Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Nem oito nem oitenta

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2016-05-31 às 06h00

Jorge Cruz

Segundo o semanário Expresso, o núcleo duro de conselheiros do Presidente da República terá aconselhado Marcelo Rebelo de Sousa a moderar as suas palavras e atitudes. A sugestão ou, se preferirem, a advertência ou chamada de atenção, terá surgido depois de Marcelo ter apontado as eleições autárquicas como primeira meta temporal da estabilidade governativa. “Depois das autárquicas, veremos o que se passa, mas o ideal para Portugal, neste momento, é que o Governo dure e tenha sucesso”, acrescentou.

Estas afirmações do Presidente da República, que causaram um certo arrepio à esquerda e encheram de alento uma certa direita, podem e devem ser arrumadas no lote dos disparates mas não devem ser ignoradas. E não devem passar em claro porque admitem leituras dúbias, logo nada consentâneas com aquilo que se espera do supremo magistrado da nação. Nessa medida, podem considerar-se muito pouco estabilizadoras até porque evocam um cenário de pré-crise governativa que, felizmente, parece não estar no horizonte próximo.

Quero acreditar que esta intervenção presidencial correspondeu apenas a um momento infeliz de Marcelo e que deve ser levada à conta de alguns traços da sua personalidade - um homem impulsivo, que não consegue estar calado muito tempo, e que tarda em libertar-se das vestes de comentador para assumir por inteiro as altas funções em que está investido.

E esta convicção também assenta no facto de Marcelo ter tentado clarificar posteriormente as polémicas afirmações, ao dizer que “o Governo dura uma legislatura mas (que) em Portugal há uma tradição de as autárquicas terem uma leitura nacional”, e lembrando que “já houve vários casos”. Mas este cenário, curiosamente traçado pelo próprio Presidente, é desde logo por ele afastado de uma forma assertiva: “não acho que o Governo vá cair” por causa das autárquicas.

Numa tentativa de arrumar com a confusão que as polémicas afirmações suscitaram, Marcelo explicou ainda que foi “para se perceber que estava fora de causa, nestes dois anos, haver instabilidade. E depois também era desejável que não houvesse. Como havia grande especulação sobre certas leis (35 horas e maternidade de substituição), queria dizer que nada se alterou significativamente desde o começo da legislatura e das minhas funções. A maioria está estável”, concluiu.

Convenhamos que a explicação posterior se apresenta um pouco confusa, mais parecendo uma famosa rábula do humorista Ricardo Araújo Pereira sobre a personagem. Mas em qualquer dos casos, tendo sido ou não gaffe, e até para tentar evitar outras polémicas, Marcelo Rebelo de Sousa deve procurar enquadrar-se tão rapidamente quanto possível nas funções presidenciais, desempenhando o papel de presidente de todos os portugueses, e deixando as tarefas governativas para o Governo e os comentários para os comentadores.

Obviamente, não é minha ideia coarctar a Marcelo a possibilidade de intervir, pela palavra, sempre que o entenda, bem pelo contrário. Os tempos da múmia pertencem ao passado, felizmente, mas não creio que seja vantajoso para a democracia passar de oito para oitenta, sob pena de a palavra do Presidente da República poder vir a vulgarizar-se perdendo dessa forma peso institucional. É por essa razão que, nesse caso particular, discordo democraticamente do meu amigo Manuel Alegre, quando ele afirma, embora com uma boa dose de ironia, que “o homem também tem de dizer qualquer coisa, senão qualquer dia parece que foi eleito pela esquerda”.

Não tenho quaisquer dúvidas de que há quem aposte no insucesso do Governo do Partido Socialista. Acredito que a desilusão aumente nessas hostes à medida que o Governo vai conseguindo ultrapassar todos os obstáculos que se lhe deparam, alguns colocados à má fila. E não duvido que as próximas autárquicas sejam vistas como a tábua de salvação a que ainda se agarram os náufragos da embarcação da direita.

Mas, obviamente, Marcelo não pode dar corda a este tipo de pretensões, não pode fornecer suplementos de esperança a quem tão mal tratou os portugueses, sob pena de ser visto apenas como líder de facção e não como Presidente de todos.
Ao adoptar uma postura mais institucional, que naturalmente pressupõe maior moderação nas palavras e actos, conforme terá sido aconselhado pelo seu núcleo duro, Marcelo contribuirá decisivamente para a tão apregoada quanto desejada estabilidade governativa. E evitará leituras dúbias das suas palavras, isto é, interpretações diferenciadas, em função dos interesses em presença. É isso que se espera do supremo magistrado da nação.

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