alcoólico, borrachão, bêbado!
Sim sou alcoólico, mas antes de o ser, não o era….

Não me vou justificar… nem sequer me desculpar, nem vos conheço, não vos devo satisfações, além do mais como diz um ditado velhinho e muito popular “quem quer justificações dá-se-lhe cagalhões” áháháh mas como na minha vida já não tenho nada para dar nem nada a perder … nem tempo… porque tempo para mim é o que não me falta… aliás, nem sei se vocês são verdadeiros, ou fruto do meu estado… sejam lá o que forem para mim são muitos dedos apontados, muitos olhares de nojo, muitas mentes juízas… é como se eu estivesse no tribunal da consciência humana… sim porque a consciência animal, nunca me julgaria…vêem-me derrubado por este único amigo, ou inimigo, nem sei bem, beijo-o a toda a hora acaricio-o como se fosse a mais bela mulher.

Mas dizia eu… que os cães são os únicos que me lambem as feridas, e estão ali, até que eu me levante. Tudo o resto passa ao largo, como se eu fosse leproso… já estou habituado, a gente habitua-se a tudo.
Tudo o que fazemos, bom ou mau, é da nossa inteira responsabilidade, portanto as consequências também!
A minha história não vos interessa, porque a única coisa que vocês veem é o que vos salta aos olhos, este ser desgraçado, asqueroso e bêbado.
Mas a mim tanto me faz que queiram saber ou não… nada me incomoda, acreditem!

Comecei por diversão numa festa de amigos, vamos bebe… Não bebo álcool, dizia eu, convicto das minhas palavras… Mas na brincadeira com os amigos, bebi, um, dois, três… e pronto diverti-me a noite inteira. Garanto-vos que foi a noite mais divertida da minha vida, eu estava em êxtase, cantei dancei, e até fiz algumas palhaçadas, os amigos aplaudiram e eu gostei… este foi o meu glorioso começo.

Podia parar aqui (dizem vocês, e dizem muito bem!) mas não parei, cada vez que saia com os amigos, lá ia eu para o meu estado de êxtase, como eu gostava de mergulhar no paraíso, acreditem, melhor que um orgasmo é… (melancólico) momentos efémeros, uma armadilha, enquanto não me apanhou na ratoeira, não descansou…. traidor!!! É o que és, um traidor!!!
Foi assim apanhado, como uma mulher numa fatídica noite, uma queca lhe custa uma gravidez indesejada, e eu? eu fiquei mais que grávido, ele vive em mim, para sempre, corre-me nas veias… sou a sua morada, o seu ninho… ele (olhando para a garrafa) faz de mim o que quer… roubou-me tudo! Mulher, filhos, amigos, sim os mesmos amigos que me levaram a ele, chego a pensar que eram cúmplices… eu tinha uma família, uma vida, hoje nem vida tenho, apenas uma existência inexistente…

Até as lembranças ele me roubou, quantas vezes quero lembrar-me do cheiro da mulher que um dia foi minha, mas não consigo, todo eu cheiro a álcool… queria tanto recordar-me das noites infindáveis em que eu a tinha nos meus braços, e o seu cabelo enrolava-se nos meus dedos, como fios de amor, e a sua pele era como um pedaço de seda fina, onde eu deslizava a minha vontade de a amar de a possuir de me fundir com ela, e sermos apenas um. Maldito álcool, é ele agora o meu parceiro sexual, funde-se em mim e somos um só… é ele o detentor de todas as minhas memórias.

As minhas noites são tenebrosas, todos os fantasmas rondam a minha mente, erguem-se como monstros, engolem-me e chupam-me até cuspirem apenas a minha inexistência e eu nada faço contra isso e deixo-me ir… já não sou nada, já não sou ninguém… e eu que fui tudo.
Às vezes, tento fazer-lhe frente, e vou, olho para ele, a minha mente diz:
Não! Mas quando me apercebo já a minha mão o levou à boca , o primeiro gole, é o que ele quer, depois invade-me as entranhas, corre desesperadamente ao meu cérebro e desarma-o… deixando-me à mercê dele… faz de mim o que bem quer, devora-me a carne como uma fera esfomeada, estupra-me os sentidos, esvazia a minha mente, e abre a porta a todos os vagabundos que queiram lá entrar, e fazem festa, até que eu caia exausto na minha triste condição sub-humana.
Resta-me apenas o cão, que tem mais dignidade do que eu, abraço-o pois é o único calor que sinto.

Ele é o único que consegue estar a meu lado, porque ele sabe, que as feridas nunca se curam, mas uma lambida dele atenua a minha dor… nem a maldita morte tem dó de mim, preferia mil vezes a morte do que este meu viver acorrentado.

É antes de ser não era, agora sou, alcoólico! Podem ir-se embora, não tenham pena de mim, tenham de vós, que pensam que só os fracos são apanhados, enganam-se, julgam que são fortes, mas esquecem-se que este maldito vicio não nos pega pela força… ele é argiloso… maquiavélico. Quando te quer apanhar veste-se como uma donzela em dia de festa, declama-te o mais belo poema de amor e quando deres por isso, já foste encantado, com o mais belo canto da sereia… assim é ele… demoníaco!

Eu já fui apanhado, vocês estão na lista… vão-se embora seus idiotas, nem sei se são verdadeiros ou falsos, falsos como este meu fingimento de existência… deixem-me sozinho sem mim, apenas com ele.

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