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Novo Normal

Marcelo e André Ventura

Novo Normal

Escreve quem sabe

2020-06-09 às 06h00

Vítor Esperança Vítor Esperança

Novo normal é o termo agora usado para a realidade em que vivemos, ou desejamos viver. A normalidade do dia-a-dia, com as nossas rotinas, as nossas vidas profissionais e sociais é o que nos mantem equilibrados. Porém, a experiência e as consequências destes tempos de medo e confinamento remete-nos para a vontade de mudança e abre-nos a mente a novas oportunidades, procurando dar maior sentido a uma vida mais humanizada e com melhor qualidade de vida.

Esta qualidade de vida é simultaneamente o objetivo e, o problema. A sociedade atual dispõe de acesso fácil à informação global e neste sentido toma consciência do que se passa no Planeta. A Humanidade continua a crescer em número, com direitos a determinadas condições de vida universalmente reconhecidos e, consequentemente, à aspiração da melhoria contínua da sua qualidade de vida. O modelo económico vigente transformou “qualidade de vida” em sinónimo de máximo consumo. Ter mais bens e serviços, significa utilização de mais recursos. Será que a equação de crescimento contínuo da Humanidade, com melhoria global e simultânea da qualidade de vida de todos, tem solução com este modelo económico?

Vivemos nos últimos 70 anos um crescimento de riqueza nunca antes visto. O sistema económico surgido com a industrialização da produção de bens, alavancados nas últimas décadas pela digitalização da informação, elevou a produtividade per capita a valores impensáveis há dois séculos. Nunca se produziu tanto e tão rapidamente. Este sistema, que continuamos a designar como modelo Capitalista, permitiu um aumento exponencial da melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas. Contudo, esse desenvolvimento não foi igual no território, nem nas diferentes sociedades organizadas em Estados soberanos. A pobreza continuou e continua a ser o estado normal de muitos milhões de Seres Humanos. Pior, aumentou o fosso entre quem tem muita riqueza e quem nada ou pouco tem, como o prova o trabalho de Thomas Picketty. Sim, melhoramos mas, nunca se poluiu tanto, nunca usamos tanto os recursos do planeta como agora, nunca se gerou tanto desperdício e lixo, nem nunca houve tanta gente a reclamar qualidade de vida.

A conjugação de aumento da produtividade, riqueza e consumo fez do modelo capitalista o modelo universal publicamente aceite e reconhecido. A Globalização ocorrida com base neste modelo económico, associado a um tempo de aumento de liberdade reguladora a que alguns chamam de modelo neoliberal, incentivou os gestores e investidores/proprietários a maximizar os seus lucros, no mais curto espaço de tempo, beneficiando dos dividendos financeiros em desfavor da capitalização das empresas. Racionalmente deslocaram a sua capacidade produtiva para locais onde os trabalhadores se ofereciam mais baratos. Esta situação não é nova mas, foi agora mais exposta à visibilidade pública pelos efeitos colaterais do COVID-19, fazendo-nos perceber de quanto dependentes estávamos de mercados de mão-de-obra intensiva e barata, localizada maioritariamente na Ásia, com a agravante de alimentarem um modelo económico e social diferente do nosso, sob domínio de potências que não consideramos democráticas e que nos podem constringir modelos de liberdade e direitos adquiridos.

O “mundo financeiro” foi claramente beneficiado neste modelo de crescimento económico capitalista, porque ele próprio se criou como modelo complementar. A representação da riqueza em moeda fiduciária deixou de ser a razão primeira, substituída pela desmultiplicação da representatividade da riqueza existente para lhe somar a riqueza do futuro, transformando a economia em modelos complexos dominados por especialistas financeiros, com cálculos inacessíveis ao cidadão comum. A desmaterialização do dinheiro e dos serviços que a engenharia financeira ampliou tornou as transações financeiras mais opacas ou invisíveis facilitando a vida a muitos, incluindo quem se esconde nas transações internacionais e toma conta dessa riqueza. Designamos por Mercado, este mundo incógnito, omnipotente e dominador do mundo financeiro e consequentemente de domínio da Economia e da Política.

Para um objetivo de um Novo normal temos já três reformas importantes a estudar e a fazer:
1) O regresso da atividade industrial aos países democráticos do ocidente, ao nosso mundo, que implicará o uso de mão-de-obra melhor remunerada;
2) A reforma da remuneração dos fatores de produção equilibrando mais as componentes entre “Trabalho e Capital”, até porque este último é dono dos equipamentos robotizados e das aplicações digitais que substituem o Homem com maior eficácia rapidez e rendibilidade;
3) A reforma do modelo de representação e transação financeira da riqueza, que deve deixar de ser incógnito (existe tecnologia suficiente para rastrear o dinheiro) e assente em engenharia financeira de futuros.

Para Normal regressemos às rotinas que não serão as mesmas porque os danos deixados pela Pandemia afastará muita gente da cadeia económica e financeira vigente, diminuindo fortemente a riqueza criada e consequentemente a diminuição dos beneficiados pela sua desigual redistribuição. Por muito que se aposte no crescimento para a retoma, os recursos serão sempre limitados, as oportunidades ao seu acesso condicionadas pelo poder instalado aumentando a sua redistribuição desigual.
Não há futuro para um Mundo onde o consumo de bens e serviços se alinhe pela aspiração à qualidade de vida do atual modelo dos países mais ricos. Não será necessário fazer revoluções que tanto mal fizeram à Humanidade. Acredito que os jovens e as melhores mentes de gerações mais experientes existentes serão capazes de encontrar soluções de melhor equilíbrio.

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