Correio do Minho

Braga,

Novichok

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Ideias

2018-04-01 às 06h00

José Manuel Cruz

Sanches, o que Braga imortaliza em bronze, tratava a Verdade com pinças. Sanches foi filósofo, médico, e crê-se que matemático. Limito-me a fazer graça menor com o terceiro canudo, por não parecer que em «espírito matemático» caiba a ideia peregrina de que nada sabemos, na realidade, positiva ou negativa seja a proposição que enunciemos. Duvidar é um calvário; ter certezas, por vezes, releva de moléstia contaminante.
Que sabe, de facto, o meu leitor, sobre o caso do pai e da filha gaseados em Salisbúria? Passo à frente, passo atrás: quero dissertar sobre o tema, mas sou tomado por vergonhas, sobretudo após me inteirar de Maduro apoio venezuelano às posições russas. Eu, que procurava escrever algo de assertivo, sinto-me, inesperadamente, na pele de cachorro, dos que ladram e a caravana passa, irrelevância de que cubro este jornal, por arrasto. Queira o leitor resgatar-nos a tão deplorável impressão.
Graça segunda que faço com o nome do agente tóxico novichok, i.e. caloiro, se tomada a palavra por diminutivo de substantivo comum, ou «novo choque» se o vocábulo resultar de vulgar aglutinação de adjectivo com substantivo. Curiosidade menor, esta, apenas o mote para atestar que não me sinto «caloiro» em matérias que tais; curiosidade complementar, alegórica, do «novo choque», do novo afrontamento entre um ocidente plural, que se afirma democrático, embora prenda catalães eleitos, e o leste maldito, que ameaçante continua, mesmo que já não impere em metade do planeta.
De Sanches salto para Descartes: dois pontos definem uma recta. Salve, homem de solidez cartesiana! Aceitemos que o Litvinenko, envenenado com polónio, o foi por mão russa, fruto de decisão central, determinada no único gabinete que conta na cidadela do Kremlin. Aceitemos que o episódio de 2006 nos mostre do que realmente são capazes os Vladimires totalitários. Aceitemos que o episódio de 2006 seja um marco sólido, a historieta que prenuncia e atesta uma profusão de outras do mesmo calibre.
Bom: Litvinenko finou-se, Skripal por cá continua, e a filha até melhora. Estarão os assassinos de estado russos a perder qualidades? Não serão, por estes dias, de letalidade duvidosa, e menos de levar a sério? Ou não terá sido feito pelos mesmos, pelos herdeiros de práticas eficazes e atestadas? Admito que se possa avançar com o argumento, de que a operação foi realizada por quem bem se acusa, e que o bi-espião seja um miraculado, ponto em que contraponho fatal reserva, a de que não falha, quem de execução assume o papel de carrasco. Nunca a este nível. É só lembrarmo-nos do assassinato de Kim Jong Nam, no aeroporto da Malásia. Como é: fracassam, os grandes serviços secretos russos, uma operação que estado pária e indigente realiza com reconhecido sucesso? Quantas câmaras de segurança terá o anjo da morte iludido, a quantos «sorria, está a ser filmado» citadinos teria passado a perna?
Tanto têm os ingleses com que se preocupar, e os europeus em geral, e tão a jeito cai russo tapete, para debaixo do qual varremos vergonhas! Continuamos no registo do «porta-te bem, senão vêm aí os russos», laico, ideológico substituto de velhíssimo «porta-te bem, senão vais para o inferno». Não sei quem lucra. Sei, porém, que o «comido» é sempre o mesmo.
Cá prosseguimos, em modo de farsantes, no modo que mais aproveita a políticos de meia-tigela, a lideres partidários com problemas de afirmação, que assim se vão aguentando, pedindo a cabeça deste e daquele, preconizando retaliações e sanções morais. Que o podiam ter feito, os serviços russos pois claro que sim. Se o fizeram? Aguardo as provas, que virão no mesmo envelope das armas de destruição maciça do defunto Saddam Hussein. Boa sorte, Teresinha. E continua, Rio, que corres para a foz.

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