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O 1.º de Maio e os agitadores de Chicago

Oh não, outra vez a paixão pela educação!

O 1.º de Maio e os agitadores de Chicago

Ideias

2022-05-01 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O feriado que hoje se comemora assinala os direitos e as conquistas dos trabalhadores, a nível mundial, e teve o seu ponto de partida há 136 anos, nos EUA.
Na segunda metade do século XIX, os EUA eram uma potência em crescimento acelerado a nível industrial. Para as suas empresas e para os seus meios produtivos eram atraídas milhões de pessoas que, de todos os cantos do mundo, chegavam a este país à procura de melhores condições de vida. Do mesmo modo, advinham da Europa milhares de pessoas, que queriam não só construir uma nação desenvolvida, mas sobretudo sonhar com uma terra onde pudessem trabalhar e viver.

De entre as várias cidades americanas com grande progresso industrial, Chicago destacou-se pelo seu desenvolvimento e pelo número de emigrantes que recebia. Estes, rapidamente se aperceberam das condições árduas de trabalho, das jornadas de labuta diária que atingiam 15 horas e até mais. Assim, resolveram manifestar-se nessa cidade, exatamente a 1 de maio de 1886, exigindo a redução do horário de trabalho diário para as 8 horas.
Nesse dia primeiro dia de maio de 1886 o ambiente vivido em Chicago era tenso, onde cerca de 15 mil trabalhadores, munidos de bandeiras vermelhas, exigiam em uníssono que o trabalho diário fosse reduzido! A agitação era de tal forma grande que alguns manifestantes sugeriram mesmo que as oficinas fossem incendiadas, caso os patrões não aceitassem a proposta de redução do horário de trabalho.
Na sua edição de 11 de maio de 1886, o Commercio do Minho fazia referência a um telegrama de “Nova-York expedito em 5 do corrente…”, no qual referia que “…depois d’um grande meeting, houvera grande tumulto. A polícia intimou os cidadãos honrados a que se retirassem para suas casas”.

Contudo, e apesar destes conselhos da Polícia, os manifestantes mantiveram-se firmes nas suas posições, verificando-se nesse dia que “Os socialistas responderam arremessando bombas de dinamite, cujo estampido encheu de terror e espanto a trabalhadora cidade”, refere a fonte citada anteriormente. A polícia respondeu de imediato com “várias descargas cerradas sobre a multidão, conseguindo dispersá-la”. Como consequência destes tumultos, ficaram “mortos e feridos 50 dos agitadores”.
Numa altura em que a indústria vivia um ritmo intenso de produtividade, estas manifestações e greves causaram uma grande dificuldade na produção americana. Em Boston, por exemplo, 4000 operários pararam de trabalhar. Em Chicago, 7000 operários “salchicheiros” fizeram o mesmo e em Pittsburgh (uma cidade no oeste da Pensilvânia), 1800 pedreiros e marceneiros fizeram também greve.

Os caminhos-de-ferro, na altura o principal meio de transporte de pessoas e de mercadorias, foi muito afetado, tendo as companhias férreas acordado que não iriam circular pelas estações próximas de Chicago, com receio das consequências dos grevistas.
As manifestações dos trabalhadores mantiveram-se nos dias seguintes, havendo a destacar os acontecimentos ocorridos uns dias depois, concretamente a 4 de maio de 1886, ainda em Chicago, quando uma bomba explodiu junto às forças policiais, provocando a morte a um elemento da guarda. A reação da Polícia de Chicago foi imediata, atacando com grande violência os manifestantes e provocando a morte a oito deles. Esta revolta de 4 de maio de 1886 ficou conhecida como a “Revolta de Haymarket”.

As interrogações aos presos de Chicago, por parte das forças judiciais, continuaram nos meses seguintes, tendo sido tornado público, em novembro de 1887, que na prisão de Chicago chegou a haver tentativas de suicídio por parte dos trabalhadores presos. O “New-Yorck Herald”, citado pelo Commercio do Minho (edição de 15 de novembro de 1887) referia que “Os jornaes deram notícia da descoberta d’algumas bombas de dynamite nas células dos anarchistas de Chicago condenados à morte”. A ideia de levar dinamite para a prisão era para fazer explodir esse estabelecimento prisional de Chicago, matando, dessa forma, o maior número de pessoas. A tensão era de tal forma elevada que o próprio Governador de Ilinóis chegou a receber cartas anónimas contendo ameaças de morte, caso este autorizasse a execução dos anarquistas!

Nos meses e anos seguintes a luta dos trabalhadores pelos seus direitos foi intensa, ultrapassando as fronteiras dos EUA e espalhando-se por todo o mundo, especialmente na Europa. Neste sentido, o primeiro país a adotar o dia 1 de maio como feriado do “Dia do Trabalhador” foi a França, depois do Senado desse país ter ratificado, a 23 de abril de 1919, o trabalho diário de 8h. A partir daqui este feriado foi adotado por dezenas de países.
No que diz respeito ao nosso país, apesar das manifestações e exigências dos trabalhadores desde esses acontecimentos de Chicago, só a 1 de maio de 1974 é que o “Dia do Trabalhador” foi comemorado de forma livre, intensa e muito emotiva.

Ficaram célebres as manifestações de trabalhadores que ocorreram em Braga, a 1 de maio de 1974, quando as ruas e avenidas desta cidade se encheram de pessoas a festejar livremente o Dia do Trabalhador!
Uma das decisões tomadas em Braga, e que ficou até hoje associada ao dia 1 de maio, foi a substituição do nome do então imponente “Estádio 28 de Maio” (inaugurado a 28 de maio de 1950 pelo Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar, e pelo Presidente da República, Óscar Carmona) para “Estádio 1.º de Maio”.
Tratou-se de uma homenagem bem simbólica que os bracarenses fizeram a um povo que lutou durante quase meio século pelos seus direitos laborais, liberdade individual e política. De destacar que o início do sistema político que reprimiu a liberdade dos portugueses, durante 48 anos, começou em Braga, com a revolução do General Gomes da Costa, a 28 de maio de 1926!
Para finalizar, deixo também aqui uma congratulação a todas as mães, guardiãs e protetoras da família e à minha filha que hoje comemora o seu aniversário.

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