Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Novo mínimo histórico da taxa de juro beneficia a economia portuguesa?

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2013-11-23 às 06h00

António Ferraz

Recentemente o Banco Central Europeu (BCE) anunciou um corte para metade da sua taxa de juro de referência, ou seja, da taxa de juro dos seus empréstimos de curto prazo (uma semana) à banca comercial, fixando-a em 0,25%. Em ‘economês’ significa que o BCE assume agora uma política de taxa de juro zero ‘ZIRP - Zero Interest-Rate Policy’. Contudo, o BCE vai mais longe ao informar que a sua taxa se manterá baixa durante mais tempo. Com isso pretende favorecer também a descida das taxas de juro de longo prazo (que serve de indicativo ao investimento produtivo).

O que significa então esta descida? Que impacto poderá ter na debilitada economia portuguesa?
A redução da taxa de referência do BCE, bem como, o aumento das operações de injeção de liquidez no mercado monetário interbancário ‘Euribor’ quer normais (operações de financiamento de curto prazo, valor limitado e taxa variável) quer extraordinárias (operações de cedência de liquidez, valor ilimitado, prazo de três anos e taxa fixa) são os canais tradicionais de transmissão da política monetária na economia real. Com isso, o BCE pretende, por um lado, alavancar a economia real reduzindo o desemprego através do crédito mais barato de forma a elevar tanto o consumo das famílias como o investimento das empresas, ou seja, expandindo a procura interna). Por outro lado, ‘criar inflação’ tendo em conta o risco de deflação na área do euro onde os preços têm vindo a descer há dois meses consecutivos (a descida sucessiva dos preços gerando expectativas negativas pode criar um ciclo vicioso de recessão e desemprego devido ao adiamento de consumos e investimentos).


Mas será que é isso mesmo que tem vindo a acontecer na nossa debilitada economia? A resposta é não. Porquê?
1. O crédito bancário aos agentes económicos não tem vindo a processar-se de forma adequada. O crédito fornecido tem sido escasso, em primeiro lugar, como resultado da aplicação de mais rigorosos critérios de avaliação na concessão de créditos por parte dos bancos comerciais e, em segundo lugar, devido aos elevados ‘spreads’ exigidos para tal fim (taxas de cobertura de risco) o que é visível por comparação com a média europeia (bastante mais baixa).
2. Muitos dos recursos financeiros obtidos pelos bancos são utilizados na sua recapitalização.
3. Também tem vindo a aumentar a compra de títulos da dívida soberana externa por parte dos bancos comerciais quer porque conseguem mais elevadas taxas de juro quer apesar de taxas de juro reais negativas por razões fundamentalmente de segurança e baixo risco (é o caso dos títulos da dívida pública da Alemanha).

Segundo o Eurostat, verificamos que as baixas anteriores da taxa de referência do BCE, embora tendo tido efeitos positivos em termos de crédito à economia em alguns países do norte da Europa (mais desenvolvidos), tem vindo a apresentar, bem pelo contrário, reduções significativas dos créditos concedidos às famílias e empresas em países periféricos (como em Portugal). Nestes últimos, podemos dizer que a política monetária expansionista do BCE não tem vindo a chegar à economia real devido a variação negativa dos créditos concedidos pela banca.

Ou seja, há uma elevada fragmentação do mercado de crédito na zona do euro. A variação do crédito bancário desde o 4º trimestre de 2011 e o 1.º trimestre de 2013 (em %), foi positivo em países como a Finlândia (+ 6,1), Holanda (+ 5,4), França (+ 3,1) e Alemanha (+ 0,8) e negativo em países como Portugal (- 7,5%), Grécia (-9,8), Espanha (-10,6) e Irlanda (- 14). Em média o crédito caiu 1,1% na área do euro.

O que fazer então? Eis algumas ideias:
(1) Criação de expectativas positivas aos agentes económicos (para consumir e investir) o que exige uma alteração da política interna, nomeadamente quanto a necessidade de valorização do trabalho, de renegociação do programa de ajustamento em vigor (quanto aos juros e prazos) gerando assim folgas necessárias à tomada de medidas de política visando o crescimento económico;
2) Promoção do investimento público estratégico e criação de incentivos ao investimento privado;
3) Utilização da CGD como banco do estado na expansão do crédito, especialmente às PME;
4) Maior ambição do BCE em termos de política monetária expansionista (à semelhança aliás do verificado na Reserva Federal dos EUA e nos Bancos Centrais da Inglaterra e do Japão). Quer dizer, implementando os chamados alívios quantitativos ‘quantitative easing’ (QE), quer através da aquisição pelo BCE de títulos de dívida soberana dos países em maior dificuldade de dívida externa (e, assim, fazer baixar as taxas de juro) quer pela compra de ativos às PME fornecendo-lhes assim os recursos financeiros indispensáveis a sua atividade e expansão e que não tem vindo a conseguir pela via tradicional do sistema bancário.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.