Correio do Minho

Braga, sexta-feira

'NO CORAÇÃO INCERTO DE UM SENTIMENTO MÚTUO' por Liliana Malaínho

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2010-07-01 às 06h00

Escritor

No fundo, até o meu inconsciente gosta que a minha metade responsável e respeitadora se sinta protegida. É algo que não cai nos nossos lábios, que não voa até aos nossos ouvidos, que apenas o coração sente e a razão não consegue explicar. Por vezes a minha vida atinge um nível tão disparatado que cada acto chega a ser um tiro no escuro. E tu conquistas o prémio de maior tiro e eu o alvo que cede e espera por ti, só porque em mim vive uma voz que me diz que a espera é a escolha certa.

Eu acredito vivamente que está nos meus genes o desespero incessável provocado pela espera tardia e ilimitada! Vives nos meus sonhos que me acalentam a noite e a memória faz o favor de te decorar e de me fazer viver momentos que já foram embalados e adormecidos em tempos e remorsos. Alimentas-me como se o teu amor fosse a minha droga e por muito que a razão me leve por rumos em que tu não me atormentas a alma, o meu coração suborna-me sempre e eu condescendo a estes caminhos romanescos e de espera infinita.

Podia cair num sofá aleatório e adormecer, ir para casa descalça no fim de toda a agitação ou simplesmente implementar no momento a única regra que me impedia de cometer o maior erro, mas eu sou especialmente obstinada e intrigada e por esse mesmo facto, a noite que me fazia valorizar as estrelinhas fez-me voltar ao passado… sentou-me nas nuvens e levou-me a uma situação demasiado longínqua da razão. Da tua razão…
- Dizem que tal como a noite aconchega as estrelas, a bebida aconchega a nossa diversão.
- Também me disseram que tal como os pés nos levam a certos rumos, o coração faz com que viajemos em trilhos certeiros… o destino sensato faz de nós ponto de encontro.
- Não sei se a insatisfação também está presente nesse teu discurso mas eu adoro, ou melhor, continuo a adorar falar contigo.

Tanto adorava como me desfazia em mil cada vez que os teus lábios soavam quase a tocar no meu ouvido. O cansaço impedia-me de procurar alguma pista que me cedesse o passo seguinte, como se tu funcionasses apenas por indícios exactos e o meu coração entendesse cada um deles. Em êxtase total li novamente os teus lábios ao som de uma balada que se ouvia num extravagante e excessivo som.
- Sabes que a vida é como uma música: tem altos e baixos.
A lábios trémulos perguntei:
- E nós?
- Nós somos ainda mais confusos… como um relógio, mas sem pilhas. Parados no tempo.

Há sentimentos de que não prescindo e o que sinto por ti é dos que mais dá trabalho à compreensão. Tanto ou mais trabalho que tive da vez em que percebi o que se passou connosco: compreendi que nem todos os beijos são dias futuristas, que nem todos os abraços implicam seguranças e que todas as promessas não são laços do futuro.

Talvez tenha sido essa a razão do nosso fracasso. Ou isso ou o facto de nunca te ter dito que me apaixonei pelo teu sorriso e pela tua calma demasiada. Eras tu quem me acalmava e agora sinto-me como se estivesse ligada à tomada. Mas quando me tocas eu desligo-me, desligo-me do mundo, desligo-me de tudo menos de ti.
- Talvez não seja a nossa, mas a vontade alheia a não querer que te amarre assim, desta maneira brusca e primitiva.
- Eu quero, e quero demais até porque os meus olhos transbordam de felicidade.

Ando desacomodada com todo este remoinho sentimental mas, na realidade, nunca me foste indiferente. Talvez por isso tenha significado tanto o beijo imperial que me deste após o nosso jogo de palavras. O meu sexto sentido nunca me engana. Não me engana nem me deixa iludir, triste é saber que é o único.
Fico sempre nua de argumentos cada vez que me deitas em lençóis racionais. Chama-se auto-destruição psicológica e inferioriza a minha auto-estima.

Às vezes farta ter saudades de me sentir assim, inferiorizada pelo nosso próprio sentimento. Cansa ser asfixiada por tanto fulgor, chegando ao ponto culminante de te ter nos meus braços. Cansa ainda mais a ilusão criada no presente e o futuro devastador que me flagela. Há dias em que me canso apenas por me tentar convencer que tu não passas de uma história inventada pela minha intenção. És irreal… eu queria que fosses irreal!

São três jogadas simples e a táctica é irreversivelmente mágica: seduzes-me, beijas-me e o momento que decida o óbvio. Desgasta-me a lógica com que lidas com cada situação. Por muito que eu queira esquecer eu sei que o futuro me irá reservar mais uma surpresa destas que têm um final programado.

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