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Nobel de Economia de 2019: pobreza global não é ficção, é realidade

A velha e a muda

Nobel de Economia de 2019: pobreza global não é ficção, é realidade

Ideias

2020-01-04 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

O prémio Nobel da Economia de 2019 laureou três microeconomistas, o indiano Abhijit Banerjee, a francesa Esther Duflo (ambos do Massachusetts Instituto of Technology, MIT – EUA) e o norte-americano Michael Kremer (Universidade de Harvard – EUA) pelos seus estudos na área da Economia do Desenvolvimento, nomeadamente quanto ao uso da metodologia experimental e a formulação de propostas de políticas consideradas por eles mais eficazes no alívio da pobreza global. Assim, relembram que a “ciência económica está ao serviço das pessoas e que o combate a pobreza mundial é uma prioridade”.
Ora, a área da Economia do Desenvolvimento pode ser encarada por duas ópticas distintas mas que se querem complementares (macroeconomia e microeconomia) visando o combate a pobreza global: (1) A macroeconomia, com uma abordagem mais totalizante, que se debruça sobretudo sobre o desenvolvimento desigual, o crescimento económico, o comércio internacional e as políticas públicas de redução da pobreza global; (2) A microeconomia, com uma abordagem mais atomística, que incide as suas preocupações sobre, por exemplo, a saúde, a educação e o microcrédito.
Ora, os citados laureados com o prémio Nobel de 2019 enquadram-se nesta última óptica, são microeconomistas. A propósito, refira-se que a Academia sueca exprime a ideia de que “a investigação realizada pelos três laureados de Economia de 2019 melhorou substancialmente a nossa capacidade de combater a pobreza global.
Assim, em apenas duas décadas a nova abordagem baseada em experiências transformou a metodologia usada na área da Economia do Desenvolvimento”.
Assim, desde os anos 1990 que em quase todo o mundo se tem vindo a assistir a uma subida relevante dos níveis de vida das pessoas, a saber, o bem-estar económico (onde o PIB por habitante ou poder de compra dobrou o seu valor), a diminuição para metade da mortalidade infantil, o aumento do rácio de crianças a frequentar a escola, passando de 56% para 80%. Porém, podemos questionar os motivos do porquê de apesar de todos esses avanços ainda hoje o combate a pobreza é uma prioridade mundial? Como justificar então que subsistam com rendimentos muitíssimo baixos cerca de 760 milhões de pessoas? Que aproximadamente cinco milhões de crianças com idade inferior a 5 anos ainda morram de doenças que na maioria dos casos poderiam ser prevenidos ou sujeito a tratamentos médicos adequados? Que cerca de metade das crianças ainda se afasta das escolas sem habilitações mínimas de alfabetização e de uso dos números?
Esses três microeconomistas procuraram, desta forma, encontrar as mais medidas mais eficazes de combate a pobreza global. Para isso, adoptaram uma metodologia baseada na ideia de dividir a grande questão da pobreza global em questões menores e de mais fácil acção, por exemplo, quais os meios eventualmente melhores para se alcançar melhores resultados escolares ou na saúde infantil. No caso de M. Kremer, ele e a sua equipa usaram a experiência de campo para testar um conjunto de intervenções que poderiam melhorar os resultados escolares em África, em concreto, no Quénia. Por sua vez, A. Banerjee e E. Duflo realizaram pesquisas semelhantes também em outras áreas como foi o caso da saúde infantil na Índia e na África.
Dentre as principais ilações que se podem retirar dos estudos experimentais realizados individual ou conjuntamente por aqueles três laureados, temos: (1) As pessoas mais pobres são extremamente sensíveis, por um lado, a preços e gratuidade nos cuidados de saúde preventivos e, por outro, no acesso a clínicas móveis; (2) Os livros didácticos e refeições escolares gratuitas tiveram pequenos frutos, enquanto a ajuda direccional para alunos fracos melhorou e muito os resultados educacionais, comprovando que ajuda direccionada aos alunos mais fracos é um método eficaz no seu desempenho escolar.
Em jeito de conclusão crítica podemos dizer que sendo interessante e importante o trabalho experimental desses microeconomistas, a verdade é que, eles não aprofundaram em si as causas da pobreza global e como contornar a questão de forma sustentada. Para isso, como vimos, é necessário que se a adopte também uma perspectiva complementar macroeconómica sobre o fenómeno da pobreza global. Quer dizer, sendo a pobreza global hoje resultado em grande medida do capitalismo neoliberal dominante é indispensável reflectir:
(1) sobre a emergência de modelos económicos e sociais que se querem mais eficazes e justos;
(2) sobre a importância do papel do intervencionismo e regulação do Estado na economia;
(3) sobre as políticas económicas, fiscais, salariais e sociais mais adequadas no efectivo e duradouro combate a pobreza global.

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