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O 5 de Junho: and the winner is…

A saia comprida

Ideias

2011-06-09 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

No dia 5 Portugal entrou na tendência europeia que tem sido o da vitória dos partidos de direita e de centro direita. Esta tendência resulta quer do desgaste óbvio dos governos socialistas apanhados pela enxurrada da crise económica, quer da tendência do eleitor para considerar que à direita há maior competência governativa para gerir crises económicas. Pois… A verdade é que restam apenas 5 países na União a 27, com governos à esquerda: Espanha, Grécia, Áustria, Eslovénia e Chipre.

Quanto aos vencedores e vencidos das eleições, exceptuando o caso do País cuja condição ainda estará por adjectivar em função dos próximos meses de governação, deixo aqui algumas notas.
Começo pelo PCP, o eterno vencedor de todas as eleições, pelo menos na perspectiva do mesmo, mas que tem desta vez razões para sentir-se genuinamente satisfeito e que por isso merece que dele se fale! Com mais um deputado, por Faro (onde já não elegia ninguém há duas décadas), o PCP foi o único partido que não envergonhou a Esquerda, desde logo, a sua Esquerda fiel. Fidelidade do eleitor - eis a chave para perceber em parte a pesada derrota do BE.

O eleitor do BE é muito diferente: menos fiel e simultaneamente mais exigente e racional. O eleitor do PCP não só tende a um voto emocional que expressa a sua solidariedade quase familiar à mensagem do Partido, como não está habituado a que o PCP se apresente como alternativa de Governo. Logo, quando o PCP decide opor-se liminarmente contra a Troika e o seu memorando, o seu eleitor não só compreende como aceita o resultado político que significa ficar fora da Troika: não formar Governo. Já o eleitor do BE tende a ser muito mais ambicioso, porque o próprio BE assim o habituou a partir do momento em que se assumiu como terceira força política, logo como Esquerda capaz de formar Governo. Isto determinou as expectativas que o eleitor simpatizante do BE foi formando em relação à sua performance política.

Assim, no caso concreto da Troika, o potencial eleitor não estaria à espera que o BE dissesse amén com o memorando, mas estaria sim à espera que o BE se comportasse como um partido que se assume como capaz de governar. Ora quem se reuniu com a Troika foi precisamente quem se viu com essa capacidade. Um partido como o Bloco que chegou a terceira força política mais votada, e que se apresentou como alternativa de poder, teria pois a obrigação de pelo menos usar a linguagem própria dos que se vêem como alternativa.

O PCP não tem esse ónus e por isso pode sentir-se perfeitamente confortável com a posição que assumiu. Além disso, o eleitor do BE tende a ser muito mais racional e (por isso) volátil. Quer isto dizer que na verdade não é um eleitor do BE mas um simpatizante das forças mais à Esquerda e que poderá refugiar-se na abstenção (mais rapidamente até do que no voto no PC que representa uma outra leitura de Esquerda), ou, pasme-se, em votos temporariamente mais à Direita, em virtude do que julgar ser mais útil para o futuro da governação do País.
Entre os vencedores conta-se também o CDS-PP, ainda que num primeiro impacto se tenha sentido quase cego de decepção.

É que as expectativas eram elevadíssimas, e compreende-se. Por um lado, as conjunturas de crise favorecem os comportamentos mais conservadores das famílias; por outro lado, havia algum eleitorado volátil que votou PP sendo simpatizante do PSD ou até do PS, mas que não queria nem um Governo liderado por Sócrates, nem Passos Coelho a liderar sozinho. Em simultâneo, o próprio partido esteve muito bem ao longo de toda a campanha, com Portas sempre muito cordato, em pose de maior maturidade política, aberto ao diálogo, etc.

Mas o CDS-PP por alguns dias pareceu esquecer-se de uma coisa muito importante: é que custa muito votar tão à direita quando não se está acostumado a fazê-lo. O PP tem um eleitorado mais ou menos estabilizado: já não é o partido do táxi, mas também não consegue, nem conseguirá crescer muito mais. E terá aliás de voltar a pensar as suas estratégias daqui a 4 anos (ou bem menos…) porque este eleitorado volátil que agora o terá bafejado pode novamente reconsiderar votar PSD ou PS ou até mesmo BE.

Um grande crescimento do PP significaria que estaríamos a falar ou de uma grande mudança de posição ideológica do partido ou de uma grande mudança do eleitorado português em matéria de valores. A economia e o que a ela se associa (o desemprego, o fim do Estado Social) é muito importante, sem dúvida, mas não é o único determinante do voto. A maioria de quem tende a votar mais a um centro-esquerda não se consegue virar do avesso a ponto de votar num partido tão à direita!

Já quanto ao PSD, saiu vitorioso, é certo, mas não diria que teve uma vitória assim tão estrondosa. Se assim fosse não precisaria de coligar-se. A vitória só parece ser estrondosa, porque as pessoas andaram meio atordoadas durante a campanha com sondagens diárias indicando empates técnicos com o PS, e por isso no dia da vindima, a diferença pareceu abismal. Mas não o é. Quando olhamos para 2009, vemos uma espécie de troca por troca, ou seja, ao penalizar um (o PSD em 2009 e o PS em 2011) e ao dar vitória a outro, a diferença situou-se em valores muito idênticos: PSD 38,63 contra 29% em 2009 e PS 28,05% contra 36,5% em 2009.

Entre os vencidos, conto naturalmente o PS, mas também o Presidente da República. Sobre o Partido Socialista, que fará a eleição directa do seu novo líder no próximo mês de Julho, falarei em outra ocasião que hoje não há espaço nem tempo. Quanto a Cavaco Silva, vejo-o como um vencido pós-eleições, mas tal nada tem que ver com a ineficiência do seu apelo ao voto (pois como terei ocasião de escrever, há razões que podem explicar porque os 41% de abstenção não são afinal tão dramáticos).

As duas razões pelas quais o vejo como um vencido são as seguintes. A afirmação da ilegitimidade da abstenção é um argumento de carácter moral e não de carácter legal, e por isso sujeita desde logo ao fracasso, porque fica na directa dependência da credibilidade moral que se atribui a quem profere a afirmação. Ora essa credibilidade tende a ser afectada quando, entre outras razões, se faz acompanhar de uma atitude paternalista, vinda de alguém que está longe de ser consensual entre os Portugueses, ou não tivesse ele sido eleito com 53% de abstenções! É mais do que sabido que os reforços negativos resultam pior que os estímulos positivos, pelo que os primeiros são quase sempre anti-pedagógicos e contra-producentes.

A segunda razão prende-se com a pressa na formação do novo Governo. Ora, a Constituição não é uma espécie de Regras da Casa da Árvore que os miúdos cumprem quando lhes dá jeito. Se havia tanta pressa em formar governo (o que já era sabido) então que não tivesse cedido ao apelo dos partidos para marcar eleições o mais tarde possível, quando inicialmente tinha ponderado a data de 29 de Maio.

Faça lá os contactos e agilizações que quiser, a verdade é que só depois de decretados os resultados globais das eleições (com os votos dos emigrantes já contados, pois se era para os ignorar então mais valia ao PSD e CDS-PP não se terem batido tanto no Parlamento pelos direitos políticos da Diáspora), a Assembleia iniciará a sua nova legislatura e só depois desse início poderá o Presidente formalmente entrar em campo ouvindo os partidos com assenti parlamentar. A ronda pelos partidos até pode durar a hora de almoço, mas tem de ser feita, mesmo que há hora do jantar o novo PM já esteja indigitado. Lei é Lei.

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