Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O 25 de Abril: um hino à Cidadania

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Escreve quem sabe

2013-04-26 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

O Escutismo assume-se como um Movimento de Cidadania, por isso, no livro fundador: “Escutismo para Rapazes” Baden-Powell deu-lhe o subtítulo de “Manual de Educação Cívica pela Vida ao Ar Livre”.

Temos para nós, Corpo Nacional de Escutas, que o 25 de Abril é um hino à cidadania, porque ele permitiu, a todos nós e a cada um de nós, aprender a ser cidadão de “corpo e alma”, a viver de acordo com este conceito e a enriquecer quotidianamente esta forma de ser, de estar e até de ter. É uma vivência de participação na construção do bem comum, de forma crescente e permanente, e uma afirmação do seu próprio ser individual.

É verdade que o escutismo católico foi conquistando o direito à existência, sobrevivendo aos ataques ferozes sofridos durante a Primeira República, tendo mesmo, o Ministro Sá Cardoso, em 12 de junho de 1924, revogado os documentos que lha davam existência legal, e ao resistir ao canto de sereia do Ministro da Educação Nacional1, Carneiro Pacheco que pedira ao Cardeal Patriarca a extinção do CNE, sendo a resposta2 enérgica e direta: «enquanto a Mocidade Portuguesa não desse aos seus filiados uma formação católica, o CNE não seria dissolvido», mas também política e irónica: «Já uma vez disse a V. Exª. que me interessavam menos os “escuteiros católicos” do que o princípio da liberdade de associação. Se o Estado Novo não é totalitário neste departamento da educação nacional, deve-se, em grande parte, à possibilidade de existência de associações particulares que não contrariam o bem público. A existência dos escuteiros parece-me a mim que ainda interessa mais ao Estado do que à Igreja. É uma demonstração de que o Estado Português reconhece a justa liberdade individual.»

A determinação para manter vivo este sonho foi enorme, de tal forma que a ameaça deste mesmo ministro: «hei de dar tanta força à Mocidade que o escutismo há de morrer por asfixia»3, não conseguiu os seus propósitos, pois todos sabemos que foi a Mocidade Portuguesa que morreu, não por ser asfixiada, mas por não poder (nem saber) respirar em liberdade e em democracia, onde só os movimentos de cidadania se afirmaram e se desenvolveram.
Foi graças à “Revolução dos Cravos” que tivemos a oportunidade de alargar o conceito de educação para a cidadania, tendo a pedagogia da participação, aliada aos valores da Justiça e da Paz, contribuído para uma afirmação crescente, moderna e livre desta cidadania que todos buscávamos.

Estes trinta e nove anos foram tempos de descoberta e crescimento individual e coletivo, onde naturalmente os erros foram surgindo, aqui e ali, mas felizmente que o saldo se foi mantendo fortemente positivo. Aos que permitiram este salto quantitativo e qualitativo na nossa vivência democrática devemos-lhes uma gratidão infindável, mas também o respeitos por podermos ser nós próprios: livres, responsáveis e detentores das nossas próprias opções.

Aos Capitães e ao Povo de Abril a melhor homenagem de gratidão que lhes podemos prestar é «Viver Abril». Mas, sobre as gerações que tiveram a felicidade de viver estes tempos, paira a responsabilidade de, pelas suas vivências quotidianas de «participação na construção da cidade», dar testemunho aos mais novos da importância que teve nas suas vidas este hino à cidadania que foi, que é e que será sempre “O 25 de Abril”.

1 Sobre este tema, ver o artigo de Simon Kuin, A Mocidade Portuguesa nos anos 30: ante-projectos e instauração de uma organização paramilitar da juventude, Análise Social, Vol. XXVIII (3.º), 1993 (n.º 122), pp. 555-588.
2 Carta do cardeal-patriarca ao ministro da Educação Nacional, s. d. (provavelmente do verão de 1938), reprod. in José Geraldes Freire, Resistência Católica do Salazarismo-Marcelismo. Porto, 1976, pp. 209-213.
3 Reis, João Vasco, Corpo Nacional de Escutas, Uma Histó-ria de Factos (Subsídios), CNE, Lisboa, 2007, p: 207.

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