Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

Novos e velhos

Comunidades de aprendizagem

Ideias

2015-10-04 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

A realidade é generosa, e sobra sempre assunto a que pudesse eu dar atenção e tomar como tema destas crónicas. Escolho, no que sem dúvida espelho uma subjectividade, mas quero crer que as opções que faço não serão de todo estapafúrdias, desfasadas do que sejam os sentimentos ou as pendências do momento. Aqui e ali tenho referido que escrevo a partir de Paris, dando-se o caso de abordar, inclusive, a realidade francesa, sublinhando contiguidades entre cá e lá, antecipando eventuais contágios. E, se nem sempre evito escrever na primeira pessoa, fujo, no entanto, de me tomar de vaidade, de colocar o Correio do Minho na posição incómoda de púlpito ao serviço duma agenda pessoal. Hoje, porém, gostava de escrever no singular, não porque não fale de um exército com múltiplos efectivos, mas porque dos companheiros de infortúnio não tenho provas nem relatos. O assunto que aqui trago correu-me o espírito quando alinhavava a última crónica, mas não havia volta que pudesse dar de modo a lá o incluir.
Há três, quatro anos, que se glosa o tema de que Portugal é um rolo compressor que reduz a menos que nada o futuro e as perspectivas de vida das jovens gerações, cuspidas como meteoritos para o estrangeiro dum carrossel sombrio em aceleração desvairada. Os jovens? Só? E os marmanjos como eu!.. Perdoem-me, uma vez mais, a pessoalização que aqui introduzo. É vez sem exemplo! Ele é jovens acima e abaixo, ele é o desperdiçar da geração mais culta e melhor formada, eles são os planos para trazer os jovens de volta às duas dezenas de cada fornada, cérebros e energias pulsantes tresmalhadas, perdidas para os concorrentes...
Concedo que possam ter saído mais jovens que marmanjões, mas há de uns e de outros, e sabe Deus se não há mais dos segundos pela maior fragilidade, por um medo e vergonha em maior escala. Saí, no limite. Poderia ter dado o salto um pedaço antes, quando um mocetão a modos que da minha idade, mais coisa menos coisa, mas melhor apadrinhado, nos aguilhoava com a palermice do conforto piegas a que convinha que todos disséssemos um patriótico ‘não!’. De jovem já eu me tinha posto a andar. E regressei, por acreditar no país livre, democrático e próspero que iríamos construir em cima dos fantasmas do passado. Insisto, “pôr-se a andar” é coisa banal para um jovem, quase que se diria que faz parte da ordem natural das coisas. Mas para um garajola, garanto que é outra missa! E quantos, dos da minha geração, me dizem que, encontrando-se no labirinto em que estive, não sabiam eles se teriam a coragem de ir em busca do desconhecido...
Perdoem-me, uma vez mais, o carácter singular deste escrito, mas não tenho ouvido falar de nós, só deles, facto sendo que navegamos todos nas mesmas águas. Não há nas minhas palavras, contudo, mágoa ou inveja, despeito ou rancor. Limito-me a referi-lo de forma banal, ao jeito de um mero ‘como quem diz’. Não viso aplausos nem holofotes. Crónica igual a muitas outras, escrita num momento, lida em menos tempo ainda, e esquecida. Gostava, entretanto, que a par dos planos para resseduzir os novos, se fizesse algo de semelhante para os velhos. Não haveríamos de nos atropelar uns aos outros. A menos que lá, de onde jorram as ideias brilhantes, não vislumbrem como ultrapassar a caricatura hipócrita da vintena, irmã de sangue do surto frenético de boa-vontade pela má-consciência face a criança sem vida em orla de instância balnear.
Como disse, a realidade é generosa. Poderia ter escrito sobre a extraordinária coincidência de ter a NASA anunciado a descoberta de água em Marte na mesma semana em que Matt Damon se estreia em tela como latifundiário no planeta vermelho, o que me soa a golpe publicitário, mas admito que possa ser eu o espírito perverso. Poderia ter escrito sobre as certezas de Cavaco para o feriado da República, convicção tanto mais louvável quanto vai sendo voz corrente que um terço ou um quarto dos seus concidadãos não tem a certeza do que irá fazer na véspera, ou se valerá sequer a pena fazer alguma coisa. Mas deu-me para o que viram. Em todo o caso vou terminar o dia ouvindo Rosália de Castro cantada por Adriano: triste parte, aquele parte... O resto vocês conhecem.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho