Correio do Minho

Braga, sábado

- +

Num canto esquecido do quintal

Comunicação em Crises e Emergências

Num canto esquecido do quintal

Voz aos Escritores

2020-10-30 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

A minha infância, na quinta, deixara marcas e não se apaga da minha memória. Dera-me suporte para resistir às investidas da vida a que ninguém escapa. Eu tinha as baterias carregadas. Era a menina dos olhos da Esmeralda, o mimoso lírio por abrir, num canto esquecido do quintal. Contava-se que tudo em mim era a ternura contida e uma timidez incompreensível que me valia a chacota de escola.
Aida Araújo Duarte, as Sandálias de Lucinda

Nutro um grande fascínio por quem, como eu, gosta de ouvir e ler grandes homens/mulheres das artes e das letras. E se o prazer de ouvir gera em mim um prazer grande de falar, o prazer de ler quem escreve bem gera duplamente em mim uma vontade enorme de despir e vestir outras palavras. A este propósito, Padre António Vieira diz-nos que o texto escrito é um cadáver que só se torna vivo quando é lido, quando cativa o leitor e viaja com ele para uma nova aventura na escrita. Não se admirem se vos disser que tenho viajado não para comer um bom prato de comida, mas para escutar uma boa história. “As Sandálias de Lucinda” da escritora de Celorico de Basto, Aida Araújo Duarte, é um bom exercício de estremunhamento de emoções e sentimentos. É com o bilhete na mão que sou transportada para o canto esquecido do quintal onde, em véspera do “Pão - por - Deus”, sinto o perfume do botão da flor da romãzeira ainda por abrir. Também as vivências daqueles Dias de Todos os Santos não se apagam das minhas memórias. Reacendem, pelo contrário, as lembranças das crianças pobres que andavam de casa em casa, com uma saca de trapos na mão, a pedir um mero codorno de pão. Como a pobreza doía na alma e nos pés descalços daquelas pequenas criaturas que nunca foram meninos de verdade! Contudo, a criança triste resiste tal como podemos ler nos seguintes versos de Cecília Meireles:

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...
Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada,/ pelo medo de perder tudo.

Para onde quer que eu olhe agora, apesar dos muitos anos, ainda me transporto para aquele canto esquecido do quintal.
Um dia — lembro-me como se fosse hoje — lera num daqueles folhetins, que se vendiam nas feiras antigamente, uma história que já contei, vezes sem conta, a tantas crianças da cidade e que reza assim:
Um pai rico, querendo que o seu filho soubesse o que significa ser pobre, fê-lo passar um dia com uma família de aldeãos, longe da cidade onde moravam.
O jovem passou três dias e três noites nos campos.
De volta à cidade, ainda no automóvel, o pai perguntou-lhe:
—Então, filho, que tal correu a tua experiência no campo? Aprendeste alguma coisa interessante?
— Bem — respondeu o filho, as diferenças são muitas e até contraditórias. Nós temos um cão, eles têm quatro; nós temos uma piscina com água tratada, que chega ao fundo do jardim, e eles têm um rio com água cristalina e peixes brilhantes; nós temos luz elétrica no nosso jardim, mas eles têm as estrelas e a lua; o nosso jardim chega até à parede e o deles até ao horizonte; nós ouvimos música na rádio e CD e eles ouvem uma sinfonia contínua de papagaios, grilos e outros animais; nós vivemos rodeados de cercas com alarmes e eles vivem protegidos pela amizade dos seus vizinhos; nós vivemos ligados ao computador, à televisão e ao telemóvel e eles estão ligados ao céu, ao sol, à água, aos campos, aos animais e às suas famílias.
— Então, pai, muito obrigado por me ter ensinado como somos pobres quando não observamos a Natureza e não valorizamos o sorriso singelo de uma criança.
Antes que a luz escureça e me ensombre a voz, que ainda ouço no fundo do meu quintal, fico-me por aqui, chamando a este escrito a limpidez de dois tercetos de Antero de Quental:

Por quanto há de fatal, que quanto há misto
De sombra e de pavor sob uma lousa...
Oh pomba meiga, pomba de esperança!

Eu to juro, menina, tenho visto
Cousas terríveis — mas jamais vi cousa
Mais feroz do que um riso de criança!

Deixa o teu comentário

Últimas Voz aos Escritores

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho