Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Natal para acalmar a temperatura

As Bibliotecas e as Escolas

Ideias

2015-12-13 às 06h00

Artur Coimbra

Sem que tenhamos dado por isso, tão vertiginoso é o transcorrer do quotidiano, estamos a escassos dias da celebração da festa maior da família, que é indubitavelmente o Natal.
E o Natal religa-se ao reviver das tradições que os portugueses mais acalentam e vão revisitando por estes dias, seja a nível gastronómico, cultural, social ou antropológico.
Nesta quadra, o que mais sobressai, obviamente, é o intenso apelo ao consumismo desenfreado, intensificado pelos meios de comunicação social, em especial pela televisão. Não há minuto nos intervalos televisivos, em que não se apele ao consumo dos brinquedos os mais tecnológicos, de telemóveis, de tablets, de perfumes, de tantos e tantos bens, mais ou menos (des)necessários.
O Natal investe-se na oferta de bens materiais. Nos super e hipermercados os consumidores acotovelam-se, carregados de sacos com prendas para oferecer a quem, tantas vezes, ao longo do ano, nem uma palavra de conforto e amizade dão, nem um beijo, nem um abraço. Podemos falar em profunda hipocrisia nesta quadra, em que o primado continua a ir para o ter, em vez de distribuir a riqueza do ser.
E aqui volta a surgir-me a poesia de um dos nomes maiores da literatura portuguesa, António Gedeão, que assina um texto que se me revela paradigmático desta quadra e do Dia de Natal, nas suas diferentes facetas, mais sérias ou mais irónicas, e que não me canso de citar e recitar por esta altura:

Hoje é dia de ser bom. 
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças, 
de falar e de ouvir com mavioso tom, 
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças. 
É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem, 
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, 
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, 
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria. 
É claro que nem só de comércio e negócios ou de hipocrisia, enfim, de contradições, se tecem os dias desta quadra festiva, em que os corações amolecem e as mãos se dão como em nenhum outro período do ano. A solidariedade, a fraternidade e a filantropia atingem o seu auge por estes dias, porque é necessário e urgente acudir aos mais desfavorecidos, apoiar os mais pobres, exercitar, no fundo, as obras de misericórdia que, nos outros dias do ano, vão ficando para trás, porque a vida é dura, é urgente e não há tempo para olhar para a miséria e o sofrimento, a não ser quando eles caem para o nosso lado, ou atingem familiares ou amigos do peito.
O espírito natalício é, deve ser, uma alegria renovada, uma lufada de ar diferente rumo à felicidade e à paz, interior e exterior, que fazem a diferença numa altura em que a azáfama e a correria caracterizam estes dias.
O Natal deste ano de 2015 inscreve-se numa nova era, um tempo de viragem do quadro político português, com um novo governo que se espera venha a ser um governo novo. Um governo que inspira esperança à maioria dos portugueses, que não obviamente aos apoiantes da solução de direita.
Um governo formado por gente competente para os respectivos cargos (salvo um ou outro erro de casting) e de quem se espera o melhor contributo para as soluções políticas que beneficiem os portugueses.
Como sempre, o discurso oficial começa com a visão apocalíptica, culpabilizando o executivo anterior. Já foi o discurso da “tanga”, “a pesada herança”, o “desvio colossal”, bem mais perto de nós (há apenas quatro anos, que pareceram uma eternidade…) e agora é “um conjunto de desvios na execução orçamental disseminados do lado da despesa e da receita”. Para se atingir a meta deste ano do défice público inferior aos 3%, e que o anterior governo mais uma vez falhou nas suas falaciosas previsões, como sempre aconteceu entre 2011 e 2015 (há outro nome para a reiterada incompetência?) e consequentemente retirar Portugal do famigerado e perigoso Procedimento por Défice Excessivo, o Estado vai ser obrigado, nas palavras do novo ministro das Finanças, ao “congelamento de descativações de despesa e de utilização de saldos de gerência dos serviços, pela redução dos fundos disponíveis nas entidades públicas e pela não assunção de novos compromissos”.
Por esta altura se fala também do aumento do salário mínimo nacional, actualmente nos 505 euros e que subirá para os 535 euros no ano que vem, até atingir os 600 euros no final da legislatura (se lá chegar António Costa…).
E igualmente nas eleições presidenciais, que se realizam em 24 de Janeiro de 2016. Afinal, estamos a pouco mais de um mês de escolhermos um novo inquilino para o palácio rosa de Belém.
É consensual que o candidato mais forte para essa eleição é Marcelo Rebelo de Sousa, o que não quer dizer que seja o melhor candidato presidencial. Marcelo fez a sua fama e proveito num ambiente exterior à política, com as suas homilias dominicais na televisão, comentando a actualidade política nacional e internacional, nas mais diversas áreas. Um respeitado comentador, muito alinhado politicamente nos tempos de crise, não equivale necessariamente a um qualificado Presidente da República.
Outros candidatos se perfilam com algumas hipóteses de passarem à segunda volta, como Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém.
É claro que qualquer destes três candidatos, com todos os seus defeitos, será sempre bem superior à mediocridade do ainda inquilino de Belém, o que só nos pode deixar mais confortados, seja quem for que venha a ser o próximo Supremo Magistrado da Nação.
Encerrado este parêntesis de cariz político, que até desaprimora o espírito natalício, embora se encerre na realidade do país, finalizamos com os votos de um Santo Natal para todos, em paz e harmonia, remetendo a conflitualidade para os convenientes parêntesis, porque nesta quadra é de bom tom acalmar a temperatura política em favor de um coração mais aberto e moderado.
Porque, voltando a António Gedeão, o Natal é

Dia de Confraternização Universal, 
dia de Amor, de Paz, de Felicidade, 
de Sonhos e Venturas. 
É dia de Natal. 
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade. 
Glória a Deus nas Alturas.









Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

21 Setembro 2018

Pecado Original

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.