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Nesta primavera, que a poesia o abrace

Aprender para ensinar a adaptar

Nesta primavera, que a poesia o abrace

Voz às Bibliotecas

2021-03-18 às 06h00

Aida Alves Aida Alves

Diz o grande poeta António Gedeão, no seu poema Pedra Filosofal que "o sonho comanda a vida". Deixemos que a nossa vida seja comandada pelo sonho e deixemos que os nossos sonhos, em tempo de primavera, voem livres e um pouco mais alto. A primavera aproxima-se a passos largos e, dentro de nós, o coração bate cheio de nova esperança e a alma fica mais iluminada pelo sol que nos preenche mais completamente os nossos dias. O facto de podermos sentir a natureza mais próxima, numa explosão de verde e cores, e deixarmo-nos levar pelos cheiros mais fortes, caminhando pelos caminhos verdejantes ou azuis perto do mar, faz-nos entrar num verdadeiro pro- cesso terapêutico que nos anima e cura. Deixemos o sol vestir-nos o seu manto energético que nos restaura. Libertamos assim, mais os nossos sonhos e projetos de vida, neste tempo tão fora do tempo quotidiano.
O mundo precisa de mais poesia. Consideramos que é necessária uma oferta maior de poesia desde a infância. Não só a poesia física dos atos, o olhar sobre os pormenores daquilo que nos rodeia (o chilrear dos pássaros, as flores que desabrocham, a atenção e cortesia de um gesto, o por do sol, o cheiro da terra molhada), mas também a poesia da palavra escrita e dita. Muita poesia está imortalizada nos livros que tão sabiamente alguns poetas entrete- cem. A poesia tem o dom de acalmar e ao mesmo tempo instigar-nos à sua interpretação. Ler poesia pode ser tão ou mais eficaz do que os livros de autoajuda. A poesia tem o dom de nos enriquecer com palavras e ideias novas, enquanto brincamos com elas. Podemos deixar que ela seja mais presente no nosso quotidiano, como um instrumento de equilíbrio interior, deixando-nos ultrapassar o limite rotineiro do discurso informal, por vezes mais técnico ou científico. Alguns artigos de jornal citam recorrentemente um estudo realizado na Universidade de Liver- pool (Jornal britânico “Daily Telegraph”). Neste estudo, alguns especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa desta universidade, monitorizaram a atividade cerebral de trinta voluntários que leram primeiro alguns trechos de textos clássicos e, depois, estas mesmas passagens foram traduzidas para a linguagem verbal, coloquial. Os resultados desta pesquisa mostraram que a atividade do cérebro dos voluntários disparou quando detetaram palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa. Constataram que o cérebro não tem qualquer reação quando esse mesmo conteúdo se expressa com formas do uso quotidiano. Esses estímulos que o cérebro emite quando o indivíduo faz a leitura de poemas mantêm-se durante um tempo, potenciando um maior nível de atenção. Além destes incentivos que o cérebro recebe, foi descoberto que a poesia afeta o lado direito do mesmo, onde estão armazenadas as lembranças bibliográficas. Com estes estudos, verificamos que uma excelente forma de exercitar a saúde do cérebro, é ler mais literatura e poesia. Assim, a literatura surge não só como uma panaceia de fuga ao quotidiano, mas também com objetivos terapêuticos, e de cura de almas doentes. Pelo menos, aquelas que sofrem da doença que nos provoca a rotina e a vivência do que é quotidiano e vulgar.
Para Thomas S. Eliot, “A poesia não é uma perda de controle da emoção, mas uma fuga da emoção; não é a expressão da personalidade, mas uma fuga da personalidade. Mas, é claro, somente aqueles que têm personalidade e emoções sabem o que significa querer escapar dessas coisas…” Podemos agora entender melhor as nossas reações corporais quando entramos em contato com as palavras poéticas: É o resultado de alguma agitação no lado direito do nosso cérebro. Ou seja, os efeitos da poesia são tão mais marcados, quanto mais predisposição temos para a sentir. É uma espécie de reação em cadeia, que faz com que, quanto mais lermos poesia, mais benéficos são os seus efeitos. A poesia, no ser humano, autoalimenta-se. Por isso, se anda afastado da poesia na sua vida, considere uma reconciliação. Comece leve, com um poema simples e pouco complexo. Deixe que a sua alma absorva a mensagem o mais completamente possível. Vai notar que cada vez mais precisa de poesia na sua vida. E, um dia, quando notar que até nas coisas mais simples, o seu cérebro raciocina na forma poética, vai notar que está apanhado, viciado, nesta forma esdruxula de pensar. Vai notar que já não consegue fazer contas simples de somar, sem lhe adicionar o verde de um prado ou o azul profundo do mar. Vai notar que a poesia é a sua forma de pensar a vida.
Nesta primavera, desejo que a poesia o abrace.

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