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Ideias

2014-11-14 às 06h00

José Manuel Cruz

Da entrevista de François Hollande não pude reter mais do que fragmentos. Embora me encontrasse a escassos metros do ecrã, nem o ângulo nem o volume de som favoreciam a melhor percepção. Pensei poder compensar as insuficiências de recepção nas horas seguintes, revisitando a entrevista na internet. Surpresa minha, não apanho mais do que pequenos fragmentos trabalhados editorialmente.

Ainda a entrevista não tinha ido para o ar e já eu aguardava ansiosamente as declarações de Hollande. Disse, algures, a propósito da rentrée do Partido Socialista Francês no passado mês de Agosto, que muito me interessava pela realidade política francesa por força das esperanças que o pretérito líder do PS português depositara no seu congénere de além Pirenéus. Sabemos, hoje, que as expectativas de António Seguro eram infundadas. Ficou-me, no entanto, a curiosidade, agora redobrada pelo facto de por cá também me encontrar. Sublinho, sem ponta de ironia, que acredito imenso na urgência de acompanhar as incidências da política francesa, até porque pairam no ar sinais bastantes de que alguma coisa possa estar para acontecer, aqui me referindo à simpatia crescente de que a Frente Nacional vem gozando.

Gostava, por conseguinte, de ter captado mais, de ter ficado com materiais para mais do que uma crónica. O futuro se encarregará de me fornecer motivos adicionais de reflexão. Por agora bastam-me duas pequenas coisas. A dado passo, acompanhando a resposta de Hollande a Hassen Hammou, jovem desempregado, a realização realça um slide: 150.000 postos de trabalho para um investimento de 3MM € a realizar. Logo me assaltou a magia do número, o mesmo que em tempos José Sócrates avançara como um compromisso eleitoral.

A França contará com 3,5 milhões de desempregados, segundo os números oficiais. Portugal, ao tempo de Sócrates, teria pouco mais que 400.000. Uma centena e meia de milhar de novos postos de trabalho teriam sido uma bênção para Portugal; ter-nos-iam, à altura, reaproximado dos níveis de pleno emprego. Para França, na actualidade, o número avançado é bem mais irrisório. Fica, no entanto, a ideia que 150.000 é um bom número: suficientemente bom para contentar a opinião pública, dar alento a defensores e suster detractores. Por 150.000 novos empregos há quatro ou cinco vezes mais candidatos - ou mais ainda - que vivem a ilusão de poderem ser eles os escolhidos. Eu não sei se os postos de trabalho irão ser mesmo criados. Sei, isso sim, que um anúncio deste teor tem o condão de atenuar a percepção de ineficácia das políticas governamentais.

E vai a França criar 150.000 postos de trabalho a expensas de quê? Do orçamento de estado? E não tem Bruxelas torcido o nariz às projecções orçamentais francesas sob a suspeita mais que fundada de deficit excessivo? Cito de cor, mas julgo ter ouvido a Hollande a confissão de que acreditara piamente no crescimento, e que o crescimento económico de facto não viera. Raciocinando à antiga, pensara Hollande que, após tantos anos de contracção, a economia retomaria o curso natural de expansão. Eu nem preciso de dizer que não sou economista, que não tenho sequer o mínimo de cultura financeira para perceber cabalmente o que se passa à nossa volta. Sei, no entanto, que não estou só, que mesmo os imponentes técnicos encartados andam em palpos de aranha sem saberem exactamente de que lado vem o vento e como o contrariar.

Com toda a minha confessada ignorância eu arriscaria uma intuição: o crescimento não veio, nem virá. Pelo menos na lógica conhecida. Iludimo-nos com a relativa prosperidade do norte e do centro europeu, e imaginamos que o marcar passo de Portugal e Espanha, de França e Itália, não resulta senão de culpa própria. Se a Alemanha e a Noruega se safam, porque não os outros? Insiste-se que é uma questão de organização e de mentalidade, e ofende-me a sugestão de que sejamos incompetentes ou mentecaptos. Com todas as diferenças conhecidas entre Portugal e França, eu sei que é preciso investir para gerar emprego, e eu sei - ou temo - que não haja riqueza suficiente em Portugal que permita criar emprego para a generalidade da população. Assim, por que é que há de uma multinacional de calçado desportivo ou jeans fabricar em Portugal, quando o pode fazer com vantagens acrescidas na China ou sudeste asiático? Por que é que uma marca alemã de peluches não há de deslocalizar a produção de Portugal para o norte de África?

Em Portugal, ao longo de dezenas de anos, desconsiderou-se a produção industrial em favor da terciarização da economia. Nada contra o modelo, que até parece funcionar muito bem no Luxemburgo. Tal como foi concebida, a União Europeia assentaria num modelo económico que não existe mais. Alguns adaptaram-se a tempo, outros não. E os que falharam talvez já não apanhem o comboio. Talvez seja isto que urja compreender.

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