Correio do Minho

Braga, quarta-feira

No comboio...

O que nos distingue

Conta o Leitor

2015-08-21 às 06h00

Escritor

Alfabeta

Era um dia quente de verão, finais de Julho. As pessoas atropelavam-se na correria desenfreada de chegar mais rápido ao comboio que partia de Campanhã para Braga, na tentativa de conseguir arranjar lugar sentado. Alice com quase cinquenta anos tinha uma figura linda. Em seus tempos de juventude, sempre suscitara olhares de admiração à sua volta. Hoje, tal como em seu tempo de juventude, vestia de forma simples, denotando um certo gosto próprio, sem vulgaridades, um pouco até com alguma irreverencia.

Encontrava-se já dentro da carruagem. Chegara cedo e aquela hora, mesmo em período de férias, o comboio rapidamente lotava. Lia tranquilamente um livro que sempre trazia no fundo da bolsa, enorme, onde tudo cabia. Parecia encurtar o tempo permitindo-lhe alhear-se de tudo quanto á sua volta se passava, pelo menos tentava.

Depois de um intenso dia de trabalho, mesmo cansada, relaxava, lendo. Era professora de Português do 2o Ciclo e fazia pesquisa/ investigação para um trabalho que gostaria de editar. Estava no início dessa pesquisa e as viagens de comboio eram frequentes. Preferia deslocar-se de comboio, a servir-se do carro perdendo imenso tempo em longas filas de transito, na procura de estacionamento, no controle da ansiedade, levada á exaustão, pela constante falta de civismo e pela falta de educação dos condutores. Resolvia a questão viajando de comboio, seu transporte preferido.

Gostava imenso de crianças. Tinha três filhas já crescidas. Casou e foi mãe muito cedo. Admirava todos quantos tranquilamente adormeciam, ignorando os ruidosos barulhos, os incomodativos cheiros a suor, as conversas de adolescentes utilizando a cada frase um chorrilho de palavrões, os programadores informáticos falando uma linguagem codificada, e outros ainda, falando uma mistura de português saxónico ou françoguês. Não era apenas pela diferença de idades, não sentia que o fosse. Bastava que os separassem uma década, para que a diferença de linguagem fosse sentida de forma acentuada.

Na sua frente, um senhor de idade, de pernas abertas, sentado com algum descuido. Ao lado uma jovem que repousava, em seu colo, um bebé de meses e ainda num cantinho do banco, colado a ela, um menino de olhos enormes, com cerca de quatro anos olhava- a fixamente.

Nem o menor sinal de preocupação pelo sensível quadro. Ninguém se mexe, vendo aquela mãe tão “carregada”. Ninguém se disponibiliza a dar um pouco do seu conforto aquele pequenino que permanecia “esmagado” contra a mãe. Alice começava a sentir-se inquieta. Está demasiado cansada para se levantar e dar seu lugar fosse a quem fosse...Inclinou-se ligeiramente e disse:
- Deixe que eu levo o seu menino no meu colo, assim como está, não fica confortável. O olhar da jovem não foi de todo claro, um misto de agradecimento e desconfiança. - Oh...oh...ele ainda pesa um pouco, deixe estar... - Assim como está com esse pequenino no colo não tem espaço para se apoiar devidamente e o bebé ainda acorda. Vai para onde?!...

- Vou pra Braga... Angel, a senhora linda leva-te no colinho, queres...?Muito obrigada! O pequenito parecia estar desde o começo da viagem á espera desse colo. Saltou rapidamente do lugar onde se encontrava e colocou-se na sua frente, esperando aquele colo inesperado.
No mesmo banco, do lado de fora encontra-se um jovem, parecia estrangeiro (com phones nos ouvidos) que se encolhe ligeiramente vendo o pequenito aninhar-se nos braços de Alice recostando-se...descontraidamente. - Vais portar-te bem ouviste? Diz a mãe. A jovem mãe, de olhar vagamente triste, belos olhos esverdeados, cabelo cor de avelã, bem tratado, com uma dição perfeita mas um sotaque sui generis... Linda!

- Estás bem? Dizes-me o teu nome? Pergunta Alice - Angelico... tenho...tenho quatro anos e gosto de ver televisão, desenhos animados...tartarugas ninja...a minha mamy não...não deixa-me ver sempre a televisão e eu...e eu... - Não vais chatear a senhora falando toda a viagem pois não filhote? Alice sente a cabeça do pequenito reclinar-se com uma ligeira pressão, apoiar-se em seu peito, dizer inesperadamente em resposta à mãe... eu porto sempre bem. Entretanto, a bebé continuava dormindo num sossegado relaxamento de suave indiferença. - Olha...olha... lá em baixo... tanto mar... e... barcos grandes... mamy... e inclinava seu corpinho para a frente colando o rosto na suja janela.

- Filho estás a incomodar a senhora. Não te inclines tanto prá frente. Todo despachado o pequeno levanta-se de imediato, tropeçando nas pernas do senhor da frente que continuava sentado de forma desleixada, ocupando mais lugar que o necessário. - Angel!!! Grita de forma suave a mãe. O homem lá se foi ajeitando, no assento, com cara de poucos amigos, para dar lugar á criança que queria, de pé, todo esticado, junto á janela, espreitar para a paisagem que ia ficando para trás. - Dás um gelado mamã quando irmos pr’avó e deixas andar na bicicleta do Saul? - Claro que sim filho mas agora faz favor de estar quieto. Estás a incomodar as pessoas. Olha de repente para Alice e pergunta-lhe aconchegando-se novamente em seu colo. - Eu não incómo...pois não?

Alice sorriu acariciando a cabecita do garoto, onde brilhavam imensos caracóis num lindo cabelo, um pouco comprido, da mesma cor da mãe e de igual modo muito bem cuidado. - Tu chamas... senhora? Questionou de repente o pequeno Angel olhando Alice. - Não, claro que não. Todas as pessoas têm um nome, só quando não sabemos o nome delas é que chamamos Senhora ou Senhor, entendes? - Então tu és uma senhora com nome, qual é...? Sorrindo da associação rápida e da curiosidade insatisfeita do pequeno, Alice responde sorrindo: - Meu nome é... A L I C E...falou reforçando a acentuação do nome. Gostas? - Sim. Sabes... sabes... no meu infantário tenho uma menina amiga que chama Alice...não é minha namorada... o Diogo é que é... é que é o namorado dela... - Angel vais parar com toda essa conversa? Sabes que a falar assim ficas desassossegado, e estás sempre a mexer-te? A senhora já faz o favor de te levar em seu colo...

- Eu não mexo pois não Senhora...Alice. Olhando directamente para a mãe do pequenino, Alice argumenta: - Não se preocupe...não me custa nada... e já agora, posso saber seu nome?!... - Meu nome é Erica. Nasci em Barcelona, meu pai é português e minha mãe sul africana...o pai dos meus filhos...também é filho de pais portugueses que emigraram para Espanha muito jovens, e ficaram por lá, mas o Peter nasceu em Londres. Os pais dele viajam muito. O Peter herdou deles o desejo de viajar. Trabalha no Japão, Quioto. Alice surpreende-se com toda aquela informação, sem que a ter solicitado, dada abruptamente e de forma inesperada.
- Não necessito de toda essa informação. Gosto de chamar as pessoas pelo nome, quando converso com elas...só isso, mania minha, entende?...

Como a senhora é tão simpática despertou em mim o desejo de lhe falar um pouquinho mais de mim... E avançou em seu diálogo...vim para o Porto quando o Angel nasceu, á quatro anos. Vim para Portugal, Lisboa, estudar com dezanove anos, fiquei na casa de uns tios. Nessa altura conheci o Peter também na faculdade. Ele estava economia e eu ciências da comunicação, em diferentes universidades. Apaixonamo-nos de imediato. Acabamos nossas licenciaturas e decidimos morar juntos. De Lisboa viemos viver para o Porto e depois para Braga onde o Peter tem um apartamento que os avós paternos lhe doaram. Eu engravidei logo de seguida do Angel...e agora da Bella...Isabella. Faço uns trabalhos de tradução, não preciso me deslocar e acompanho meus filhos em seu crescimento.

Bruscamente foi interrompida por algo que chamou á atenção de todos, um grito, vindo da carruagem seguinte. O homem que entra no comboio, mal se segurando de pé, agarra-se á primeira pessoa que encontra. A jovem, assustada, lança um grito...e de imediato vê o homem cair com estrondo no chão. Grita mais alto ainda...Ah...Ah...Ahhhh.... Ocorrem de imediato várias pessoas ao local e outras, curiosas, tentam saber o que se passava.
O homem tinha desmaiado. Coma alcoólico diziam alguns...droga...se calhar as duas coisas...repetiam outros. O comboio permanece algum tempo (felizmente pouco) parado, esperando o INEM, depois prossegue novamente sua marcha.

Provavelmente um bêbado, tentando o equilíbrio a custo, que os desígnios da sorte, conseguiram fazer chegar ao comboio, sem registo de qualquer tragédia, seguia seu caminho, rumo ao hospital mais próximo. A conversa interrompida ficara por ali. A bebé tinha acordado e a jovem mãe, atenta, dava-lhe água no biberão.
O banco onde seguia sentada, ficara livre e o pequeno, atento, saltara de imediato para cima dele. Uma melhor visão panorâmica, através da janela desse outro lado, sentia-se, mais liberto, mais ele próprio...mais criança! - Não agradeces á senhora?

- Não é senhora mamy é... A..lice...O pequeno Angel fazia toda a gente sorrir. Lindo! A imagem icónica que deles se tem, parecia de facto um anjo. O comboio em que seguiam parava em todas as estações e apeadeiros prolongando mais ainda o tempo interminável de seu percurso.
Conversando foram, limitando esse tempo, mitigando-o. Érica esboça um belo sorriso de dentes brancos e certinhos acendendo uma nova luz, naquele rostinho triste que a primeira imagem marcou. - D. Alice estamos quase a chegar ao destino...nem dei pelo tempo passar...

- É a vantagem de dialogarmos em viagem...o tempo passa, sem disso darmos conta. Por favor tire o Dona, apesar de puder ser sua mãe, não gosto que me acrescentem ao nome o Dona.
- ...Não parece mas já tenho quase trinta anos...tem filhos com a minha idade? - Tenho três filhas e a mais velha tem trinta e dois anos. Fui mãe muito jovem, tal como a Érica. Vivo na periferia da cidade, vou deixar meu contacto... se um dia nos quiserem visitar, minha casa estará ao vosso dispor, será um prazer receber-vos.

- A ideia que tinha dos portugueses vai alterar-se completamente porque a senhora, a D...perdão, a Alice fez-me observar que nem todos são aquilo que à primeira vista parecem ser. Alguns familiares dizem que os portugueses são um povo, acolhedor, simpático, generoso, sabem receber.

Já estou cá há alguns anos... não é isso que sinto. Vejo-os tristes, acomodados, embora protestem por tudo e por nada, falando muito alto, no trânsito são uma desgraça...preguiçosos, desconfiados... Apercebo-me finalmente que nem todos são assim.
- Sabe Erica, hoje, não somos apenas portugueses, somos cidadãos europeus, cidadãos do Mundo. Não somos mais os conquistadores, os navegadores á procura de outros Mundos, outros Continentes... Completamos nossa identidade com características comuns a todos os outros... absorvemos aspectos positivos e negativos inerentes á evolução dos povos e ao que hoje chamamos - a globalização.

A nossa diferença está em querermos permanecer um povo aberto a todos os cultos e culturas. É isso que nos torna genuinamente não perfeitos, mas distintos... melhores, na corrida ao conhecimento do que é ser português: - simples Homens do Mundo! O olhar da jovem parecia mais aberto, menos triste. Olha Alice com admiração e sem palavras, com a bebé ainda no colo, inclina-se e dá-lhe um intenso abraço. Alice retribui emocionada. Tinham chegado ao final da viagem, a estação de Braga.

Alice ajuda a jovem mãe a descer do comboio, carregando alguns sacos e apertando com suavidade a mãozinha de Angel. Despedem-se deixando seus contactos. Naquele abraço sentido, ficou algo que iria unir suas vidas numa permanência inquestionável - para sempre!

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.