Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O afilhado

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2013-07-20 às 06h00

Escritor

Luís Veloso Ferreira

Gostava de se sentar, nas longas tardes de Verão, num dos frades meio estroncados, que ficavam à desbanda das portas fronhas do seu velho solar armoriado; dali, entretinha-se a ver o caseiro no terreiro, que ficava defronte, aprontando-se para as lides do dia-a-dia da quinta.
Mas o que mais gostava de ver era a Quica, com os seus dezassete anos, quando ajudava o pai, o Clementino, a aparelhar o carro de bois: postas as monelhas e a soga nos chifres em lira do “Amarelo” e do “Vermelho”, dois bois barrosões de respeito, ele apunha-lhes o jugo, onde ela metia os arcos, que prendia com as varelas. Depois, era só chegar os bois ao carro, prendê-lo com a chavelha à canga, e ala que se faz tarde!

Quando o carro lento passou, para melhor ver a Quica, e admirar os seus túrgidos seios, que despontavam como duas maçãs camoesas, chamou o pai, engrolando à pressa um recado:
- Clementino! Oh Clementino!
- Sim, que me quer o Fidalgo?
- É que me lembrou, agora mesmo, que a minha égua castanha está a desferrar-se das mãos, e, depois de amanhã, tenho de ir a Caires, tratar de um assunto urgente que me preocupa. Vais ao ferrador amanhã, sem falta, e para o sossegar: - Não demores, que ida e volta é obra de três léguas de caminho, senão perdes toda a manhã, e não convém que chegues tarde por causa da rapariga.

O pai da Quica pressentira qualquer coisa de invisível nos olhos do Fidalgo e nos sorrisos da filha, mas desiguais na idade, entendeu que a moça não se penteava para ele, se bem que solteiro e na maior força do homem.
Ainda assim, astuto, manhoso, procurou adiar a prebenda para dia em que tivesse mais alguém por casa. É que, desde que enviuvara, dera-lhe para zelar a filha, como não zelara a mulher, uma douda!
- Amanhã não me calhava, Fidalgo, que tenho talhado tirar, com sua licença, o esterco da corte para lavrar o Tapadinho.
- Não te disse já que além de amanhã tenho de trotar para Caires, por assunto urgente? Tiras o estrume noutro dia, que não é isso que te atrasa as lavouras. Está combinado, percebes?
Foi para a cama logo após a ceia com a filha, mas mal dormiu, para se levantar ao pintar da aurora, dando feito ao seu plano: sairia de madrugada para o ferrador do Bobeiro que, pelas suas contas, dava tempo de sobra para entrar em casa com a égua ferrada antes que o Fidalgo se erguesse da cama, que esse era o seu cuidado.

Da sua casa ao ferrador era cerca de uma légua e meia de caminho por entre bouças e várzeas entrecorridas de ribeiras e regatos, cômoros floridos, quintas e quinchosos, mas o Clementino ia alheio à beleza da paisagem e do vale, que se lhe ia desvendando à medida que o sol despontava, tal era a urgência de se ver em casa.
- Senhor António! Senhor António, batendo forte na porta do ferrador.
-Que pressa é essa, Clementino, que me tiras da cama?
- É para ferrar a égua, que o patrão tem uma saída ainda hoje, disse mentindo, para apressar o ferrador, que, ao lusco-fusco da madrugada, ferrou o animal à pressa, sem o Clementino dar azo a que visse se os cravos ficavam bem rebatidos.
- Quanto é, senhor António?
- Homem, o costume.

Pagou e abalou a galope com destino à vila, na ânsia de passar ao Posto da Guarda antes dele abrir porque, na sua ignorância, imaginava que tinha de ter carta de condução de cavalo, e ele, pobre analfabeto, como haveria de a ter?
Chegado ao centro da vila, o insólito aconteceu: a égua, de repente, sem causa aparente, empancou no meio da estrada, nem para trás nem para a frente, como que empalhada.
Lavradores que iam para a feira semanal davam os seus palpites:
- Foi ataque que lhe deu, dizia um.
- Não que ela bole as orelhas e o rabo, e até enxota as moscas com as patas traseiras, dizia outro.

O Silva Marchante, negociante de cavalos, desvendou o enigma, até aí indecifrável para aqueles pobres pacóvios: - O ferrador aprumou os cravos em demasia e não os rebateu para fora dos cascos, e é isso que lhe dói.
- E agora? Disse o Clementino, ansioso.
- Meu velho, procura na feira caseiros do Fidalgo e levais o animal em charola, um às mãos, outros às patas. À tardinha estais em casa.
Encontrou na feira do gado o Zé do Aires, o Adelino e o Zé Maria de São Vicente, todos caseiros da Casa, pagou-lhes na venda do Antero uma malga de carrascão e uma bucha de pão com queijo e marmelada, e lá marcharam os quatro: o Clementino agachado entre as mãos do animal e dois às pernas.

O Zé Maria revezava o Clementino, que suava por todos os poros e praguejava de estrompado.
A cada tentativa não avançavam mais que uns metros. Os caseiros ainda alvitraram que se atirasse a burra por um valado abaixo, e o Clementino que dissesse ao amo que ela metera o freio nos dentes.
Mas ele não acedeu: - Eu a trouxe de casa e em casa há-de morrer.

Já passava das cinco da tarde quando a Quica ouviu um bruaá para os lados do estancarios e do distante portão da quinta. Saltou à pressa da cama do Fidalgo e, espantada, viu ao longe uma cavalgadura carregada por homens!
Novo ano passou. O Clementino saía ao terreiro com uma criança ao colo e o Fidalgo, do frade estroncado em que habitualmente se sentava - Chega cá o pequerrucho do teu neto, meu afilhado e herdeiro.

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.