Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

O 15 de Setembro e a revolta da 'Maria Bernarda'

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2010-09-13 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Todos sabemos que o aumento de impostos provoca, quase sempre, manifestações de desagrado por parte da população. Ao longo das últimas décadas, foram várias as manifestações que ocorreram no nosso país, tendo como centro, algumas delas, a região do Minho.

Uma dessas manifestações ocorreu há 148 anos em Braga (15 de Setembro de 1862) e ficou conhecida como a revolta da “Maria Bernarda”.

Creio ser oportuno recordar que, no início de Novembro de 1861, ocorreram em Braga várias manifestações contra os impostos lançados aos mais desfavorecidos. O jornal “O Bracarense”, na sua edição de 6 de Novembro de 1861, referia que “D’este modo não há lei, mas arbítrio, e em vez de se procurar repartir equitativamente a despeza que faz o estado, procura-se esfolar o povo, opprimir e vexar, para levantar grandes somas de quotas com que se enriquecerão os exactores do fisco, sem proveito publico, e com a ruína geral dos contribuintes”.

Para além do aumento de impostos, muitos populares indignavam-se com a forma como as matrizes eram organizadas. Segundo o mesmo jornal, com o método de organização das matrizes “Alliviam-se os amigos, opprimem-se os adversários, poupam-se os galopins eleitoraes, e em vez de matrizes legaes, authenticas e insuspeitas formam-se relações informes sem numeração, sem rubrica, sem assignaturas authorisadas, sem termos d’abertura nem de encerramento, que pódem ser alteradas segundo o capricho dos escrivães de fazenda”.

Mais tarde, no dia 3 de Maio de 1862, um sábado, ocorreram em Barcelos graves tumultos. Um pouco por todo o concelho convergiram pessoas para o centro de Barcelos, cujo objectivo principal era protestar contra o aumento de impostos.

Uma semana e meia depois, em Braga, e um pouco por todo o Minho, as populações continuavam a revoltar-se. Segundo o jornal “O Commercio de Braga”, do dia 16 de Maio de 1862, os habitantes do Minho “Reunem-se em grandes partidas, invadem as terras, em que as auctoridades estabelecidas não podem sustentar a ordem”. E estas autoridades não conseguiam controlar a ordem, devido ao isolamento em que algumas populações se encontravam. Nesses locais, as populações queimavam os documentos que encontram nas finanças, clamando com frequência “Abaixo os tributos!”.

Muitos lavradores, com medo destas manifestações, fugiam das suas próprias casas, movidos por sinos que tocavam a rebate.

O jornal “O Commercio de Braga”, que tinha uma posição contrária ao jornal “O Bracarense” (este defendia os revoltosos), afirmava mesmo que os povos do Minho não tinham razão de queixa do Governo, uma vez que eram os mais beneficiados com o progresso que se verificava no país: “Não são estes que de concelho a concelho transportam as suas manufacturas e os productos das suas terras, marchando por boas estradas, de que não gosa nenhuma das outras províncias? E por ellas não auferem melhores lucros, não gastam menos tempo nas suas jornadas, e não arruínam menos a saúde?”.

Este jornal afirmava ainda que, para haver desenvolvimento, para se construírem estradas e melhorar as vias de comunicação, era necessário dinheiro, e este vinha dos impostos.
Mas a grande revolta ocorreu no dia 15 de Setembro de 1862, em Braga.

Estava em causa o projecto sobre as irmãs da caridade, mas o povo exaltado, entusiasmado e até manipulado pelos políticos, baseado ainda no aumento de impostos, revoltara-se, mais uma vez, um pouco por todo o distrito de Braga.

O coronel José Maria Gomes comandou as tropas em Braga. No entanto, alguns políticos conseguiram seduzir vários militares, alguns de alta patente, como o influente capitão Guilherme Macedo. Esta manipulação revolucionária levaria a que o major Isidoro Marques da Costa assumisse o comando do regimento de Infantaria 6.

Associado a este movimento encontrava-se Bernardino Pacheco Alves Passos, que, entre outros meios, usava o jornal “O Bracarense” para fazer cair o Governo Progressista do Duque de Loulé.
À medida que estes revolucionários aumentavam as suas influências, o Governador Civil de Braga, Francisco Azevedo Soares, chegou mesmo a desaparecer.

Foi aí que, aclamado pela população, Alves Passos foi “nomeado” chefe do distrito. O problema é que alguns militares deixaram de colaborar com os revoltosos, originando o enfraquecimento destes. O movimento revolucionário terminava, tendo como consequência a fuga de Alves Passos para Espanha, regressando posteriormente a Braga para se dedicar à sua actividade na área do ensino (Liceu de Braga) e na medicina (Hospital de S. Marcos).

O rei D. Luís, que ia casar em 10 de Outubro de 1862 com a princesa italiana Maria Pia, concedeu a amnistia a todos os revoltosos da “Maria Bernarda”, com a excepção de Alves Passos.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

30 Novembro 2020

Um Natal diferente

29 Novembro 2020

O que devemos aos políticos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho