Correio do Minho

Braga, terça-feira

Não chamem a Supernanny

À espera do S. Geraldo e da política cultural

Voz às Escolas

2018-02-01 às 06h00

José Augusto

Na minha já extensa experiência profissional, raramente vi um aluno respeitador dos professores que não fosse respeitador dos pais ou um filho que tratasse os pais com respeito e não tratasse da mesma forma os professores ou outros adultos com quem tivesse que lidar na escola. Muito mais comummente, constatei, em situações de recusa de aceitação de ordens dos professores, de infração das regras da Escola ou das normas gerais de relacionamento social, a expressão espontânea de comportamentos similares com os pais, mesmo na presença de terceiros, perante a complacência, o embaraço ou a impotência dos progenitores chamados à escola.
A educação escolar, enquanto forma estruturada e organizada de promover o ensino e aprendizagem de grandes grupos de crianças e jovens, convoca, necessariamente, um conjunto de formas normalizadas de regulação dos comportamentos sociais dos indivíduos envolvidos nesses atos.

Na maior parte dos casos, é ao professor que é atribuído o papel de regulador dos comportamentos sociais considerados adequados e necessários à garantia das condições de aprendizagem. Essa responsabilidade, e esse direito, são-lhe conferidos pelos códigos normativos aplicáveis, que, do mesmo modo, exigem aos alunos e aos pais e encarregados o reconhecimento e o respeito pela autoridade dos professores nesse papel de reguladores dos processos de ensino e aprendizagem. A isso acresce, naturalmente, o respeito que lhes é devido enquanto pro- fissionais e enquanto pessoas. Em todo o caso, importa lembrar que existe uma definição e delimitação da autoridade do professor legitimada por códigos legais democraticamente definidos. Nesse sentido, a autoridade do professor de que queremos falar, não tem geometria variável, condicionada à prepotência ou fragilidade do titular da mesma, tem o conteúdo e os limites exatos definidos na lei. É, pois, com esse conteúdo e esses limites que a autoridade dos professores deve ser conhecida, compreendida, reconhecida e respeitada pelos alunos e pelos pais e encarregados de educação.

Na Escola atual, mercê de uma evolução inquestionavelmente positiva, rejeitados que estão outros métodos, como o recurso aos castigos físicos, a autoridade do professor, no papel de regulador das interações na sala de aula, só pode expressar-se através da palavra. E a palavra devia bastar!
Porém, demasiadas vezes, a palavra do professor não produz, no aluno, o comportamento desejado. Pior ainda, com o avançar dos tempos, aparentemente, a palavra do professor parece crescentemente ineficaz, tornando mais frágil a sua autoridade e, consequentemente, a sua capacidade de regular os processos de ensino e aprendizagem e de garantir a todos o direito de aprender. Contudo, na minha opinião, não foi por via das alterações e evoluções dos códigos legais que a autoridade dos professores foi diminuída. Outrossim, não por via dos normativos que o reconhecimento dessa autoridade está enfraquecido ou ausente nos comportamentos e atitudes de um número crescente de crianças e jovens.

Apesar de legitimada pela lei, as principais fontes da autoridade e de legitimação da autoridade dos professores foram sempre os pais. Isto é, a autoridade dos professores sempre foi, e ainda é, uma autoridade implicitamente delegada pelos pais. Assim, na maior parte dos casos, perante os alunos, os professores só têm a autoridade que os respetivos pais lhes reconhecem. Consequentemente, as situações usualmente classificadas como de indisciplina escolar, exprimem, muitas vezes, uma ausência de reconhecimento da autoridade dos professores, tanto pelos alunos como pelos seus pais e encarregados de educação. Por outro lado, mais preocupante, porque cada vez mais disseminada, a ausência de reconhecimento, pelos alunos, da autoridade dos professores mais não é do que a consequência natural da inexistência da autoridade dos pais enquanto educadores e reguladores dos comportamentos e das atitudes dos filhos. Ninguém pode delegar a autoridade que não tem e, hoje, observo um número crescente de pais que não tem qualquer ascendente sobre os seus filhos ou, pior ainda, que lhes estão completamente subordinados.

Para as escolas, esse é um problema sério, ainda que temporário, porque, mais tarde ou mais cedo, todos os alunos acabam por sair da escola. Para as famílias, esse é um problema muito mais grave, não só porque é permanente, como porque tenderá a reproduzir-se nas gerações seguintes.

Não é preciso chamar a Supernanny, mas é preciso chamar os pais a ser pais!

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