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Escreve quem sabe

2021-04-09 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Há palavras que pegam de estaca. Nascem em terra de ninguém. São lançadas às sortes e germinam. Em maio de 1994, bastou um editorial assinado pelo malogrado Vicente Jorge Silva, no então imberbe Público, para o vocábulo “rasca” carimbar uma geração.
Confesso que não sinto bonomia quando olho as razões que foram invocadas para uma geração ter levado com este selo na testa ao longo de um quarto de século: egoísmo, boçalidade, radicalismo e, acreditem porque foi escrito, o erro de querer que o Estado pagasse à juventude o que ela gastava em roupa ou em copos.
Vem isto a talho de foice quando leio que existem cerca de 200 mil jovens em Portugal que não trabalham nem estudam. São os nem-nem ou NEET, acrónimo inglês que timbra aqueles que se encontram “sem emprego, nem envolvidos em educação ou formação” (not in employment, education or training). Uma outra forma de avaliar, é referir que são uma fatia da sociedade desligada do mercado de trabalho e do universo da educação que vive em situação de exclusão social, longe do radar das políticas sociais que permitiriam a sua eventual inclusão.
Em Portugal, os jovens são dos que mais tarde saem de casa dos pais (29 anos), acima da média da União Europeia, segundo o Eurostat. Não cria espanto o rótulo. A sociedade é pródiga em tatuar tempos, ilustrados em relatórios públicos. Um dos últimos – coordenado pelo Instituto Universitário de Lisboa (Iscte), no âmbito de um projeto europeu de investigação – explica que estamos perante um flagelo social sem travão nos últimos cinco anos. O drama é maior nas zonas rurais devido à fragilidade do tecido económico e a fenómenos como o abandono escolar.
Não estranha que este tema esteja no centro da agenda política da União Europeia cuja mira está na redução do desemprego entre os jovens e na procura de os introduzir com êxito no mercado de trabalho. O conceito tem sido amplamente citado como indicador para a formulação de políticas orientadas para a juventude em matéria de empregabilidade, educação, formação e inclusão social nos Estados-Membros europeus desde 2010.
No combate a este ninho de problemas, surge em 2013 a proposta da Comissão Europeia ao Conselho da União Europeia de implementação de uma garantia para a juventude em todos os Estados- Membros. A ideia passou por assegurar que todos aqueles que tivessem entre 15 e 24 anos recebessem uma oferta de emprego, educação contínua, oportunidades de aprendizagem ou um estágio de boa qualidade no prazo de quatro meses após terem ficado desempregados ou terem terminado o ensino formal.
Não obstante, a execução desta medida está longe de alavancar o ânimo, a ponto de muitos investigadores e funcionários governamentais estarem, de forma incessante, a procurar novas formas de acompanhar e analisar a prevalência da vulnerabilidade do mercado de trabalho e da desocupação entre os mais novos. A cooperação tem sido reforçada. O compromisso, para já, está escorado desde 2018 no reforço do envolvimento e capacitação dos jovens até 2027.
É neste crivo de dados que marina o futuro da primeira geração global, toda ela conectada e móvel. Isto, só por si, devia potenciá-la para um patamar sem paralelo a ponto da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmar que estamos perante a primeira geração na história que pode acabar com a pobreza extrema e garantir o futuro das pessoas e do nosso planeta.
A meu ver, temos na rua um tempo garboso. Nunca como agora o futuro pode ser guiado por mãos com um talento de conexão, realização, inovação e confiança ímpares. Saibamos dar-lhes estrada para andar. Mais do que letras (X, Y, Z) ou termos (Baby Boomers, Millennials, Centenials, Alpha), há uma bazuca de saber incomparável nesta geração. Com ou sem GPS, nasceram para ser protagonistas. Irão ocupar cargos que ainda não existem. Já viveram duas crises num curto espaço de tempo. Têm calo para falar e decidir. Esta autoridade irá deixar uma pegada de sapiência. Caso esteja errado, temos um exército com uma bomba-relógio nas mãos.

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