Correio do Minho

Braga,

Num caminho que nunca tinha previsto...

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2012-08-25 às 06h00

Escritor

Por Torres de Campos

São 5 horas da manhã, o sol começa a nascer lá longe... acordo, mata-bicho e preparo a minha mochila para visitar uma série de comunidades longínquas, onde não vai nenhum padre à pelo menos 6 anos.
A picada não é fácil, tem muitos buracos e por vezes o capim impede-nos de ver bem o caminho. O perigo é reduzido, porque uma equipa de desminagem retirou grande parte das minas por aqui existentes. Depois de ter andado com o meu velho carro cerca de 50 Km cheguei a um rio. A descida para o rio assustou-me, mas o desejo de passar para a outra margem animou-me e deu-me força para não pensar no pior. O rio tinha bastante água. Acho que não tinha crocodilos e como tinha muitas pedras no fundo o carro portou-se bem.
Passados mais alguns quilómetros, passei ao lado de uma escola ao ar-livre, com bastantes alunos. Ficava debaixo de uma árvore, que tinha um grande quadro preso nela. Todos sabiam que o padre havia de passar ali. Ouvindo o barulho do carro vieram todos a correr... vi tantas mãos no ar e tantos sorrisos a brilharem, que fui obrigado a parar. Aqueles meninos nunca tinham visto um padre branco na sua escola. Fiquei radiante com as novidades do professor, que me agradeceu, por eu os ter saudado. Depois deste encontro imprevisto, avançamos, porque o caminho ainda era longo.
À entrada de Mpuli, aldeia que ia visitar, o partido Frelimo fazia mais um dos seus comícios, em vista às próximas eleições eleitorais. Não parei para não comprometer a minha visita. O povo esperava por mim em ambiente de festa e grande parte daqueles que estavam no comício partidário vieram juntar-se a nós. Usualmente, os animadores das comunidades avisam-me quando se vão realizar os comícios, para que eu não marque visitas nesses dias. Trata-se de gerir as liberdades em liberdade. Naquele dia, tal não aconteceu, por falta de aviso.
Estava tudo preparado para a grande festa. Celebramos o perdão de Deus, a Eucaristia e partilharam comigo de coração sincero os problemas existentes na comunidade. Almocei com os responsáveis da comunidade e parti para a comunidade de Namapero.
Em Namapero não encontrei a mesma alegria que em Mpuli. Tinha falecido naquele dia uma mãe que deixava órfãos 5 filhos pequeninos. Apesar daquele ambiente de tristeza, descobri umas lágrimas suficientemente nuas, para se transformarem em fogo e possuírem o poder de incendiar a própria cinza e de a retransformar em madeira fresca. Celebramos a fé na ressurreição de Jesus Cristo e daquela irmã que tinha lutado toda a sua vida pelo bem-estar dos seus filhos. No fim da celebração fomos à sua antiga casa, onde jazia o seu corpo e sentados na esteira demos as mãos e rezamos ao Deus de todas as religiões para que a acolhesse na sua casa.
A noite caiu depressa. O juiz da aldeia deu-me a sua palhota para eu dormir. Antes de me deitar comi um pouco de chima (farinha cozida) e conversei com os anciãos da aldeia sobre as tradições africanas. Foi uma conversa muito interessante. À volta da minha palhota dormiram muitos animadores para que ninguém me fizesse mal durante a noite.
Pelas 11 horas da noite acordei com alguém aos gritos. Fiquei assustado, mas não sai da palhota. Achei que o assunto não era comigo, porque se fosse comigo alguém me chamaria. De manhã, esclareceram-me sobre o que se tinha passado. Tinha sido um homem, que se foi queixar à policia comunitária da aldeia, dizendo que a mulher o tinha agredido. A policia dirigiu-se à sua casa e descobriu que ele é que tinha agredido a sua mulher. A policia espancou o queixoso mentiroso e exigiu-lhe que fosse comprar nipa (bebida alcoólica tradicional). Como não tinha dinheiro foi-se queixar ao juiz da aldeia. Histórias como esta são normais neste mundo.
Parti daquela aldeia bem cedo em direcção a Rapenroe. O nome desta aldeia em português quer dizer: “toma banho e foge”. Conta-se que ali havia um grande leão que vivia junto a uma fonte, onde as pessoas tomavam banho. Quem lá fosse tomar banho, tinha que se despachar e fugir logo, porque se o leão o visse nunca mais ali tomariam banho.
Quando cheguei perto da capela estavam muitas pessoas para fazerem festa com o seu novo pároco. Foi um momento de muita alegria. No ofertório muitos trouxeram espigas e outros abóboras para agradecerem a minha visita a Deus. Estes gestos simples, não são uma quimera, uma miragem ou uma ilusão. São gestos que são mais que um sonho oco, de que uma fantasia, porque vão marcando as páginas da minha vida.
Mataram uma cabra para que eu pudesse comer bem. Impressiona-me a pobreza do meu povo e fico cada vez mais encantado com sentido de partilha que eles têm. Aquela cabra foi guardada durante bastante tempo para aquele momento de eternidade...
No meio de muitas palmas e danças parti em direcção a Natála. Estávamos quase a meio do caminho, quando alguém nos mandou parar. Trazia um aviso do animador da comunidade de Natála a dizer que a visita tinha que ser adiada, pois tinham morrido muitos familiares dos cristãos da aldeia, nas comunidades vizinhas. Por isso, não estava ninguém na aldeia para me receber. Mais uma vez, o imprevisto aconteceu e regressamos para a missão cansados de sentir tanta alegria e tristeza...
Na missão, sentado na varanda da minha velha casa, que o tempo foi arruinando, olho para as estrelas e ouço a voz do vento que me diz que o sentido da vida encontra-se na abertura à experiência da própria Vida.
Caros leitores mando-vos um abraço deste paraíso, onde me surpreendo por me descobrir estrangeiro, onde me surpreendo por ter necessidade de tanta coragem, onde me embrenho num caminho que nunca tinha previsto...

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