Correio do Minho

Braga, quarta-feira

No último de rodagem

O que nos distingue

Conta o Leitor

2018-08-26 às 06h00

Escritor

Autor: Daniel Teiva

Para o dia final dos 32 dias de rodagem reservou-se a cena mais curta e simples de se realizar, apenas com a atriz principal. Embora básica, apenas com uma posição de câmera, e com ela sentada sozinha no décor que tem sido a sua garagem, a cena carrega o plot twist, a reviravolta que muda a perspectiva do filme e da personagem. É o ponto unificador de toda a obra, a ligação lógica dos três atos. O único momento que não poderia faltar no filme.
Como último dia, como tudo tem corrido à perfeição, o produtor deixou-se atrasar em meia hora, perante a chamada habitual. Entra no estúdio, calmo e soberano, passos largos até ao décor da garagem, onde é habitual ser recebido pelo assistente com o plano do dia, mas hoje só o som abafado de uma mulher a chorar vem ao encontro dele.
É acolhido por caras inquietas e olhares que se acovardam, está no espaço onde iriam rodar, nesses poucos segundos no local sentiu sombras a escapar para as costas dos líderes de departamento. O ambiente organizado e confortável dos outros dias tinha-se dissipado. Ouve passos confiantes a dirigir a si, sem dúvida de quem lhe deve comunicar o porquê deste estado. O primeiro assistente de realização enfrenta-o, como quem está pronto a ser julgado e punido.

Acredita-se nas palavras que recebe, já não são novas para ele mas nunca chegou a ouvi-las com a faltar tão poucos segundos para dar uma produção como concluída. O realizador desesperou, gritou que não havia filme, acusando a atriz como culpada e que preferia refilmar tudo com crocodilos do que concluir a obra com ela. Por fim trancou-se no departamento de guarda-roupa, imóvel e incomunicável.
Terminou o relatório, o produtor silencioso procura auditivamente o epicentro do interminável choro feminino. Nunca lidou com um caso tão extremo de ansiedade artística e noutras ocasiões resolveu-as com diálogos e apoio aos visados, ou com um ou dois dias de folga para todos, mas sabe que isto não ia funcionar agora. É financeiramente inviável, até estúpido, adiar por segundos de filme. Incerto do estado do realizador, ele questiona o primeiro assistente quão familiar está com a visão do cineasta nesta cena, a que ele responde como se fossem almas gêmeas. Com um leve sorriso, o produtor pede-lhe para assumir a direção, que ele aceita compreensivelmente.

O produtor vira-se para os restantes assistentes de realização e produção e dispara: reúnem toda a equipa, as filmagens vão prosseguir e terminar hoje, tragam-me a atriz e chamam a maquilhadora e o cabeleireiro. Olha o décor, luzes e câmera prontas, e se esses estão, então a atriz já estará vestida para filmar. Por sorte esta cena não envolvia som. A ordem mais ousada é para criarem um perímetro de segurança envolta do guarda roupa para isolar o realizador do que está a acontecer e não lhe deixar sair. Todas estas decisões não lhe saíram facilmente, será uma enorme dor de cabeça resolver tudo com o realizador, nos pior dos casos poderá bani-lo da sala de edição, mas terá de rever o contrato com um advogado, mais barato que adiar a rodagem. O maior risco é o realizador descobrir o que está a passar, não há dúvida nenhuma, que ele sairia de rompante a impedir a rodagem, fisicamente se necessário. Isto seria uma golpada enorme na baixa moral da equipa e uma catástrofe para a já frágil atriz, teria de evitar a todo custo.

A atriz chega, olhos rosados mas mais calmos, provavelmente ser chamada e obrigada a dirigir-se ao produtor criou um senso de estabilidade e autoridade. Ele apoia as mãos sobre os ombros dela e suavemente conta a verdadeira razão, a mãe do realizador morreu, e que só poderia agir assim como um artista, de sensibilidade extrema, à notícia de morte. Para além de lhe ter dito que tinha adorado ver tudo o que foi filmado após cada dia. A morte, uma mentira não das melhores, mas o suficiente para atriz se recompor e afastar-se do ataque do realizador. Visivelmente confiante, vira as costas, a maquilhadora e o cabeleireiro lançam-se a ela para retocar o trabalho de umas horas antes. Profissionalismo que o produtor enérgico observa, e reflete que após tudo deverá ter uma atuação única, para o bem do filme.

Com algumas gravações já no bolso, o primeiro take foi perfeito para o produtor, o realizador mantém-se alheio e preso no guarda roupa, mas a questão subsiste na cabeça do produtor acerca da atitude dele, após todos os dias terem visto as filmagens novas, algumas já editadas, e de lhe confiar que estavam a criar uma obra prima, e o produtor até via um bom percurso de festivais e retorno financeiro em curto prazo. Porque o desespero? Será um mistério para sempre ou até falar com ele.
Um estúdio escuro onde ainda se nota vestígios de existência humana até há pouco, quente, com o estalar das luzes, a arrefecer, a preencher o ar. Iluminação suficiente para alguém se movimentar até à porta do exterior, que está aberta. Cá fora, um produtor, desarrumado e cansado, com um leve sorriso e sentado no chão, a pensar em situações imaginárias, à espera.

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