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Não Faz Mal

Vamos mesmo continuar a cometer os mesmos erros?

Não Faz Mal

Escreve quem sabe

2020-06-02 às 06h00

Analisa Candeias Analisa Candeias

Regra, disciplina, rigor. Tudo o que nos foi e (ainda) tem sido pedido perante a situação de confinamento. Horários, normalidade, roupa decente que não seja o fato de treino/pijama/qualquer coisa demasiado confortável. Tudo o que nos foi indicado para introduzirmos na rotina de reclusão. Telescola, teletrabalho e telejornal. Tudo o que aprendemos a gerir e a recear durante os últimos meses.
A verdade é que tivemos tendência a um autoconfinamento. Impusemo-nos essa regra, fizemo-la com rigor. O problema tem sido manter a disciplina, que, tal como em tudo o resto, pode e deve ser praticada. Se bem que não foram fáceis os primeiros tempos, e se bem que existiu uma tremenda mudança, de facto fomo-nos habituando a um sistema rígido de isolamento, que não disse apenas respeito à dimensão social, todavia se relacionou similarmente com outras dimensões, como a cultural, biológica ou espiritual. Fomos privados do cinema, do teatro e dos espetáculos, do passeio ao ar livre, do sol e das idas ao ginásio. Fomos privados da celebração do culto em conjunto, da partilha em comunidade. Tivemos de proceder a uma certa inflexibilidade, que nos conduziu também, aos poucos, à sujeição ao nosso espaço individual interior – nem tudo foi mau, aqui existe(iu) crescimento.

A questão da normalidade é muito subjetiva. Afinal, o que é ser/estar «normal»? Neste aspeto, a exceção preconiza o preceito, visto que cada um de nós deve encontrar a sua própria normalidade. Durante os últimos meses, cada núcleo familiar teve de descobrir o seu ritmo, esbarrar-se com novos espaços individuais que cada elemento afinal tem e que não se conhecia, dar-se conta que não existem receitas. Não existem. Ponto. Acredito que cada um desses núcleos desenvolveu a sua própria normalidade, recorreu a estratégias próprias, inventou novas matrizes domésticas. E todos percebemos de que não é inadequado andar de pijama um dia ou outro, que não veio nenhuma tragédia ao mundo se não se experimentaram os dotes culinários e que toda a gente sobreviveu a gavetas desarrumadas. É mesmo isso: não faz mal. Tivemos de dar tempo, de ter tempo. Claro que os horários foram importantes, até para nos mantermos despertos para a continuação de uma vida saudável, com horas de sono suficientes e uma alimentação equilibrada. Esses horários foram igualmente essenciais para comparecermos às reuniões, para nos sentirmos produtivos, em suma, para não desregularmos. Mas não fez mal existir um pouco de desnorte na rotina, tendo em conta que até a habitual «rotina» foi repensada.

E, por último, tudo o que foi «tele». A dificuldade em organizar o trabalho dentro dos espaços de casa, dentro das rotinas familiares, dentro, ou a meio, da telescola das crianças. As barreiras que se quebraram com os mais pequenos também presentes nas reuniões dos pais, os cãezitos que se passearam ao nosso lado ou os brinquedos que voaram em frente ao ecrã. Nada se perdeu, tudo se compôs. E muitos de nós voltaram à escola, falámos outra vez de decilitros e centilitros, do alpinista que sobe a montanha em X tempo e que faz Y metros numa hora. E o novo tempo que passámos em família, que percebemos (outra vez) o quanto é importante. E o tempo que dedicamos ao telejornal, e à informação digital, que nos ajudou a perceber que, no fundo, temos de relativizar. As notícias que afinal não queríamos ler ou ouvir, porque eram espelho de desgraças e de números, números, números. Tudo aprendemos a gerir, com conta, peso e medida. Uns mais do que outros, é certo, mas todos em barcos muito semelhantes. No final das contas, os outros que nos rodeiam não são assim tão diferentes de nós e é possível aprendermos com eles – tanto no bom como no mau.

E agora saímos de casa. Mantendo as restrições e a subordinação. Contudo, de repente, parece que nem nos apetece sair das nossas tocas, tal foi o hábito instalado em cada um de nós. Mas temos de sair, arriscar, beber um café na rua. Assim, numa loucura. A coisa mais banal para um português, beber um café, tornou-se uma cerimónia de tira-põe, com a máscara sempre atrelada aos nossos dedos e colada à nossa cara. E uma cerimónia pensada, estudada, feita ainda com um certo receio. Que é necessário colocar de lado, senão não vivemos, não aproveitamos novamente. Com os cuidados certos, é certo. Com os rituais de tira-põe, e as etiquetas que nos são pedidas. É necessário que voltemos à rua, que o dinheiro circule, que se ajude a quem mais precisa. E que não hajam perdas naquilo que aprendemos. Afinal, o esforço tem de ser recompensado.

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