Correio do Minho

Braga, quinta-feira

No fim do Verão

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2017-09-01 às 06h00

Margarida Proença

Overão está a chegar ao fim; não deixa boas memórias, independentemente daquelas que cada um de nós construiu: a praia, as brincadeiras, a ausência de horas marcadas, a leitura em dia, o riso das crianças, as festas, novas experiências e destinos, por aí fora. Tempo e afetos.
Este verão de 2017 não deixa, contudo, memórias claramente positivas, embora os bons resultados que a economia portuguesa, felizmente, vai continuando a demonstrar.

De acordo com as ultimas estatísticas do INE, o desemprego mantem a sua trajetória decrescente; em junho foi 9,1%, o valor mais baixo observado desde novembro de 2008, e de acordo com o Eurostat, ligeiramente menor que a taxa registada para a zona euro. A estimativa da população empregada em julho aponta ainda para um aumento na ordem dos 0,3% face ao mês anterior, quase mais 12 mil pessoas; claro que o efeito “verão” é importante, mas ainda assim é positivo.

O desemprego nos jovens, ainda demasiado elevado (23,8%), tem mantido uma trajetória decrescente, não confirmado em junho. Por género, as mulheres mantêm uma taxa de desemprego mais elevada do que os homens. O índice de remunerações efetivamente pagas aumentou 5,5% em junho face ao mês anterior, e 9,6% se comparado com o mesmo mês no ano passado.

Os dados relativos ao ambiente empresarial são também positivos; o volume de negócios cresceu 5,6% em junho, principalmente se tivermos em conta o comportamento no mercado externo, principalmente no que respeita à indústria e aos serviços, muito superior ao registado no mercado nacional, o que é bom. O indicador de atividade económica aumentou entre março e maio deste ano, e registou o valor mais alto desde junho de 2002. No que se refere á construção, parece que o pior já passou; a produção, o emprego e as remunerações têm vindo a crescer, bem como o valor médio de avaliação bancária da habitação.

O turismo, já se sabe, de vento em popa. Por todo o lado, se ouve uma mistura de línguas, onde por vezes o português é quase uma exceção. Parece que até abril, Portugal recebeu mais de 5,3 milhões de turistas, o que permite prever cerca de 21 milhões de turistas em 2017, com proveitos de aposento a crescer na ordem dos 20%. Novamente, o crescimento é mais significativo no mercado externo. E ainda que a estadia média tenha diminuído, a taxa de ocupação das camas, bem como os proveitos, cresceu em todo o país. Quanto aos portugueses, e ainda que a visita a familiares ou amigos continue a ter um peso muito elevado (justifica cerca de metade das deslocações), as viagens para o estrangeiro voltaram a aumentar, embora em viagens de curta duração. Cautelas, portanto, nos gastos de lazer … O turismo e as exportações têm vindo a ser o motor da economia, falta ainda que o investimento aumente.

A taxa de crescimento do PIB português recuperou claramente dos períodos recessivos a partir de 2008, com o choque associado à gravíssima crise financeira mundial, e da contração entre 2011 e 2013, marcada pelo efeito da austeridade e pelas fragilidades macroeconómicas, com uma contribuição negativa do consumo e do investimento, como aponta um artigo publicado em abril deste ano pelo Banco de Portugal sobre a evolução do PIB. Um clima interno de estabilidade social, a confiança de que somos capazes de construir um futuro melhor, uma política redistributiva aparentemente mais razoável, no quadro de uma recuperação económica global, justifica estes resultados.

Mas os paradoxos e fragilidades internas mantêm-se, e de forma muito clara, demasiado clara, marcaram este verão de 2017. Li diversos textos de opinião e estudos de caráter científico, alguns datados de anos, sobre a causa dos fogos, com diagnósticos detalhados e listagem de potenciais soluções. Aparentemente, é mais fácil comprar bens, equipamentos sem dúvida alguma fundamentais, relegar tomada de decisões fundamentais no domínio da segurança e das comunicações para o setor privado, do que assumir responsabilidades claras, inequívocas, no que respeita a prevenção e reorganização territorial.

Os indivíduos , e do ponto de vista cultural as sociedades, diferem na sua disponibilidade para aplicar normas, dada também a avaliação que se faz da suas violações.
A economia também procura analisar o impacto de fatores como o grau de controlo individual, a consciência individual e social, a adesão ou aversão ao risco, o grau de instabilidade emocional, a extroversão por exemplo na formulação de escolhas e na tomada de decisão. É fácil responsabilizar todos os outros - mais importante contudo será alterar comportamentos. No contexto atual de eleições autárquicas, a discussão destes temas tem ainda um longo caminho a fazer.

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