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Não Voam Papagaios de Papel no Céu Azul de Cabul

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Não Voam Papagaios de Papel no Céu Azul de Cabul

Voz aos Escritores

2021-09-25 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Nas montanhas do Afeganistão erguem-se a beleza e a grandeza que outrora igualavam as das mulheres do meu país. Nós, as afegãs, somos fantasmas azuis, espectros negros que nas sombras dos escombros de uma cidade se agarram aos fiapos da vida, uma cidade onde a pobreza e a destruição gritam as vozes que nos foram roubadas. Tempos houve em que nos foi permitido estudar, trabalhar, ocupar cargos públicos, sermos o que desejávamos ser. Nesses tempos de Paz, os nossos sonhos concretizavam-se e a Liberdade e o orgulho em ser Mulher encimavam-nos as existências.
Quando os talibãs tomaram o poder, o Afeganistão voltou à Idade das Trevas e as mulheres afegãs ao abismo da subjugação. As nossas casas são a nossa prisão. Os vidros das janelas pintados obstam a que nos vejam e que sejamos vistas. A luz das nossas casas é coada, nelas penetra a medo, como se não tivesse permissão para entrar, uma luz intrusa como as leis dos senhores da guerra. As nossas burkas são o nosso cárcere, um manto ignóbil cuja gelosia nos faculta a visão claustrofóbica do Mundo, o mundo dos homens descortinado por um rasgo axadrezado. As nossas burkas são o nosso cinto de castidade, a mortalha da nossa feminilidade, a punição por sermos Mulheres num mundo pertença dos homens, burkas talhadas e cosidas por mãos obrigadas de mulheres, tecidos de cores pardas para não atiçarem o pecado da cobiça e da luxúria, burkas interditas às mãos lascivas dos alfaiates, homem alheio não toca em corpo de mulher, não tira medidas, e que medidas, senhores, se as burkas são panos disformes e caídos para que não se notem os insinuantes contornos femininos. Os talibãs, senhores da guerra, delimitaram a nossa circulação, interditaram-nos a televisão, os jornais, os livros e a rádio, confinaram-nos às quatro paredes das casas que não escolhemos, com móveis que não escolhemos, com maridos que não escolhemos, da quais somente podemos sair na companhia de um familiar do sexo masculino.
Nas ruas, é-nos proibido falar com outros homens, é-nos proibido rir, é-nos proibido cumprimentar, é-nos proibido confraternizar. O ensino foi-nos vedado, o trabalho também. Não podemos ser jornalistas, escritoras, empresárias, juristas, comerciantes, professoras. Não podemos ser. Os rapazes recebem escassa educação porque não há professoras que os ensinem. A maioria dos afegãos rejeita essa nobre profissão. Um país sem instrução é um país sem progresso, sem riqueza, sem cultura. Um país sem instrução é um país decadente, taciturno como as ruas tristes de Cabul. Um país sem Mulheres é a desesperança. Algumas de nós exercem a medicina e a enfermagem em hospitais decrépitos onde há carência de tudo e os poucos medicamentos estão fora de prazo. Os senhores da guerra obstam a que os corpos das mulheres sejam examinados e tratados por médicos, muitas de nós morrem por propositada falta de assistência médica, se no hospital não houver médicas as padecentes são ignoradas, entregues à sorte ou à morte. Os senhores da guerra e o “carniceiro de Cabul” escravizam as Mulheres, raptam-nas, vendem-nas a redes de tráfego de prostituição, forçam meninas a casarem com eles, assassinam, mutilam com ácido e apedrejam as opositoras, fuzilam-nas na nuca diante de estádios de gente compelida a assistir às execuções, matam num poder sem punição, o mais maléfico dos poderes. As Mulheres são propriedade dos homens, os homens podem sová-las, espezinhá-las, violá-las, roubar-lhes a dignidade, a vontade, a vida. Mulher que não segue as leis dos homens tem de ser penalizada, o perpetrador será aplaudido, elogiado pelos senhores da guerra numa misericórdia com o lobo que é a crueldade para com o cordeiro.
No dia em que me humilharam na rua, me chicotearam por ter as unhas das mãos pintadas, por ter a burka dois centímetros acima dos tornozelos, por não estar acompanhada de um familiar masculino, nesse dia, o medo deu lugar à revolta que deu lugar à acção. Não mais ficaria na clausura duma casa que não sentia minha, não mais vocalizaria palavras não eram minhas, não mais seria o que não era, uma mulher manipulada, sufocada, escravizada, maltratada. Antes morrer que assim viver. Outras se uniram a mim em protestos clandestinos. Em locais ocultos ensinávamos meninas, contávamos-lhes que noutros tempos, na idade delas, ouvíamos música, praticávamos desportos, pedalávamos bicicletas com os cabelos soltos ao vento, sim, meninas, não cobríamos os cabelos, éramos livres e pelo céu azul de Cabul voavam papagaios de papel. Nos escombros subterrâneos de Cabul, escondidas, víamos televisão, projectávamos filmes, líamos jornais e livros, provávamos que existia vida para além dos senhores da guerra.
No dia em que os Norte-Americanos entraram no Afeganistão pensámos que tudo ia mudar, que o terror ia acabar, que recuperaríamos a nossa beleza e a nossa grandeza. Vinte anos depois, no dia em que os Norte-Americanos saíram do Afeganistão, receamos que tudo volte a ser o que era.
No céu azul de Cabul já não voam papagaios de papel.

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