Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O 25 de Abril é o direito a um país limpo!

Vale a pena a vacinação contra o HPV no sexo masculino?

Ideias

2018-04-22 às 06h00

Artur Coimbra

Aí está a auspiciosa efeméride que anualmente se repete: mais uma comemoração do dia inicial, inteiro e limpo, de que falava a poetisa Sophia. Passaram já 44 anos desde a madrugada libertadora dos capitães de Abril, que devolveu a cidadania, a soberania, a liberdade e a democracia a este país, depois de uma férrea ditadura de quase meio século.
Cada ano que passa é mais um motivo de reflexão para os mais velhos, os que sofreram os horrores do fascismo, e não esquecem o que era uma sociedade que fazia gala da pobreza e da opressão colectiva, ou para os que de alguma forma festejaram alegremente essa data redentora. É também um motivo de aprendizagem para os mais jovens, os filhos de Abril, que sabem o que foi a tirania do Estado Novo, por ouvirem falar ou por lerem, em alguns casos sem a verdade a que têm direito, e tanta ignorância, necedade e aldrabice circulam por aí, sobretudo nas redes sociais, cuja credibilidade deixa muito a desejar, para não afirmarmos que está genericamente abaixo de zero.
O 25 de Abril enumera, em cada ano que passa, os grandes desígnios que estiveram bem cravados no programa do Movimento das Forças Armadas, que foi o início da nova ordem política e social: a Democratização, a Descolonização, o Desenvolvimento.

A Descolonização foi cumprida nos anos imediatos a 1974, com a proclamação da independência das colónias de Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde.
A Democratização foi um processo que se foi aperfeiçoando com o tempo e com a adopção de medidas legais e de comportamentos sociais nesse sentido. A Constituição de 1976 foi e é o marco basilar e estruturante da nova ordem democrática das últimas quatro décadas. As sucessivas eleições conferem a necessária legitimidade ao exercício do poder político, o que claramente não acontecia até 1974, com arremedos e fraudes eleitorais.
A promessa dos capitães que se vai cumprindo no dia-a-dia é o Desenvolvimento, um devir que nunca estará completamente realizado, pois a uma necessidade básica se seguirá inevitavelmente uma de segunda ordem e assim sucessivamente, em função da evolução social e colectiva.
Para além do triunfo da Democracia, em que os portugueses readquiram a prática da cidadania e do governo pelo e para o povo, através do exercício legítimo e regular do voto, que se foi cumprindo nos últimos quarenta anos para os diversos órgãos de soberania, nacionais e locais, o 25 de Abril foi também a promessa de um país novo, diferente, baseado na lisura de procedimentos, na honradez, na integridade, na honestidade, na limpeza moral, na incorrupti- bilidade, na governança virada para o interesse exclusivo das populações.

44 anos depois da madrugada libertadora de 25 de Abril, pode concluir-se, infelizmente, que a Democracia é também um acontecer, um exercício por cumprir-se. Não por culpa do seu conceito, da sua ontologia, mas de quem a exerce em cada momento, através do sufrágio universal.
E por esta altura, bem podemos concluir que as entorses à Democracia são mais que muitas e o fantástico ideal está longe de se realizar, apesar de todas as nossas angelicais utopias.
Quando concluímos que Portugal continua a ser o país dos favorecimentos, do compadrio, do nepotismo, da corrupção, que é o cancro da democracia, algo não bate certo.
Quando um ex-primeiro-ministro é acusado de graves crimes de corrupção, branqueamento de capitais e tráfico de influências, no exercício das suas funções, ou decorrentes delas, algo está absolutamente errado nesta tragicomédia.

Quando um ex-ministro, como Manuel Pinho, é acusado de ter recebido um milhão de euros no exercício das suas funções, pagos pelo Banco Espírito Santo, accionista da EDP, em favor da qual terá tomado medidas benéficas. Ainda por cima, através de transferências mensais para uma conta offshore, sem pagamento de impostos, o que se é condenável para um qualquer cidadão, mais indesculpável se torna quando falamos de um membro do governo deste país. Como revela a imprensa por estes dias, para percebermos a gravidade da situação, é a primeira vez que na democracia portuguesa existem fortes indícios de que um ministro continuou a ser pago pelo seu ex-empregador, que por acaso era o banqueiro mais influente do país, Ricardo Salgado.
Salgado que está envolvido em vários casos que enlameiam a Democracia, pelas suas ligações coniventes e corruptas ao poder político. Uma execrável promiscuidade entre políticos e pretensos donos disto tudo, devidamente comendados pela República, como Granadeiro e Bava.

Casos de corrupção, de desvio de dinheiros, de burlas, que acabaram com bancos e empresas e que obrigaram miseravelmente todos os portugueses a pagarem a factura dos desvarios, da cupidez e da ganância de uns poucos, a quem o país nada deve, bem pelo contrário. Essa gente é que deve as desculpas a um país que estaria bem mais rico e próspero se não fossem os sucessivos buracos financeiros que o chico-espertismo burlão vai abrindo nas contas de todos.
Quando deputados das ilhas na Assembleia da República aproveitam para receber duplamente o que nem seria legítimo que recebessem em singelo, algo não bate certo, porque ainda por cima se assumem cheios de razão, num conflito entre a legalidade e a moralidade.

O deputado Carlos César vem declarar que tem "a certeza de que o procedimento que temos adoptado, é o procedimento legal e eticamente irrepreensível" e Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, cobrindo o camarada César, considera que não foram infringidas leis ou princípios éticos.
Pode o procedimento ser legal, porque a Assembleia da República é que faz as leis e protege os seus deputados, que são quem faz as leis (para si mesmos, obviamente...).
Agora não podem é deitar areia para os olhos dos cidadãos, considerando que o procedimento é irrepreensível eticamente. É, isso sim, uma imoralidade e uma tremenda falta de vergonha receber duas vezes o que o Estado já paga em demasia por uma vez.

Qual é a profissão em que, além do ordenado mensal, e não se discute se é alto ou baixo, ainda alguém tem direito a receber 500 euros semanais para deslocação à terra de onde veio, e muitas vezes já com habitação própria ou alugada em Lisboa? Um aproveitamento de recursos públicos a todos os títulos lastimável
À mulher de César não basta ser séria, é preciso parecê-lo.
É por isso que os políticos são as pessoas em quem os cidadãos menos confiam, e têm razões para isso!!!!
É claro que estas torções à Democracia, não são a Democracia, mas acabam por enodoar o espírito do 25 de Abril. E o 25 de Abril postula necessariamente a prevalência da ética na política, como prática e não mero exercício de retórica!
O 25 de Abril é também o direito a um país limpo! Politica e moralmente!

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